Milhares de estudantes, professores e sindicatos se manifestaram no centro da capital Santiago para protestar contra o presidente do Chile, José Antonio Kast, no primeiro ato em massa desde que ele assumiu o cargo em 11 de março, na rejeição dos cortes orçamentários, da redução de recursos em áreas sociais (saúde, educação, habitação e trabalho) e de uma mega reforma tributária descrita pelos movimentos sociais como uma transferência de recursos para os ricos.
Segundo a Confederação de Estudantes do Chile (Confech), a maior organização estudantil do país e principal responsável pela convocação da marcha, os ajustes fiscais de Kast são incompatíveis com a realidade econômica do país.
“Não há coerência neste governo, porque, enquanto insistem na existência de um suposto déficit fiscal e na necessidade de cortes nos orçamentos ministeriais, há poucos dias o presidente sancionou o aumento da dívida pública e buscam reduzir impostos para grandes empresas, das multinacionais, o que se traduz em menor arrecadação. Desde o início, o governo demonstra que governará para os poderosos, e Kast deixou isso claro com o banquete no Palácio de La Moneda”, declarou Andrea Abarca, porta-voz da Confech, à CNN durante o ato nesta quarta-feira, 3.
A líder estudantil acrescentou que este governo ameaça acabar com programas essenciais, “como o Programa de Alimentação Escolar, que para muitas crianças e adolescentes é a única refeição do dia; ou a promoção de programas de acesso ao ensino superior, como o programa PACE que garante vagas no ensino superior sem a necessidade de uma nota de corte, sendo destinado a alunos destacados de escolas públicas, e a gratuidade do ensino superior. Mas também estamos nos mobilizando em resposta ao avanço da Lei de Escolas Protegidas, que busca apenas perseguir e reprimir estudantes que expressam suas preocupações e se manifestam contra injustiças, retirando direitos como o ensino superior gratuito”.
SAÚDE E EDUCAÇÃO, SETORES MAIS ATINGIDOS
A manifestação condenou as medidas contra o setor da saúde pública, um dos mais afetados pelos cortes de Kast, com uma redução orçamentária de 2,5% (equivalente a aproximadamente US$ 486 milhões).
Isso gerou indignação entre autoridades, prefeitos e parlamentares, que alertam para as possíveis complicações que podem ocorrer em hospitais públicos e serviços de saúde. O setor da educação, por sua vez, sofreu um corte de quase US$ 221 milhões, segundo a agência EFE.
A insatisfação com os cortes orçamentários é agravada pelo fato de o governo aprovar no Congresso uma mega-reforma com medidas como a redução da taxa de imposto sobre as empresas de 27% para 23% e a concessão de estabilidade fiscal para grandes investimentos durante 25 anos. “Na Confech, denunciamos os retrocessos que o projeto de Reconstrução Nacional [como foi apelidada a mega-reforma] representa. É um projeto que beneficia as grandes empresas, beneficia os mais ricos do país à custa da receita fiscal e da sociedade como um todo”, declarou Diego Torres, presidente da Federação Estudantil da Universidade Mayor, à Rádio ADN.
As medidas econômicas e a postura submissa ao governo Trump de José Antonio Kast nas relações internacionais, apenas dois meses após assumir o cargo, levaram a uma queda em seu índice de aprovação de 58% para 38% e ao anúncio de mais mobilizações por parte de sindicatos e estudantes.
A manifestação, que havia sido autorizada pelo delegado presidencial de Santiago, teve incidentes e confrontos quando o percurso originalmente definido para a marcha foi inesperadamente alterado, impedindo-a de passar em frente à sede do governo, o Palácio de La Moneda.











