Diante de um plenário com delegações de dezenas de países vaiando e abandonando o recinto e manifestação diante da sede da ONU, em protesto contra seus crimes contra o povo palestino, Netanyahu desfilou uma série de afirmações falsas
Diversos órgãos de imprensa checaram o discurso, entre eles o jornal New Arab, que levantou pelo menos oito afirmações distorcidades e mentirosas. Seguem as informções com as respectivas fontes nas quais o jornal se baseou para desmentir Netanyahu:
“Várias de suas afirmações contradizem dados publicados pelas Nações Unidas, conclusões de investigações até do governo americano e informações divulgadas mesmo pela mídia israelense”, denuncia o New Arab.
1. Violência de colonos na Cisjordânia
Sem poder negar os violentos e constantes ataques dos usurpadores judeus na Cisjordänia, os designados pela qualificação neutra de “colonos”, Netanyahu tentou minimizar os ataques na região palestina que permanece ocupada desde 1967, apesar das resoluções em contrário aprovadas pela própria ONU a qual afrontou com sua presença.
Disse ele que foram “incidentes” e que envolveram apenas 150 pessoas que atacaram e admitiu mortes mas as restringiu a “duas ou três”.
“Dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) indicam um problema muito maior”, contesta o jornal.
“Até 20 de julho de 2026, 18 palestinos haviam sido mortos em incidentes ligados a ataques de colonos, número superior aos 17 registrados ao longo de 2025, um total de 35 em menos de dois anos”.
Além disso, prossegue, “o número de ataques de colonos registrados chegou a 1.835 em 2025. Durante os primeiros quatro meses de 2026, a média mensal subiu para cerca de 190, a maior taxa diária registrada pelo OCHA”.
Para se ter uma ideia sobre as consequências destes ataques diários que incluem demolições de casas, incêndio de carros, vão salém de mortes e ferimentos. Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, ataques a pastores de ovelhas, e a palestinos em colheita de azeitonas com cortes de árvóes e fogo ateado nelas e ainda pichações ameaçadoras de “Morte aos árabes” nos muros das cidades e aldeias, tais ataques forçaram o deslocamento total ou parcial de 123 comunidades palestinas, incluindo 47 que foram completamente esvaziadas.
A descrição de Netanyahu também omitiu a influência política no regime de Israel do movimento dos usurpadores, cujas principais figuras ocupam cargos ministeriais em seu governo e fazem incitamentos constantes aos palestinos.
2. Resistência Palestina ‘rouba’ ajuda humanitária.
Netanyahu reiterou a alegação do governo israelense de que a Resistência Palestina havia roubado a maior parte da ajuda humanitária que entrava em Gaza.
Na verdade, diz o New Arab, “Israel tem usado acusações de desvio generalizado de ajuda para justificar restrições às entregas” e à fome generalizada causada por estas restrições.
Para desmentir a falsidade, destaca que nem “uma revisão interna da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) não encontrou evidências de roubo sistemático de assistência humanitária financiada pelos EUA”.
Uma “revisão examinou 156 incidentes relatados de roubo ou perda entre outubro de 2023 e maio de 2025”, por bandos que atuam em Gaza sob olhar indiferente dos ocupantes e demolidores israelenses.
“A investigação não encontrou indícios de que a Resistência tenha se beneficiado dos suprimentos envolvidos nesses incidentes”.
“A Reuters também informou que autoridades militares israelenses não encontraram evidências de roubo sistemático por parte do Hamas em locais de distribuição de ajuda da ONU”, diz ainda o jornal.
3. Dois milhões de toneladas de alimentos entraram em Gaza
“Netanyahu argumentou que Israel não poderia estar cometendo genocídio porque permitiu a entrada de alimentos e vacinas em Gaza” chegando a dizer que permitiu a entrada de uma tonelada de alimentos por residente local, número divulgado apenas por alguns órgãos israelenses e nunca verificado de forma independente.
Ao contrário, “em 22 de agosto de 2025, a Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC), apoiada pela ONU, confirmou a ocorrência de fome na província de Gaza”.
Quanto `a vacinação contra a poliomielite, esta só ocorreu graças a uma “campanha organizada pelo Ministério da Saúde palestino em colaboração com a Organização Mundial da Saúde, o UNICEF, a UNRWA e outros parceiros”.
Baseado nestas falsidades, Netanyahu rejeitou as acusações de genocídio, classificando-as como a “maior mentira”, no entanto, em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu que as autoridades e forças de segurança israelenses cometeram quatro dos cinco atos definidos na Convenção sobre o Genocídio de 1948.
A comissão também concluiu que altos funcionários israelenses, incluindo Netanyahu, incitaram a prática de atos genocidas. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, respondeu ao discurso de Netanyahu apontando para o mandado de prisão expedido contra ele pelo Tribunal Penal Internacional.
“Em um comunicado, Mamdani afirmou que Netanyahu havia usado novamente a plataforma da ONU para repetir alegações infundadas com o intuito de negar os crimes de Israel contra os palestinos”.
Ele acrescentou que “nenhuma alegação desse tipo poderia mudar o fato de que Netanyahu continua sujeito a um mandado de prisão do TPI por crimes de guerra e crimes contra a humanidade”.
Descaradamente, Netanyahu afirma que não é ele, mas Mamdani que coloca em risco os judeus de Nova York, mesmo diante de milhares de manifestantes, grande parte judeus, repudiando sua presença na ONU.
4. Cristãos em Belém:
Netanyahu afirmou que Belém era predominantemente cristã quando estava sob controle israelense, mas tornou-se predominantemente muçulmana após ser transferida para a Autoridade Palestina, sugerindo que os cristãos teriam sido expulsos.
“No entanto, dados de um censo realizado pelas autoridades israelenses após a ocupação de Belém em 1967 contradizem a afirmação sobre sua composição religiosa anterior. O censo registrou 14.439 residentes na cidade, sendo 46,1% cristãos e 53,9% muçulmanos”, diz o jornal com base em dados publicados pela Biblioteca Virtual Judaica.
Além disso, “o relato de Netanyahu também omitiu os motivos que muitos cristãos palestinos alegam para a emigração. Essas medidas incluem a confiscação de terras, a construção do muro de separação de Israel, postos de controle militar e restrições de acesso à Jerusalém Oriental ocupada”, ou seja, ao “apresentar as mudanças demográficas de Belém principalmente como consequência das tensões entre muçulmanos e cristãos, portanto, ignora os efeitos da ocupação israelense”.
Também omite Netanyahu a perseguição do ocupante israelense a líderes cristãos na Jerusalém ocupada o que inclui ataques e restrições até ao Santo Sepulcro.
5. Alegações sobre crianças mortas em 7 de outubro:
Netanyahu voltou a mencionar que crianças foram queimadas vivas ou tiveram as cabeças decepadas durante ação palestina de 7 de outubro de 2023.
O que foi amplamente contestado.
É o caso do jornal israelense Haaretz que noticiou que algumas alegações divulgadas por equipes de emergência e voluntários da organização israelense Zaka não foram corroboradas pelas evidências disponíveis.
O jornal israelense examinou informações do Instituto Nacional de Seguros de Israel, de líderes de kibutzim e da polícia, entre outras fontes. Ao final de suas investigações, fez menção a uma criança, Mila Cohen, de 10 meses, morta no Kibutz Be’eri quando tiros atingiram a porta do quarto de segurança da família.
Portanto, “as alegações amplamente divulgadas sobre bebês decapitados não foram comprovadas” nem mesmo a mídia israelense embarcou nessa versão mentirosa.
6. O assassinato de um colono perto de Ramallah
Para se chocar com o pronunciamento crítico de Israel pelo presidente francês Emmanuel Macron, Netanyahu mencionou o assassinato de Nathaniel Shukron, pai de seis filhos e cidadão francês.
Netanyahu mentiu, dizendo que Shukron estava visitando uma fonte com seu filho quando um atacante do Hamas atirou nele à queima-roupa.
“No entanto, nenhuma organização armada reivindicou publicamente a responsabilidade pelo ataque, e nenhuma declaração oficial identificou o agressor como pertencente ao Hamas”, diz o New Arab.
Além disso a versão sobre o local do ataque, a fonte apresentada por Netanyahu como lugar de lazer comum a árabes e judeus, a nascente localizada no vale Wadi Raya, perto do assentamento israelense de Halamish, também conhecido como Neve Tzuf, havia sido tomada por colonos cerca de um ano antes do ataque.
Os proprietários de terras palestinos foram impedidos de acessar a área, onde os colonos haviam estabelecido um posto avançado com o objetivo de atrair visitantes.
Todos estes fatos estiveram ausentes do relato de Netanyahu.
7. Gaza antes de 7 de outubro
Netanyahu afirmou que não havia israelenses em Gaza, nem civis nem soldados, em 7 de outubro de 2023, omitindo todo o sistema de controle militar sobre a Faixa de Gaza, assim como uma série de ataques anteriores à faixa de Gaza em momentos anteriores ao iniciado em 8 de outubro e continuado que, até agora, já assassinou mais de 73.000 palestinos e feriu acima de 174.000, além das declarações do seu ministro Gvir, que diz abertamente buscar a expulsão de mais de dois milhões de seus habitantes.
Desde 2007, o território está sujeito a um bloqueio israelense que restringe a circulação por terra, mar e ar e, além destas restrições, “Israel manteve o controle sobre passagens importantes e a circulação de pessoas e mercadorias” e o relato de Netanyahu também omitiu as restrições anteriores de Israel à entrada de alimentos em Gaza.
8. Catar e a mudança na opinião internacional
Netanyahu acusou o Catar de gastar enormes somas para disseminar informações falsas sobre Israel por meio de financiamento a universidades e organizações de mídia americanas, incluindo a sua rede Al Jazeera.
Disse que essas atividades visavam influenciar a opinião dos jovens. O Catar rejeitou a alegação.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Majed al-Ansari, disse que Netanyahu estava tentando desviar a atenção das ações do governo israelense nos territórios palestinos ocupados.
“Atribuir a mudança na opinião internacional, particularmente entre os jovens, a campanhas de influência desconsidera a capacidade de uma geração de formar suas próprias opiniões com base no que testemunhou”, disse o ministro do Qatar.
O fato é que as pesquisas indicam uma mudança significativa nas atitudes americanas em relação a Israel e aos palestinos. De acordo com uma pesquisa da Gallup publicada em fevereiro de 2026, 53% dos americanos entre 18 e 34 anos disseram simpatizar mais com os palestinos, em comparação com 23% que simpatizaram mais com os israelenses.
Foi a primeira vez que a maioria dos entrevistados nessa faixa etária expressou maior simpatia pelos palestinos. A proporção que expressou maior simpatia pelos israelenses também foi a menor já registrada para essa faixa etária.
Essa mudança não se restringiu aos adultos mais jovens. Entre os americanos de 35 a 54 anos, 46% expressaram maior simpatia pelos palestinos e 28% pelos israelenses.
Um ano antes, os números correspondentes eram de 33% para os palestinos e 45% para os israelenses.
Como se não bastasse a enxurrada de mentiras, a virulência do discurso de Netanyahu incluiu ataques ao Irã, Catar, Turquia e ao prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.











