Conferência Nacional dos Bispos do Brasil alertou contra uso eleitoral da fé: “As igrejas não são currais eleitorais”
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma mensagem ao povo brasileiro sobre as eleições de 2026. No texto, os bispos reforçam o compromisso da Igreja com a promoção da vida, da dignidade humana e do bem comum, além de destacarem a importância da participação consciente dos eleitores.
A CNBB, porém, afirma que a Igreja Católica não indica candidatos ou partidos. A mensagem observa, em outro trecho, que a abstenção não é a melhor escolha e propõe um discernimento que vá além das promessas de campanha.
O texto destaca, no entanto, que a política, quando orientada pela ética, é entendida pela fé cristã e pela Doutrina Social da Igreja como uma forma de serviço à sociedade. Os bispos também defendem que o eleitor considere a trajetória dos candidatos e as consequências dos compromissos assumidos.
A carta manifesta preocupação com a desigualdade social, a corrupção, a compra de votos, o uso indevido de recursos públicos e a disseminação deliberada de notícias falsas. O documento também cita o abuso do poder econômico e político e as diferentes formas de violência como fatores que comprometem a confiança nas instituições democráticas.
O cardeal Jaime Spengler, presidente da CNBB, afirma que a Igreja “não indica candidatos nem partidos”, mas sustenta que o eleitor cristão deve considerar a defesa do bem comum, da dignidade humana e das instituições democráticas.
Os bispos defendem o respeito à Constituição, ao Estado Democrático de Direito e às instituições da República. Em outro trecho, a CNBB também ressalta a importância da confiança no processo eleitoral, do respeito aos resultados das urnas e da observância da Lei da Ficha Limpa.
Ao final, a CNBB reforça a defesa da democracia, da verdade, da justiça e da paz social e encerra o documento com uma oração pela nação brasileira. A carta é assinada pelos integrantes do Conselho Permanente da CNBB.
CONTRA A MANIPULAÇÃO RELIGIOSA
Os religiosos falaram sobre essa questão nas redes sociais. Uma das mensagens mais diretas veio de Dom Guilherme Werlang, bispo emérito de Lages (SC): “Atenção à manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus. As igrejas não são currais eleitorais”.
Em vídeo, bispos do Regional Norte 1 da CNBB, responsável por Amazonas e Roraima falam sobre a preservação da Amazônia, a defesa de povos indígenas, ribeirinhos e das comunidades tradicionais, o combate à compra de votos e proteção dos mais pobres. Dom Frei Samuel Ferreira afirma que a “democracia é um bem precioso a ser cuidado e garantido”, enquanto Dom Adolfo Zon resume o alerta eleitoral: “O voto não tem preço, tem consequência”.
O cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus, encerra a gravação reforçando que a Igreja Católica não está indicando uma candidatura. “Nós não temos partido, mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres”, afirma. Em seguida, faz um apelo direto aos fiéis: “Vote pela democracia”. A orientação também inclui a defesa da Amazônia como patrimônio brasileiro e a rejeição à ideia de que florestas, águas e povos possam ser tratados como mercadorias.
A entidade condena corrupção, compra de votos, abuso de poder econômico e político e a “disseminação deliberada de mentiras, as fake news”. Também pede confiança nos mecanismos de apuração da vontade popular, respeito ao resultado das urnas e à Lei da Ficha Limpa. A mensagem nacional havia sido aprovada pelo Conselho Permanente da CNBB e vem sendo reforçada durante o período eleitoral.
A Diocese de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, distribuiu um material com “Orientações Diocesanas 2026”, voltado ao período eleitoral. Elaborado pela Pastoral Fé e Política, o subsídio tem como tema “Como preservar a Democracia? Fortalecer a Democracia, o Esperançar e o Bem Viver” e propõe uma reflexão sobre participação cidadã, bem comum e responsabilidade dos eleitores.
Segundo o material, a iniciativa parte da compreensão de que a Igreja pode contribuir para o bem comum e que as eleições estaduais e federais têm impacto direto na vida da população. A diocese afirma que a democracia se fortalece com a participação da sociedade, a fiscalização e a cobrança de responsabilidade dos representantes.

DISCURSOS
O alerta contra o uso eleitoral da religião surge em uma campanha na qual a disputa pelo voto religioso ganhou peso crescente. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) montou uma frente específica para ampliar sua presença entre o eleitorado evangélico, com aproximação de lideranças, presença em igrejas e orientação de comunicação voltada aos fiéis. A pesquisa BTG/Nexus mostrou neste mês que Flávio Bolsonaro liderava entre evangélicos, enquanto Lula tinha vantagem entre católicos.
Episódios recentes também colocaram templos e discursos religiosos no centro da campanha. Tarcísio de Freitas foi multado pela Justiça Eleitoral depois de pedir votos para aliados durante um culto da Assembleia de Deus. Em outro evento, o pastor Valdemiro Santiago exibiu um vídeo de André Mendonça diante de Flávio Bolsonaro e Tarcísio, num momento em que parte do ecossistema religioso bolsonarista também passou a apresentar disputas políticas e institucionais em linguagem espiritual.










