Assessor de Milei e amigo do clã Bolsonaro é preso na Bolívia por tentar matar a mulher

Prática criminosa do parceiro de Eduardo Bolsonaro rendeu ao argentino o apelido irônico de “Cerimiedo” (Reprodução)

Fernando Cerimedo foi detido ao tentar fugir do país no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra. Referência da comunicação digital da ultradireita latino-americana é acusado pela sua companheira, advogada Nadia Beller, de contratar pistoleiros para executá-la grávida

Fernando Cerimedo, arquiteto da comunicação digital da ultradireita latino-americana, assessor do presidente argentino e amigo dos Bolsonaro, foi preso na madrugada de terça-feira (18) no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, ao tentar fugir rumo a Buenos Aires. O megaempresário foi acusado pela advogada e ativista Nadia Beller, grávida de quatro semanas, de enviar dois pistoleiros para assassiná-la.

Câmeras de segurança registraram quando os homens vestidos de entregadores chegaram numa motocicleta e alvejaram Beller com três tiros. Hospitalizada, a vítima acusou o companheiro como “o mandante do crime”.

O Ministério Público boliviano formalizou a acusação de “tentativa de feminicídio” e abriu um segundo processo contra Cerimedo por “enriquecimento ilícito”, após encontrar em dois de seus apartamentos em La Paz, dinheiro escondido em móveis com fundo falso. Além de uma grande quantia de dólares e bolivianos, foram descobertas camisetas da Polícia boliviana, um telefone satelital, e um dispositivo de luz intermitente para imitar veículos oficiais ou de emergência.

O porta-voz da Presidência, José Luis Gálvez, disse que Cerimedo era, de fato, “assessor pessoal do presidente”, mas garantiu que ele não fazia parte do círculo de tomada de decisões do governo.

A Promotoria pediu 180 dias de prisão preventiva enquanto Cerimedo exerceu seu direito ao silêncio e decidiu não prestar depoimento aos investigadores da polícia nem ao Ministério Público.

TREINADO EM OPERAÇÕES ESPECIAIS DOS EUA

Com 45 anos, Cerimedo treinou com a principal força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos, os Navy SEALs, e obteve doutorado em marketing pela Universidade de Phoenix, sendo acusado de estreitos vínculos com o narcotráfico.

A “trajetória” criminosa e golpista de Cerimedo vem de longa data. Ele já havia sido condenado na Argentina, em 2016, a dois anos e seis meses de prisão condicional por “fraude e estelionato” ao vender um mesmo imóvel para dois proprietários.

Em 2019, foi chamado pelo Proposta Republicana (PRO), fundado por Mauricio Macri, para cuidar da comunicação digital da fracassada campanha à reeleição, quando organizou uma rede coordenada de influenciadores para pautar o debate público nas redes.

LA DERECHA DIARIO: MENTIRA, XENOFOBIA E ANTI-IMIGRAÇÃO

No ano seguinte fundou a Numen, sua consultoria política, assumindo o controle do portal La Derecha Diario, hoje um dos principais veículos digitais da extrema direita regional, ligado ao Vox e já condenado na Justiça espanhola por receber dinheiro ilegal não identificado por sua pregação xenofóbica e anti-imigração, e disseminar constantemente notícias falsas.

Em entrevista em 2023, Cerimedo admitiu operar dezenas de milhares de contas fictícias nas redes sociais, apenas na Argentina, utilizadas não somente para atacar adversários, mas para inflar artificialmente conteúdos até que os algoritmos os tratassem como “interações reais e espontâneas”, manipulando os resultados.

A técnica ardilosa se espraiou pela região: do plebiscito da Constituição chilena de 2022, alinhado com o atual presidente José Antonio Kast – defendendo uma agenda de cunho neoliberal e entreguista; assessorou a campanha de Nasry “Tito” Asfura em Honduras, propondo abertamente o alinhamento com os EUA; e, no Brasil, comandando, após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, a transmissão que espalhou um relatório fraudulento sobre supostas “falhas nas urnas eletrônicas”. Em 2023, foi peça central da vitória de Milei, antes de romper com ele em meio a acusações mútuas de corrupção.

O relacionamento com Eduardo Bolsonaro iniciou em 2022 quando, às vésperas do segundo turno, foi recepcionado em Buenos Aires pela nata fascista argentina. Em fevereiro de 2026, Eduardo retribuiu a atenção, apresentando o “bravo argentino” como “Melhor Consultor Político Hispânico do Ano” no evento Hispanic Prosperity Gala, realizado no resort Mar-a-Lago, na Flórida, com a presença de Donald Trump. Em julho, o “estrategista” ainda participou de uma transmissão ao lado de Eduardo.

Mais recentemente, associou-se a tecnologias derivadas da Cambridge Analytica sob licença de Brad Parscale, ex-diretor digital de campanhas de Donald Trump, e conduziu a comunicação que ajudou a eleger Rodrigo Paz na Bolívia em outubro, onde passou a atuar como assessor pessoal do novo presidente – assegurado pelo próprio vice-presidente, Edman Lara. “Vi Fernando Cerimedo dando ordens e instruções aos ministros”, enfatizou Lara,

NEGOCIATAS DO CRIMINOSO INCLUEM PETRÓLEO, GÁS E OURO

Do leito hospitalar onde se recupera, Beller revelou ao veículo argentino C5N: “supostamente, ele me disse que também era agente da CIA – não tenho como confirmar, mas ele me disse isso. Ele gerencia o abastecimento de combustível da Argentina com seu sócio Vicente, para a Futura. Nisso também está envolvido Brad Parscale, aquele que fez a campanha de Trump nos Estados Unidos, que também é agente da CIA. E, bem, fui descobrindo essas situações. Suspeito que eles tenham conspirado para se livrar de mim”.

“CERIMEDO TEM MAIS PODER DO QUE O PRÓPRIO PRESIDENTE PAZ”

Nadia Beller relatou à imprensa que Cerimedo tem “mais poder do que o próprio presidente Paz” e denunciou “negociatas envolvendo combustíveis, diesel e ouro”, dos quais participariam o mandatário, a esposa dele e a família dela. Segundo seu relato, soube das irregularidades por ter convivido com Cerimedo, guardando provas em um segundo celular que os criminosos não localizaram – já que o primeiro foi levado. Temendo por sua segurança dentro do próprio hospital, Beller pediu que o caso seja amplamente divulgado.

A prisão abalou o entorno de Milei, a quem Cerimedo esteve diretamente ligado, e expôs a rede de operadores de desinformação que a ultradireita latino-americana vem utilizando para eleger governos alinhados a Washington e a Israel. Na Bolívia, o vice-presidente Edman Lara e o ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo, exigiram publicamente uma investigação imparcial, sem interferências do Executivo.

Diante dos acontecimentos o ex-presidente Evo Morales exigiu “uma investigação imediata, transparente e que ofereça todas as garantias para proteger a vida da vítima”, bem como uma apuração que abranja “os fatos irregulares e de corrupção denunciados por Beller”.

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