Obrigado a saír do país, Marlon Ochoa denuncia ter sido destituído do Conselho Nacional Eleitoral e avisado do perigo que corria depois de entregar gravações à Promotoria comprovando “a maior interferência dos Estados Unidos nas eleições de sua história”
Membro do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de Honduras, Marlon Ochoa foi destituído pelas bancadas dos partidos (Anti) Nacional e Liberal após apresentar os áudios que comprovam “a maior interferência dos Estados Unidos nas eleições de sua história”, por meio da intervenção direta do “consultor” argentino Fernando Cerimedo nas eleições gerais de novembro de 2025.
Desde o exílio, em abril de 2026, Ochoa assegura que como se não bastasse a política de cerco, veio a de aniquilamento, com planos para “atentar contra sua vida”, fato que já comunicou às autoridades.
“Fernando Cerimedo se dá ao luxo de navegar como pirata em nossos países, mas, como não existe crime perfeito, já está preso na Bolívia”, afirmou Ochoa, recordando que ele é o fazendeiro de bots, que administra uma quantidade de milhares de contas automatizadas simultaneamente para manipular a opinião pública por meio das redes sociais. “Cerimedo é um criminoso internacional, um filibusteiro eleitoral na América Latina, protegido pelo manto da impunidade de Donald Trump”, acrescenta.
Recentemente o ex-conselheiro do CNE de Honduras publicou uma série de gravações que, apesar de já terem sido entregues em dezembro passado à Promotoria, haviam ficado silenciadas por pressão de Trump e de seus asseclas. Agora, com força, retornam ao debate público devido às crescentes denúncias de fraude que o bipartidarismo cambaleante faz de tudo para encobrir.
Nos áudios divulgados na rede social, se escuta Cerimedo, assessor de campanha do Partido Nacional, afirmar com todas as letras que votos foram inseridos a favor do candidato Nasry Asfura (eleito presidente) em determinadas urnas, enquanto outros eram retirados das que não os beneficiavam. Além disso, o amigo de Eduardo Bolsonaro, parceiro de Kast, no Chile, assessor de Milei, na Argentina, de Bukele, em El Salvador, e de Rodrigo Paz, na Bolívia, instrui que os operadores locais não aceitem de forma alguma a recontagem dos votos, solicitação que a candidata do Partido Liberdade e Refundação (Libre) havia feito no dia da eleição, quando denunciou as irregularidades no processo.
Antes de recorrer às redes sociais, Marlon Ochoa já havia apresentado formalmente esses áudios ao então procurador-geral, Johel Zelaya, em dezembro, como parte de um pedido de investigação por “fraude eleitoral”. Posteriormente, o ex-conselheiro ampliou a denúncia com novas gravações, onde são identificados um ex-presidente, um ex-candidato à presidência pelo Partido Liberal e um assessor presidencial estrangeiro.
INVESTIGAÇÃO FOI SUSPENSA DE FORMA INESPERADA
Embora o Ministério Público tenha anunciado formalmente o início das investigações, a investigação foi inesperadamente suspensa por ordem da Suprema Corte de Justiça, numa medida “arbitrária e sem precedentes”, a pedido de duas conselheiras eleitorais. Apesar do atropelo, o CNE declarou Asfura vitorioso sem sequer ter contabilizado a totalidade das atas nem processado as impugnações apresentadas, violando completamente os direitos constitucionais dos candidatos a prefeito e a deputado.
Ochoa vinculou sua posterior destituição às denúncias que tornou públicas sobre as arbitrariedades do processo, pois, às pressas, em abril de 2026, com o apoio das bancadas dos partidos Nacional e Liberal, o Congresso aprovou um processo de “impeachment” contra ele, resultando em sua expulsão do CNE.
A ação, classificada por Ochoa e pelos movimentos sociais como um “julgamento inquisitorial”, visava claramente ocultar os crimes praticados contra o processo democrático.
Fernando Cerimedo, que assessorou e conserva intimidades com Javier Milei, na Argentina, a família Bolsonaro, no Brasil, e Rodrigo Paz, na Bolívia, foi detido em Santa Cruz de la Sierra no dia 18 de agosto, após mandar executar sua ex-companheira, a advogada Nadia Beller. Além disso, o “agente da CIA” – como confidenciou a Nadia – responde a processos na Bolívia por “lavagem de dinheiro, violência doméstica e facilitação de voos irregulares ligados ao narcotráfico”.
Frente à contundência das acusações, a advogada e jurista Rixi Moncada, candidata à presidência pelo Libre e ex-ministra da Defesa Nacional, exigiu que o Ministério Público esclareça de uma vez por todas: “Para quem ele trabalhava? Com quem ele se reunia? Em que estrutura digital ele operava? E qual foi o seu envolvimento no processo eleitoral de 2025?”. Moncada enfatizou a necessidade das autoridades hondurenhas agirem com rapidez e transparência em resposta ao que ela classificou como uma potencial ameaça à soberania.
Na avaliação da dirigente do Libre, as investigações e análises decorrentes do processo legal que Cerimedo enfrenta na Bolívia têm revelado métodos de operação, estruturas digitais e fatos que obrigam os hondurenhos a refletir sobre o passado recente e a avaliar o papel do “assessor” no país.
O deputado do Libre, Edgar Zegarra, defendeu que um inquérito transparente “contribuirá para um esclarecimento neutro, livre da contaminação política ou do poder econômico daqueles que queiram distorcer esta investigação”. O parlamentar hondurenho questionou as declarações do presidente boliviano sobre Cerimedo e disse que são justamente as contradições e dúvidas persistentes que tornam necessário aprofundar a apuração.











