Relatos de agressão física, tortura e tratamento degradante contra ativistas mostram violências israelenses contra missões humanitárias no Mediterrâneo. Interceptação em águas internacionais é flagrantemente ilegal
A denúncia feita pela ativista brasileira Beatriz Moreira, de 23 anos, sobre agressões e humilhações sofridas após ser detida por forças israelenses durante a interceptação da flotilha humanitária rumo à Faixa de Gaza provocou forte repercussão política e diplomática no Brasil e no exterior.
A jovem paraense afirmou ter sido espancada, ofendida e submetida a tratamento degradante por militares israelenses depois da abordagem ao navio da coalizão Global Sumud.
Segundo o relato ao jornal Folha de S.Paulo, os ativistas foram interceptados em águas internacionais quando tentavam levar ajuda humanitária à população palestina sitiada em Gaza.
Beatriz contou que foi algemada com lacres plásticos apertados, arrastada pelos soldados e teve a cabeça golpeada contra estrutura metálica da embarcação. “Me chamaram de puta, me jogaram no chão e bateram minha cabeça num ferro”, declarou ao retornar a Istambul, na Turquia.
O serviço prisional israelense afirmou cinicamente à imprensa que os detidos receberam tratamento compatível com os protocolos do país.
Beatriz nasceu em Belém (PA) e é educadora. Foi uma das lideranças que atuaram na Cúpula dos Povos, evento de movimentos sociais realizado durante a COP30, conferência do clima da ONU ocorrida na capital paraense em novembro do ano passado. Ela é membro do Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil.
“Quando atracamos no porto, começou a parte mais violenta. Eles nos chamavam pelo passaporte, e a gente ia saindo. Eu consegui ouvir os gritos, eram aterrorizantes, especialmente das pessoas do Sul Global. Eles tinham um tratamento muito mais violento com os turcos”, relata a ativista. “Quando alguém era torturado, a gente gritava, e eles reagiam com balas de borracha em nós”, prossegue
Numa revista, no relato de Beatriz, houve mais violência. “Fizeram uma revista agressiva. Eu, já bastante machucada, fui levada para uma tenda maior, com mais pessoas, e só ouvia os gritos das pessoas sendo torturadas.”
Além da violência física, a humilhação dos detentos era constante. “Nos colocaram de joelhos com a cabeça no chão, com o hino de Israel tocando. Os mais agressivos eram os jovens. O pior deles não devia ter mais de 19 anos”, conta Beatriz.
“Em todas as outras flotilhas, um nível de violência como esse nunca havia sido registrado. Eles querem fazer desta flotilha um exemplo, mas a gente vai continuar navegando, sim”, afirma a ativista humanitária.
Ao retornar da detenção, Beatriz resumiu o sentimento compartilhado por parte dos ativistas: “Tentaram nos humilhar para calar nossa solidariedade com Gaza.”
Os planos dos organizadores da flotilha agora são seguir por via terrestre para levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza por meio de uma caravana com partida da Líbia.
O médico brasileiro Cássio Pelegrini, segundo movimentos sociais ligados à missão, precisou ser hospitalizado em Istambul após sofrer ferimentos pelas agressões.
MISSÃO HUMANITÁRIA REUNIU CENTENAS DE ATIVISTAS
A embarcação fazia parte da Flotilha Global Sumud, coalizão internacional organizada para romper o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza e entregar alimentos, medicamentos e itens básicos à população palestina.
A iniciativa reuniu mais de 400 ativistas de diferentes países, incluindo brasileiros, parlamentares, médicos e defensores de direitos humanos.
Entre os brasileiros, além de Beatriz Moreira, estavam Ariadne Teles, Thainara Rogério e Cássio Pelegrini.
Segundo os organizadores, a flotilha foi interceptada pela Marinha israelense nas proximidades da ilha de Creta, no Mediterrâneo.
A operação israelense resultou na prisão de centenas de pessoas e na posterior deportação de parte dos ativistas para a Turquia.
VIOLÊNCIA FÍSICA E INTIMIDAÇÃO PSICOLÓGICA
As denúncias feitas por Beatriz não são isoladas. Outros integrantes da flotilha relataram episódios de estupros, violência, intimidação e maus-tratos durante a detenção.
O brasileiro Thiago Ávila, que integrou uma flotilha anterior, afirmou ter sido espancado por agentes israelenses durante a detenção relacionada às missões humanitárias anteriores.
Segundo relatos divulgados por organizações de direitos humanos e por familiares, o ativista chegou a desmaiar após as agressões e teria sofrido ameaças psicológicas durante interrogatórios.
Nas redes digitais, vídeos e imagens divulgados por autoridades israelenses e por integrantes da flotilha interceptada na segunda-feira intensificaram a controvérsia. Um dos registros que provocaram indignação mostrou ativistas ajoelhados, com as mãos amarradas e a cabeça baixa, sob custódia israelense.
A repercussão levou o Itamaraty a convocar representantes diplomáticos de Israel para esclarecimentos.
EPICENTRO DE DISPUTA HUMANITÁRIA E GEOPOLÍTICA
A crueldade israelense contra as flotilhas humanitárias ocorre em meio ao agravamento da crise em Gaza, devastada pela agressão de Israel e submetida a bloqueios que restringem a entrada de alimentos, água, medicamentos e combustível. Organizações internacionais e entidades humanitárias têm denunciado colapso sanitário e fome em larga escala no território palestino devastado pela agressão do Estado de Israel.
Nesse contexto, as flotilhas passaram a assumir dimensão política global. Para os movimentos organizadores, as missões representam ações civis de denúncia contra o bloqueio israelense e contra a condução militar da guerra.
O caso também ampliou a pressão internacional sobre o governo israelense. Nas redes digitais, a hashtag relacionada à flotilha ganhou alcance global, enquanto movimentos de solidariedade à Palestina denunciaram sequestro e tortura de ativistas civis.











