A série de ameaças, ofensas racistas e ataques contra comunidades Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul, após a vitória do presidente Lula, vem agravando a violência histórica já enfrentada pelos povos indígenas no estado. A avaliação é de Matias Rempel, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Mato Grosso do Sul, que aponta a presença de manifestações de ódio político no período pós-eleitoral, mas ressalta que elas se somam a um quadro permanente de perseguição, conflitos territoriais e violações de direitos.
“Eu entendo que o que se espera do bolsonarismo e, na verdade, a grande probabilidade é que eles não aceitem quietos o resultado eleitoral e que passem a se envolver em ações de violência, cometendo crimes de ódio”, afirma Rempel. Para ele, a ligação entre o bolsonarismo e os setores do agronegócio no estado ajuda a compreender o ambiente em que as ameaças ocorreram. “A gente sabe que o grupo agrário aqui do MS, na verdade, é o bolsonarismo e vice-versa.”
O coordenador do Cimi, no entanto, faz uma distinção entre os episódios diretamente relacionados à disputa política e as demais violências sofridas pelas comunidades. Segundo ele, a ameaça de envenenamento da água em Tacuru e outros casos identificados têm relação com o ódio político após as eleições. Já assassinatos, atropelamentos e ataques a lideranças e espaços tradicionais precisam ser analisados também à luz de outros conflitos e violações que persistem há décadas.
“Crimes e ameaças com teor de ódio político somaram-se a diversas camadas de violações que estão permanentemente em curso”, afirma. Ao falar dos atropelamentos de indígenas, Rempel destaca que a situação não pode ser reduzida a acidentes isolados, já que “essas pessoas estão abandonadas à beira das rodovias enquanto não sai a demarcação”, diz. Para ele, mesmo os atropelamentos considerados acidentais são “uma tragédia anunciada”, diante das condições a que os indígenas estão submetidos.
Em relação ao cado de Tacuru, áudios atribuídos a servidores da prefeitura circularam após a confirmação da vitória de Lula. Em uma das gravações, um homem afirma que os indígenas deveriam ser envenenados por terem votado no candidato do PT. “Tem que ponhar veneno na água, tem que matar essas pragas na água”, diz o áudio.
Os servidores envolvidos foram afastados, e a prefeitura informou ter instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos. O Ministério Público Federal (MPF) deu prazo de 48 horas para que a administração municipal esclarecesse a autoria e a veracidade das gravações e informasse as providências adotadas. Um dos funcionários trabalhava com caminhões utilizados em serviços de abastecimento de água das comunidades.
Para Rempel, a abertura de um procedimento administrativo não é suficiente diante da gravidade das declarações. O coordenador defende que os responsáveis sejam investigados criminalmente e respondam na Justiça. “Isso não pode nem só virar um PAD. A nossa posição, enquanto Cimi, Aty Guasu (organização política dos povos Guarani e Kaiowá) e Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), é que isso vire uma queixa-crime, que eles respondam por crime”, defende.
A ameaça tem um histórico concreto em MS. O uso de agrotóxicos e outras substâncias tóxicas contra comunidades indígenas já foi denunciado em diferentes territórios Guarani e Kaiowá. Em Ypoi, houve relato de despejo de veneno diretamente em um rio. Também foram denunciadas pulverizações aéreas de agrotóxicos sobre águas próximas a territórios indígenas, com consequências para a saúde das comunidades, inclusive de crianças.
Em 2024, na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, em Douradina, indígenas denunciaram que a água de um córrego utilizado para lavar roupas, tomar banho e até para consumo ficou turva e esbranquiçada. Peixes apareceram mortos e adultos e crianças apresentaram diarreia, vômitos, dores abdominais e mal-estar após o contato com a água. O caso foi levado às autoridades.
No ano seguinte, em Guyraroká, no município de Caarapó, a comunidade retomou uma área de fazenda sobreposta ao território indígena para impedir a aplicação de agrotóxicos nas proximidades das moradias e pressionar pela demarcação. A retomada foi seguida por meses de conflitos, ataques armados e ações policiais denunciadas como abusivas. Houve também denúncia de violência sexual contra uma jovem.
O histórico inclui ainda ataques aéreos com agrotóxicos. Em 2015, a comunidade Tey Jusu, na Terra Indígena Dourados-Amambaipegua I, foi atingida por pulverização sobre barracos de lona. Crianças e adultos relataram dores de cabeça e garganta, diarreia e febre. No mesmo ano, o tekoha Guyra Kambi’y, na região da Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, também foi alvo de dispersão aérea de agrotóxicos. O Ministério Público Federal classificou o episódio como “uma versão moderna do agente laranja usada na Guerra do Vietnã”. Em 2016, indígenas de Laranjeira Nhanderu denunciaram que a pulverização em uma lavoura vizinha matou peixes e contaminou um rio utilizado pela comunidade.
Para Rempel, esse contexto impede que a ameaça de envenenamento seja tratada como uma manifestação isolada ou apenas como ofensa verbal. “O contexto nem permite uma questão diferente. Envenenamento da água é uma das práticas que o agronegócio sempre usou aqui no estado para atacar comunidades”, afirma.
A violência também se manifesta em ataques a lideranças e espaços de referência espiritual. Na manhã de 29 de outubro, a casa de Roberta Ximenes, conhecida como Ñandesy Roberta, de 90 anos, liderança espiritual Guarani e Kaiowá da Aldeia Jaguapiré, em Tacuru, foi destruída por um incêndio. O fogo consumiu instrumentos sagrados utilizados nos rituais tradicionais da comunidade.
A anciã vinha sofrendo episódios de racismo, perseguição e intolerância religiosa. Rempel considera que essa pode ser uma das motivações do incêndio, mas ressalta que ainda é necessário apurar as circunstâncias. “É uma questão de intolerância religiosa, algo que tudo indica, claro. Precisamos apurar ainda. Não temos a confirmação disso, às vezes são outros fatores, mas ao que tudo indica é uma questão de intolerância (religiosa)”, afirma. Segundo ele, caso se confirme essa motivação, o episódio estará ligado a outras formas de violência que atingem os povos indígenas, e não necessariamente ao contexto eleitoral.
O coordenador do Cimi também chama atenção para os atropelamentos de indígenas nas rodovias do estado. Para a entidade, esses episódios não podem ser analisados de forma isolada das condições em que vivem as comunidades, muitas delas instaladas à beira de estradas enquanto aguardam a demarcação de seus territórios. Há casos em que os atropelamentos são apontados como intencionais, motivados por racismo. Mesmo quando não há indícios de intenção, Rempel afirma que a situação de exposição das comunidades torna essas mortes uma tragédia anunciada.
Os dados do relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, elaborado pelo Cimi, dão dimensão desse quadro. Em 2025, Mato Grosso do Sul foi o estado com o maior número de registros de violência contra a pessoa indígena: foram 102 casos, entre eles 37 assassinatos, 18 tentativas de assassinato e 18 ocorrências de lesão corporal. O levantamento também registra episódios de racismo e discriminação, violência sexual, abuso de poder e ameaças.
Em abril de 2026, uma delegação da Aty Guasu levou novamente denúncias a Brasília. As lideranças apresentaram aos órgãos federais uma lista de assassinatos de indígenas ligados à luta pela terra, além de relatos de ataques armados, atropelamentos, desaparecimentos, despejos ilegais e prisões arbitrárias.
As manifestações racistas registradas durante e depois das eleições também atingiram outros povos e municípios. Em Sidrolândia, uma publicação em um grupo de WhatsApp trouxe a expressão “bugrada fdp” para se referir aos indígenas da aldeia Tereré. Em Nioaque, circulou um áudio no qual o autor questiona o direito dos indígenas de votar, sair das aldeias e ter acesso a serviços básicos. Na gravação, defende que sejam cortados o fornecimento de água e de energia elétrica e afirma que “índio é só no mato”.
Também em Nioaque, uma fazendeira cuja propriedade está localizada em área reivindicada como território tradicional indígena teria enviado mensagem em um grupo de WhatsApp com ofensas ao vereador Sérgio Terena. Em outros municípios, comunidades encaminharam áudios, mensagens e capturas de tela com denúncias de ameaças. Alguns relatos, ainda não foram confirmados pelas investigações.
Rempel afirma que é necessário apurar cada denúncia com rigor, sem desconsiderar os relatos das comunidades nem atribuir automaticamente todos os episódios ao contexto pós-eleitoral. Ele explica que os povos Guarani e Kaiowá convivem com ameaças de diferentes origens, que podem ocorrer simultaneamente e se somar umas às outras.
“Um olhar dessas comunidades é um olhar que vai entender que aquilo que está acontecendo em uma ou outra comunidade bota eles a risco e provavelmente seja uma ação intencional, uma ação orquestrada e ligada a esses grupos de extermínio que eles enfrentam sempre, sejam eles da face paramilitar, miliciana ou da face de Estado”, denuncia.
Diante das denúncias, o presidente Lula determinou o envio a Mato Grosso do Sul dos ministros Eloy Terena, dos Povos Indígenas; Wellington César Lima e Silva, da Justiça e Segurança Pública; e Janine Mello, dos Direitos Humanos e da Cidadania. A comitiva foi a Dourados e tinha visitas previstas a Coronel Sapucaia e Tacuru.
A Força Nacional iniciou o policiamento em três comunidades indígenas do sul do estado. O governo federal também criou uma força-tarefa interministerial para receber, organizar e encaminhar as denúncias aos órgãos responsáveis pela investigação. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) acionou a Polícia Federal e informou que acompanha a situação em diálogo com as lideranças e o Ministério Público Federal.
Rempel considera fundamental que a imprensa mantenha a atenção sobre o componente político e eleitoral das ameaças. “Acho importante que as mídias estejam mirando, com a lupa, com a lente, apontada para esse fenômeno”, afirma. Segundo ele, esse olhar permite identificar manifestações de ódio político que poderiam passar despercebidas em meio às diferentes formas de violência enfrentadas pelas comunidades indígenas.
O coordenador ressalta, porém, que essa atenção não deve levar à interpretação de que todos os ataques recentes têm motivação eleitoral. A violência contra os Guarani e Kaiowá é anterior às eleições e continua em suas formas habituais. O período pós-eleitoral acrescentou uma nova camada a esse quadro, como demonstram as ameaças registradas em Tacuru. “É uma camada que não pode ser ignorada, mas que não é tudo. Ela se soma a mais camadas”, resume.











