Entoando “A pátria não se vende, a pátria se defende!”, uma multidão cercou o Congresso no centro de Buenos Aires, nesta quarta-feira, enfrentando não só a chuva, como a tempestade de balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos de água
Ao coro de “A pátria não se vende, a pátria se defende”, uma multidão tomou a Praça do Congresso, no centro de Buenos, nesta quarta-feira (6), somando forças contra a lei do governo de Javier Milei que – submisso a Trump – libera a estrangeirização de terras e dá aval ao incêndio criminoso dos campos. Nas faixas e cartazes, o clima do protesto: “Senadores, façam como nossos jovens nas Malvinas e não como os ingleses”, destacando a determinação de defesa da soberania. Em rechaço à intervenção norte-americana e à subordinação do FMI, bandeiras dos EUA foram queimadas pelos manifestantes.
Sob o cínico nome de “lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada”, o projeto governamental possibilitava a entrega de até 25% dos campos ao capital externo, desregulamentando a “Lei do Manejo do Fogo”, e liberando que uma vez incendiadas as florestas e as áreas protegidas – atualmente intocáveis de 30 até 60 anos – pudessem ser imediatamente colocadas à disposição da especulação, de magnatas e do agronegócio.
Apesar da chuva, o protesto foi gigantesco, com jovens e aposentados, homens e mulheres enfrentando não só a chuva, como a tempestade de balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos de água disparados por mais de dois mil marginais da Polícia Federal Argentina (PFA), Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), Gendarmeria Nacional e Intendência do Distrito Federal, dirigidos pelo governo fascista.
Como ressaltou o secretário-geral da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA-Autônoma), Hugo Godoy, “temos orgulho de ser um povo digno que defende a pátria”. “Hoje estamos reunidos aqui, diante do Congresso, para dizer não à lei de inviolabilidade da propriedade privada, que é conversa fiada para entregar a pátria, destruí-la e nos transformar em colônia”, sublinhou.
Mesmo sob a brutalidade da repressão, que deixou ao menos 30 presos e mais de 1.500 feridos, os manifestantes não arredaram pé, retornando à praça e às ruas próximas, entoando o hino nacional e palavras de ordem como “o povo unido jamais será vencido”, sublinhando que chegou a hora de Milei ir embora.
O secretário-geral da Federação Judicial Argentina, Matías Fachal, destacou o caráter “histórico e transcendental” do protesto, pois “dos desdobramentos do que acontecer no Congresso comprometerá as gerações futuras, pois nossa soberania está em jogo”. “Mesmo que tenham retirado o capítulo sobre a desnacionalização, permanecem aspectos muito nefastos”, acrescentou.
“AS MALVINAS SÃO ARGENTINAS”
A forte reação popular foi inspirada na reivindicação da soberania sobre as Ilhas Malvinas, fortalecida pela selação quando após a partida contra a Inglaterra, na Copa do Mundo, foi erguida a faixa “As Malvinas são argentinas”, reproduzida inclusive com a mesma letra.
A vitória obtida em dois pontos cruciais estimula os manifestantes a ampliarem a pressão sob os parlamentares e a reivindicarem a rejeição integral do nefasto projeto, que inclui atropelos aos direitos humanos como a autorização dos “despejos express” para inquilinos que não conseguirem pagar o aluguel em um período de dez dias (10 dias!), e a retirada de instrumentos do Estado para a realização de desapropriações.
Presente ao ato, o governador da província de Buenos Aires e líder peronsta, Axel Kicillof, condenou “a loucura da venda de terras rurais a capitais estrangeiros” e a dos “outros capítulos desta lei que também são nefastos”.
“Quiseram emplacar uma lei para vender o território argentino e entregar a soberania aos estrangeiros entre a semifinal e a final da Copa do Mundo. Hoje ficou evidente que ela é invotável: adiaram o debate pela terceira vez. É tão indefensável que não têm nem coragem de mencioná-la”, ressaltou o senador Eduardo “Wado” de Pedro.
QUATRO HORAS DE REPRESSÃO E TIROS
Ao longo das quatro horas de brutal repressão nas imediações do Congresso, os policiais e agentes receberam ordens para dispararar contra os corpos dos manifestantes, como ficou evidenciado, pois em vez de mirar para o alto ou para os pés, usaram as chamadas armas “menos letais” para provocar ferimentos graves. Entre as vítimas comprovadas esteve uma fotógrafa, atingida por várias balas de borracha na cabeça, que sofreu traumatismo craniano, e ao menos dois manifestantes atingidos por tiros nos olhos. Vários outros foram detidos pela polícia por “resistência à autoridade”.











