Cortadores de cabeça condenam na Síria ex-presidente Assad à pena de morte

Com Bashar Al Assad a Síria resistiu por 13 anos à intervenção mercenária arquitetada pela CIA (AFP)

Um tribunal do novo regime sírio – reciclado entre os cortadores de cabeças da Al Qaeda e da Frente Al Nusra, ex-Estado Islâmico -, acaba de condenar à morte à revelia o ex-presidente Bashar al-Assad, a quem culpou por “crimes de guerra” e “contra a humanidade”, embora pareça difícil que, contra ele, que está asilado em Moscou, façam o que já fizeram contra, respectivamente, Saddam Hussein, no Iraque, enforcado em 2006 pela ocupação norte-americana e seus colaboracionistas, e Muamar Kadhafi, caçado, brutalizado e morto por uma turba a serviço da OTAN em 2011 na Líbia.

A Síria foi, como se sabe, o sexto daquela relação de sete países islâmicos que o ex-comandante das forças da Otan na Europa, general Wesley Clark, em 2001 revelou ter sido informado de que seriam invadidos pelos EUA, supostamente em reação ao 11 de Setembro (cujos executores eram sauditas).

Mas, segundo a BBC, o que houve na Síria em 2011 foi uma “revolta espontânea” que se tornou uma revolução por causa da mão pesada da ditadura.

A verdade é que a Síria foi alvo da operação Timber Sycamore da CIA, com apoio da Turquia, Arábia Saudita e Catar, além do serviço secreto britânico, usando como tropa de choque os cortadores de cabeça das várias facções do Estado Islâmico. E que se desdobrou na ocupação, pelos americanos, da região produtora de petróleo e de trigo do país, estrangulando econômica e decisivamente o país, já sob pesadas sanções.

Desencadeada sob o governo Obama, a Sycamore foi exposta pelo reputado economista e conselheiro da ONU, Jeffrey Sachs, e pelo octagenário jornalista Seymour Hersh, denunciante do massacre de Mi Lai, no Vietnã, e do escândalo de Abu Graib, no Iraque.

A OPERAÇÃO SYCAMORE DA CIA

“A Operação Timber Sycamore foi um programa secreto de bilhões de dólares da CIA lançado por Obama para derrubar Bashar al-Assad. A CIA financiou, treinou e forneceu inteligência a grupos islâmicos radicais e extremistas. O esforço da CIA também envolveu uma ‘linha de rato’ para transportar armas da Líbia (atacada pela OTAN em 2011) para os jihadistas na Síria”, sublinhou Sachs.

“Em 2014, Seymour Hersh descreveu a operação em seu artigo ‘The Red Line and the Rat Line’: “Um anexo altamente confidencial do relatório, que não foi divulgado, descrevia um acordo secreto firmado no início de 2012 entre os governos de Obama e Erdogan. Ele dizia respeito à linha de rato. Pelos termos do acordo, o financiamento vinha da Turquia, assim como da Arábia Saudita e do Catar; a CIA, com o apoio do MI6, era responsável por levar armas dos arsenais de Khadafi para a Síria.”

Em suma, a agressão da OTAN contra a Líbia em 2011 se desdobrava em um plano para derrubada do governo sírio. Aliás, foi durante essa etapa inicial da Sycamore que ocorreu o famoso caso da morte do embaixador Christopher Stevens, em Benghazi.

Logo após o lançamento do Timber Sycamore, em março de 2013, numa conferência conjunta do ex-presidente Barack Obama e do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu na Casa Branca, Obama disse: “Com relação à Síria, os Estados Unidos continuam trabalhando com aliados e amigos e com a oposição síria para acelerar o fim do governo de Bashar al-Assad.”

Há ainda a questão do gasoduto, que sairia do Catar, para a Turquia, passando pela Síria, plano recusado por Al Assad, por não querer romper com os iranianos, contra os quais em última instância as peças se moviam.

Como enfatizou Sachs em um texto escrito em parceria com Sybil Fares, na semana da queda do líder sírio em dezembro de 2024, “não há dúvidas de que Bashar al-Assad muitas vezes se equivocou e enfrentou grande descontentamento interno, mas seu regime foi alvo de colapso durante décadas por parte dos EUA e Israel”.

As potências ex-coloniais europeias também apostaram na derrubada de Bashar e deram guarida a provocações como as dos falsos ataques com armas químicas atribuídos ao governo sírio, além de sanções ao país árabe sob cerco.

CAMPANHA DE ISRAEL E EUA CONTRA SÍRIA

Eles apontaram que “a queda da Síria nesta semana é o ponto culminante da campanha de Israel e EUA contra o país, que remonta a 1996, com a chegada de Benjamin Netanyahu ao cargo de primeiro-ministro.”

“A guerra de Israel e EUA contra a Síria escalou em 2011 e 2012, quando Barack Obama encarregou secretamente a CIA de derrubar o governo sírio na Operação Timber Sycamore. Esse esforço finalmente foi ‘concretizado’ nesta semana, depois de mais de 300.000 mortes na guerra da Síria desde 201”,

A ruína da Síria – assinalou Sachs – ocorreu rapidamente “devido a mais de uma década de sanções econômicas esmagadoras, ao fardo da guerra, à apreensão do petróleo sírio pelos EUA, às prioridades da Rússia em relação ao conflito na Ucrânia e, mais imediatamente, aos ataques de Israel ao Hezbollah, que era o principal apoio militar ao governo sírio.”

Sachs destacou que antes que a campanha dos EUA e Israel para derrubar Bashar al-Assad começasse a sério em 2011, “a Síria era um país de renda média funcional e em crescimento”.

Ele cita declaração do FMI de 2009, elogiando “o forte desempenho macroeconômico da Síria nos últimos anos, manifestado pelo rápido crescimento do PIB não petrolífero, pelo nível confortável de reservas estrangeiras e pela dívida pública baixa e em declínio. Esse desempenho refletiu tanto a demanda regional robusta quanto os esforços de reforma das autoridades para uma mudança em direção a uma economia mormente baseada no mercado”.

SANÇÕES, ATENTADOS E MISÉRIA

“Desde 2011, a guerra perpétua de Israel e EUA contra a Síria, incluindo bombardeios, jihadistas, sanções econômicas, apreensão dos campos de petróleo pelos EUA e muito mais, afundou o povo sírio na miséria.”

Sachs destacou ainda que nos dois dias após o colapso do governo Assad, Israel realizou cerca de 480 ataques por toda a Síria, destruiu completamente a frota síria em Latakia e estendeu à zona tampão desmilitarizada o controle ilegal sobre o Golã.

Para Sachs, a guerra de Israel contra a Síria começou em 1996 com os neoconservadores norte-americanos e israelenses elaborando a chamada ‘Ruptura Profunda’ para o Oriente Médio quando Benjamin Netanyahu se tornou premiê, a rejeição da “terra pela paz”, a proposta árabe de que Israel se retiraria das terras palestinas ocupadas em troca da paz.

Ao invés, Israel “manteria as terras palestinas ocupadas, governaria o povo palestino num estado de apartheid, limparia etnicamente o estado passo a passo e aplicaria a chamada ‘paz pela paz’ derrubando os governos vizinhos” que resistissem à expansão de Israel.

Assim, a maior ameaça à integridade territorial da Síria continua vindo de Israel, o que só se agravou nos meses recentes.

ACERTO DE CONTAS

Com o país ainda extremamente dividido, a tentativa de imputar aos derrotados a culpa pela guerra civil -tramada desde Washington e Tel Aviv – pouco fará para curar as feridas e reunificar de forma profunda a sociedade síria; como mostrado nos episódios de perseguição à minoria alauíta.

Na falta de Bashar, o tribunal se contentou em condenar, também à morte, um primo dele, Atef Najib, ex-chefe da Segurança Política na província de Deraa, no sul do país. Najib estava presente no tribunal, dentro de uma jaula, e usando veste listrada de presidiário.

A voracidade israelense acaba levando o recém paginado Al Jolani, agora Ahmed al-Sharaa, a buscar algum grau de autonomia e inclusive o novo regime e a Rússia têm desenvolvido as relações, centradas em apoiar a disposição da Síria de defender sua integridade territorial, ameaçada exatamente desde Tel Aviv e pressionada desde Washington.

Agora, as tropas israelenses estão a cerca de 25 km de Damasco e, sinal dos tempos, o recém empossado presidente colombiano, e puxa-saco de Donald Trump, em um de seus primeiros atos reconheceu, à revelia da Carta das Nações Unidas, a “soberania” de Israel sobre o Golã, provocando um protesto do governo al-Sharaa.   

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