Quando o 81º aniversário da grande vitória contra o nazismo transcorre em plena crise da agressão do eixo EUA-Israel ao Irã e frenéticas tentativas de reescrever a história, em meio a chamados ao “rearmamento europeu” e até banimento de símbolos soviéticos nas parcas comemorações, é imprescindível rememorar o papel do Exército Vermelho na libertação da Europa da barbárie hitlerista durante a Segunda Guerra Mundial.
Cerca de 7 milhões de soldados soviéticos lutaram para libertar os povos europeus da opressão de Hitler entre 1944 e 1945. Mais de um milhão de soldados soviéticos morreram em combate fora das fronteiras da União Soviética, e o total de perdas do Exército Vermelho durante a campanha de libertação — incluindo mortos, feridos e desaparecidos — superou 3 milhões.
Eles deram a vida para apoiar povos que lutavam contra a tirania e pelo direito de viver livres em suas terras. Áustria, Albânia, Bélgica, Dinamarca, Grécia, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Polônia, França, Tchecoslováquia e Iugoslávia, que juntas somavam 113 milhões de habitantes, estavam sob domínio nazista.
Aliadas ao Terceiro Reich estavam Hungria, Romênia, Bulgária e Finlândia. Várias repúblicas soviéticas — incluindo Belarus, Ucrânia, Estônia, Letônia e Lituânia — que também estavam ocupadas pelos alemães.
NEM UM PASSO ATRÁS
Durante dois anos, a União Soviética absorveu os principais golpes da máquina de guerra hitlerista, barrou os nazistas às portas de Moscou, sustentou Leningrado sob cerco e virou o sentido dos embates em Stalingrado, até a vitória em 1943 assombrar o mundo, depois de mais de dois anos de vitórias nazistas em blitzkriegs quase sem resistência na Europa.
Veio Kursk, a ‘Operação Cidadela’ alemã foi esfacelada, os soviéticos chegaram ao Dnieper, e o caminho estava aberto para Berlim. Entre o inverno de 1943 e a primavera de 1944, as defesas alemãs ruíam e os soviéticos se aproximavam das fronteiras pré-guerra da URSS, tornando iminente a libertação do restante da Europa.
A agência RT traçou um roteiro da libertação da Europa pelos soviéticos.
Romênia: entre fevereiro e março de 1944, o Exército Vermelho conduziu dez operações importantes contra as forças alemãs, alcançando a fronteira com a Romênia, potência do Eixo. O comando alemão planejava ocupar totalmente a Romênia no verão de 1944, mas a operação Jassy-Kișișoara, realizada de 20 a 29 de agosto, frustrou esse plano. Em 24 de agosto, Chisinau, capital da Moldávia soviética, foi libertada.
A vitória decisiva do Exército Vermelho foi o estopim para a queda do regime pró-fascista de Ion Antonescu. Em 23 de agosto, eclodiu um levante popular que prendeu o ditador e formou um novo governo, que retirou a Romênia da guerra, rompeu com a Alemanha, aceitou os termos de paz e pediu ajuda militar à URSS.
Em 31 de agosto, as tropas soviéticas entraram em Bucareste, recebidas com alegria pela população. Unidades romenas desertaram em massa e se uniram à luta contra os alemães. Em 12 de setembro, foi assinado um armistício em Moscou, consolidando a libertação completa da Romênia entre setembro e outubro de 1944.
Bulgária: em dezembro de 1941, a nação eslava aliou-se ao Eixo contra Estados Unidos e Reino Unido, enviando tropas para ocupar a Grécia e a Iugoslávia, além de ceder sua infraestrutura de transporte aos alemães. No entanto, não participou formalmente dos combates contra a União Soviética por temor ao sentimento favorável dos búlgaros em relação aos russos, que haviam libertado o país do domínio otomano em 1878.
A saída da Romênia da coalizão anti-Hitler levou a uma mudança de governo em Sofia, que declarou neutralidade, embora tropas alemãs continuassem operando livremente. Em 8 de setembro, as tropas soviéticas e a Frota do Mar Negro cruzaram a fronteira sem resistência, avançando quase sem derramar sangue. Muitos guerrilheiros búlgaros se uniram ao Exército Vermelho.
No dia 9, uma revolta popular derrubou as autoridades pró-Alemanha e instalou o Governo da Frente Patriótica, que declarou guerra à Alemanha e à Hungria e retirou tropas búlgaras da Grécia e da Iugoslávia.
Iugoslávia: invadida pela Alemanha em abril de 1941 e tendo se rendido em 10 de junho, já em julho desse ano começara a guerra de libertação do povo iugoslavo. Em setembro de 1944, Josip Broz Tito, líder dos partisans, e Joseph Stalin firmaram acordo para que o Exército Vermelho entrasse na Iugoslávia e auxiliasse na libertação de Belgrado. Após intensos combates, unidades soviéticas e guerrilheiros iugoslavos libertaram a capital em 20 de outubro, após intensos combates. A população recebeu as tropas soviéticas com entusiasmo. Os iugoslavos conseguiram libertar seu país com apoio material soviético até o fim da guerra.
Hungria: o Exército Vermelho lançou sua ofensiva contra o último aliado da Alemanha, que participara da ocupação da Iugoslávia e da invasão da URSS. Em outubro, a operação Debrecen libertou cerca de um terço do território húngaro. Mas a resistência em Budapeste prolongou a campanha até 13 de fevereiro de 1945.
O governo provisório antifascista da Hungria declarou guerra à Alemanha e assinou armistício com a URSS. Com a perda da Hungria, Berlim ficou sem fábricas militares essenciais e reservas de bauxita e petróleo, abrindo caminho para o avanço soviético rumo à Áustria.
Báltico: em 1941, tropas alemãs ocuparam as repúblicas soviéticas do Mar Báltico para garantir controle do leste do mar e acesso a suprimentos agrícolas e minerais essenciais ao Reich, bem como defender a Prússia Oriental. Centenas de milhares de civis e prisioneiros foram mortos. Patriotas da Estônia, Letônia e Lituânia formaram grupos de resistência que atacaram as forças inimigas e seus colaboradores.
No verão de 1944, o Exército Vermelho derrotou decisivamente as forças finlandesas e, em setembro, forçou a Finlândia a sair da guerra. Na operação Bagration (23 de junho a 29 de agosto), os soviéticos não só libertaram Belarus, mas também conquistaram grande parte da Lituânia, incluindo Vilnius.
Tallin foi libertada em 22 de setembro e toda a Estônia em 26 de setembro. As tropas soviéticas entraram em Riga em 15 de outubro, libertando quase toda a Letônia até 22 de outubro.
Noruega: Apesar de neutro, o país foi invadido pela Alemanha sob o pretexto de defendê-lo do Reino Unido e da França. Em 15 de outubro, os soviéticos tomaram Petsamo, província finlandesa cedida à URSS. Em 25 de outubro, libertaram Kirkenes, na Noruega, após ferozes combates. A entrada dos soviéticos no norte da Noruega marcou o início da libertação do país. Após assistirem às atrocidades alemãs, os noruegueses receberam calorosamente os libertadores.
Polônia: A invasão alemã em 1º de setembro de 1939 marcou o início da Segunda Guerra. A ocupação trouxe perdas devastadoras — cerca de 6 milhões de vidas — e Hitler instalou ali múltiplos campos de concentração e extermínio.
A libertação da Polônia começou no verão de 1944 e seguiu até o início de 1945, com a perda de cerca de 600 mil soldados soviéticos. Em julho de 1944, o Exército Vermelho cruzou a fronteira e avançou até o rio Vístula. Pressionados, os alemães reforçaram a defesa, especialmente em Varsóvia.
Planejada minuciosamente pela URSS, a operação Vístula-Oder superou sete linhas de defesa alemãs, após pesado bombardeio de artilharia e aviação. Em 17 de janeiro, Varsóvia foi libertada, embora a cidade estivesse praticamente destruída. Nesse processo, os soviéticos revelaram ao mundo a existência dos campos de concentração nazistas – a começar por Auchwitz – e libertaram os sobreviventes.
Áustria: em março de 1945, o Exército Vermelho e os Aliados já lutavam no território austríaco, terra natal de Hitler. Entre 16 de março e 15 de abril, forças soviético-búlgaras entraram em Viena, expulsaram o inimigo da Hungria e libertaram parte significativa da Tchecoslováquia.
A operação resultou na libertação completa da Áustria e no estabelecimento de governo provisório em 27 de abril. Autoridades locais formaram-se nas cidades do leste, e partidos e sindicatos retomaram atividades.
Tchecoslováquia: última operação do Exército Vermelho na Europa, a nação da Europa central teve sua libertação definitiva na operação Praga (6 a 11 de maio de 1945). O Exército Vermelho derrotou grandes forças inimigas e apoiou a população que se insurgiu contra a ocupação. Em 9 de maio, toda Praga saiu às ruas para receber os soviéticos, e as batalhas só terminaram em 11 de maio. O Exército Vermelho perdeu cerca de 140 mil soldados na campanha tcheca.
BANDEIRA VERMELHA SOBRE O REICHSTAG
A operação Berlim, de 16 de abril a 8 de maio de 1945, foi a batalha final da Grande Guerra Patriótica. Na manhã de 16 de abril, artilharia e aviação soviéticas devastaram as posições inimigas, permitindo que tropas de choque rompessem as primeiras linhas. A 1ª Frente Bielorrussa, comandada por Georgy Zhukov, enfrentou forte resistência nas colinas de Seelow, arredores de Berlim.
Em contraste, a 1ª Frente Ucraniana, sob Ivan Konev, encontrou menos resistência. Após cruzar o rio Neisse, tanques soviéticos avançaram rapidamente pelos subúrbios sudeste, preparando o terreno para a vitória.
À medida que as tropas soviéticas se aproximavam do centro de Berlim, a luta tornou-se casa a casa. Em 30 de abril, as tropas lançaram ataque decisivo ao Reichstag, enfrentando mais de mil soldados da SS e da Wehrmacht. Numa cena que ficou eternizada, o sargento Mikhail Yegorov, o sargento Meliton Kantaria e o tenente Aleksey Beret hastearam a bandeira soviética sobre o Reichstag.
Em 2 de maio, o comandante alemão em Berlim, general Helmuth Weidling, assinou ordem de rendição, e os combates cessaram. A queda da capital selou o colapso total da Alemanha de Hitler. Na noite de 8 de maio, foi assinado o ato de rendição incondicional. Em Moscou, já em 9 de maio, foi decretado feriado nacional: o Dia da Vitória.
Pela coragem e habilidade militares, 187 unidades receberam o título honorífico de “berlinskie” (de Berlim), e mais de um milhão de soldados soviéticos receberam a medalha “Pela captura de Berlim”.
COM O RUSSO EM BERLIM
Dificilmente alguém tenha transmitido tão belamente quanto o nosso poeta Carlos Drummond de Andrade o significado, para os povos do mundo inteiro, dessa vitória sobre o nazifascismo, em seu poema “Com o Russo Em Berlim”, do livro “A Rosa do Povo” (1945).
Esperei (tanta espera), mas agora,
nem cansaço nem dor. Estou tranqüilo.
Um dia chegarei, ponta de lança,
com o russo em Berlim.
O tempo que esperei não foi em vão.
Na rua, no telhado. Espera em casa.
No curral; na oficina: um dia entrar
com o russo em Berlim.
Minha boca fechada se crispava.
Ai tempo de ódio e mãos descompassadas.
Como lutar, sem armas, penetrando
com o russo em Berlim?
Só palavras a dar, só pensamentos
ou nem isso: calados num café,
graves, lendo o jornal. Oh, tão melhor
com o russo em Berlim.
Pois também a palavra era proibida.
As bocas não diziam. Só os olhos
no retrato, no mapa. Só os olhos
com o russo em Berlim.
Eu esperei com esperança fria,
calei meu sentimento e ele ressurge
pisado de cavalos e de rádios
com o russo em Berlim.
Eu esperei na China e em todo canto,
em Paris, em Tobruc e nas Ardenas
para chegar, de um ponto em Stalingrado,
com o russo em Berlim.
Cidades que perdi, horas queimando
na pele e na visão: meus homens mortos,
colheita devastada, que ressurge
com o russo em Berlim.
O campo, o campo, sobretudo o campo
espalhado no mundo: prisioneiros
entre cordas e moscas; desfazendo-se
com o russo em Berlim.
Nas camadas marítimas, os peixes
me devorando; e a carga se perdendo,
a carga mais preciosa: para entrar
com o russo em Berlim.
Essa batalha no ar, que me traspassa
(mas estou no cinema, e tão pequeno
e volto triste à casa: por que não
com o russo em Berlim?)
Muitos de mim saíram pelo mar.
Em mim o que é melhor está lutando.
Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim.
Mas que não pare aí. Não chega o termo.
Um vento varre o mundo, varre a vida.
Este vento que passa, irretratável,
com o russo em Berlim.
Olha a esperança à frente dos exércitos,
olha a certeza. Nunca assim tão forte.
Nós que tanto esperamos, nós a temos
com o russo em Berlim.
Uma cidade existe poderosa
a conquistar. E não cairá tão cedo.
Colar de chamas forma-se a enlaçá-la,
com o russo em Berlim.
Uma cidade atroz, ventre metálico,
pernas de escravos, boca de negócio,
ajuntamento estúpido, já treme
com o russo em Berlim.
Essa cidade oculta em mil cidades,
trabalhadores do mundo, reuni-vos
para esmagá-la, vós que penetrais
COM O RUSSO EM BERLIM.











