Crise no USS Lincoln: crescem tentativas de suicídio e falta até comida

Trump pôs tripulação de cinco mil marinheiros e fuzileiros navais à beira do colapso (AFP)

Há mais de 260 dias no mar, alguns militares tentam pular do navio em impulso crescente de tirar a vida em meio à crise de saúde mental causada por período recorde longe de casa em meio ao fiasco no Irã

O porta-aviões estadunidense USS Abraham Lincoln estampa, nas últimas semanas, o colapso do belicismo de Trump, mesclando a ruína da política externa e das condições de trabalho dos seus cinco mil marinheiros e fuzileiros navais, materializado na trágica saúde mental da sua tripulação.

Mesmo veículos especializados em assuntos militares, como o Navy Times e o Stars and Stripes, em relatos The Guardian e pela CNN, expõem múltiplas tentativas de militares de saltar do navio, além de outros casos de pensamentos suicidas entre integrantes da tripulação de cinco mil marinheiros.

O Lincoln deixou San Diego, na Califórnia, em 21 de novembro de 2025, numa missão prevista para terminar originalmente em maio deste ano, sendo redirecionado do Pacífico para o Oriente Médio, pouco antes do início das operações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

Desta forma, sua permanência na região foi sendo prorrogada sucessivas vezes, ocasionando numa das mobilizações mais longas de um porta-aviões americano em décadas: mais de 250 dias consecutivos sem atracar, patamar considerado completamente anormal, mesmo para tempos de guerra, quando costuma ficar em torno de seis meses.

Desde que partiu dos Estados Unidos, sua tripulação teve somente duas oportunidades de pisar em terra firme: em Guam, em dezembro, e em Omã, em julho, sendo que nem todos puderam desembarcar nessas ocasiões. A ausência quase total de “descompressão”, somada a jornadas de trabalho que chegam a 16 horas, foi apontada por psicólogos e familiares como um fator central no agravamento de “quadros de ansiedade, exaustão e depressão” entre a tripulação.

Um dos casos mais graves, assinalou o The Guardian, envolveu um marinheiro impedido, por colegas, de pular do convés. Em outra situação relatada, a esposa de um militar contou que o marido tentou se jogar ao mar após saber que a missão seria estendida mais uma vez, com medo de que o esgotamento acumulado resultasse em uma baixa desonrosa depois de treze anos de carreira. Uma terceira família denunciou ter recebido uma mensagem alarmante de um parente a bordo, sugerindo desejo de não acordar no dia seguinte.

OFICIAIS CONFIRMARAM A QUEDA DE UM TRIPULANTE NO MAR

Oficiais estadunidenses confirmaram à CNN que, no início de agosto, um tripulante efetivamente caiu – ou pulou – ao mar usando colete salva-vidas e foi resgatado em cerca de uma hora, sem ferimentos. A Marinha classificou o episódio como uma crise de saúde mental. Conforme o Comando Central dos Estados Unidos, nenhum militar morreu a bordo.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, classificou as notícias sobre as condições a bordo como distorcidas, e já havia usado o mesmo tom em abril, quando vieram à tona denúncias sobre comida racionada, mofo em áreas comuns, falta d’água e máquinas de lavar quebradas. Segundo o dirigente, cada tripulação recebe o suporte possível, ainda que algumas missões se estendam mais do que outras.

Em carta ao secretário de Guerra Pete Hegseth, e ao Secretário da Marinha, Hung Cao, o senador democrata de Connecticut, Richard Blumenthal, assinalou que os relatos de escassez e más condições “merecem atenção imediata”. “Mas também levantam uma questão mais ampla: se a Marinha consegue manter o ritmo operacional que agora é exigido de sua força de porta-aviões”, acrescentou.

Numa crítica ao caos em curso, o senador Mark Kelly divulgou publicamente canais de apoio à saúde mental dos militares e à gestão da crise.

Para Jefferson Kelly, cujo filho se encontra bordo do Lincoln, é preocupante ver Jefferson há quase nove meses no mar, pois os destacamentos ficam normalmente no máximo seis meses. “Eles não deveriam ficar em missão por tanto tempo. São navios antigos. Não são nem de última geração. E exigem muita manutenção, muito trabalho. É trabalho ininterrupto”, assinalou.

Para pesquisadores da área, o confinamento, a privação de sono, o distanciamento da família e a pressão constante por prontidão operacional formam uma “combinação de risco” que tende a se agravar quanto mais a missão se prolonga.

Na tentativa de reduzir a pressão, o governo decidiu antecipar a substituição do Lincoln pelo USS George Washington, porta-aviões nuclear baseado no Japão, que já navega em direção ao Oriente Médio. A alegação é que o “rodízio” já estava previsto, mas sem anunciar uma data para a saída definitiva do Lincoln da região.

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