Após o presidente Donald Trump asseverar, pelo Truth Social, que adiara o ataque ao Irã, planejado para esta terça-feira (19) atendendo pedidos do Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, o principal jornal dos EUA, The New York Times, atribuiu em parte o recuo à advertência do Pentágono sobre o aprimoramento das defesas aéreas iranianas e da vigilância sobre as operações aéreas norte-americanas na região, isto é, sobre os riscos de uma nova escalada.
“Trump suspendeu a retomada da guerra em parte devido à preocupação do Pentágono de que o Irã tivesse aprimorado seus sistemas de vigilância das operações aéreas dos EUA e suas defesas aéreas”, afirmou o New York Times, citando um oficial militar norte-americano que falou à publicação sob condição de anonimato.
A mesma fonte afirmou ao NYT que “os iranianos realocaram grande parte de seu armamento restante e reforçaram sua convicção de que o Irã pode resistir com sucesso aos Estados Unidos, seja bloqueando efetivamente o Estreito de Ormuz, atacando a infraestrutura energética dos Estados vizinhos do Golfo ou ameaçando a aviação americana”, detalhou a fonte.
O militar sob anonimato, se referindo à derrubada desde um F-35 até um avião-radar E3-Sentry, passando por vários aviões-tanque KC-35 e outros caças F-15 e F-18 durante a guerra do eixo EUA-Israel contra o Irã, “revelou que as táticas de voo americanas haviam se tornado previsíveis demais, permitindo que o Irã se defendesse com mais eficácia”.
Ele explicou que as forças iranianas “estudaram os padrões de voo de caças e bombardeiros americanos” durante a guerra recente.
Aliás, de acordo com o The Wall Street Journal, ao ser informado da derrubada do F-35 pela primeira vez na história e, ademais, pelo Irã, Trump ficara “gritando por horas com seus assessores”. O F-35 é invisível ao radar, mas sua mui quente turbina o torna um excelente alvo na faixa da radiação infravermelha, quando a questão é devidamente equacionada pela defesa antiaérea.
“DEZENAS DE LOCAIS DE LANÇAMENTO DE MÍSSEIS DESOBSTRUÍDOS”
Segundo a fonte do NYT, o Irã também aproveitou o cessar-fogo de um mês com os EUA para desenterrar dezenas de locais de mísseis balísticos bombardeados e realocar lançadores móveis de mísseis.
Muitos dos mísseis balísticos iranianos foram lançados de cavernas subterrâneas profundas e outras instalações escavadas em montanhas de granito, o que dificultava a destruição por aeronaves de ataque americanas, que mal conseguiam bombardear as entradas dessas instalações, causando seu soterramento, mas sem destruí-las completamente.
“O Irã já desenterrou um número significativo dessas instalações”.
Questionado sobre o impacto geral da guerra em Teerã, a fonte disse ao NYT que “embora cinco semanas de intensos bombardeios tenham matado muitos comandantes e líderes iranianos, a guerra deixou um adversário mais duro e resiliente.”
SÍNDROME TACO?
Quanto ao que mais pesou no recuo, se os pedidos das petromonarquias ou ponderações do Pentágono sobre os riscos da escalada, o portal persa HispanTV analisou que Trump, “um presidente que construiu sua imagem pública na retórica de ação decisiva e da chamada ‘pressão máxima’, recuou de uma guerra contra o Irã não uma ou duas vezes, mas pelo menos cinco vezes — e, segundo alguns meios de comunicação ocidentais, seis — em menos de três meses”.
Fenômeno ao qual analistas norte-americanos já se referiram anteriormente de forma sarcástica como “TACO”, “Trump Always Chikens Out” – em tradução livre, “Trump sempre amarela”.
Os recuos são enumerados pelo Hispan TV. “Primeiro, a desistência de cumprir a ameaça explícita de destruir a civilização iraniana e atacar sua infraestrutura nacional. Essa ameaça era real, pública e absoluta. No entanto, diante da resposta iraniana — uma proposta de dez pontos baseada na lógica e na dissuasão — Washington cedeu.”
“Em segundo lugar, após o fracasso das negociações em Islamabad, os Estados Unidos prorrogaram unilateralmente o cessar-fogo, uma medida que só pode ser interpretada como uma admissão de sua incapacidade de impor condições.”
“Em terceiro lugar, a operação amplamente divulgada para abrir à força o Estreito de Ormuz — dramaticamente apelidada de “Projeto Liberdade” — foi cancelada menos de 48 horas após o seu anúncio.”
“Em quarto lugar, após um confronto direto entre as forças armadas iranianas e três navios de guerra dos EUA na via navegável estratégica, Washington insistiu novamente na continuação do cessar-fogo, absorvendo efetivamente um golpe tático sem resposta.”
“A quinta retirada ocorreu mais recentemente, quando Trump anunciou o cancelamento de todas as operações militares planejadas contra o Irã, apresentando-a cinicamente como um gesto em relação aos líderes da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos. Na realidade, foi uma manobra para salvar as aparências depois de ter se colocado em uma situação delicada.”
Fontes da mídia ocidental, incluindo algumas ligadas ao aparato de segurança transatlântico, apontam que “mesmo essas cinco retiradas subestimam o quadro completo. Elas falam de seis ocasiões distintas em que os ultimatos de Trump simplesmente expiraram. Não se tratam de casos isolados de hesitação, mas sim de um padrão de comportamento”.
Mas eis a distinção crucial, sublinha Hispan TV: no passado, “Trump pelo menos encenava uma contagem regressiva dramática. Ele emitia ameaças com prazos definidos, criava um cenário de guerra iminente e, então, recuava no último minuto. Desta vez, não havia sequer um ultimato crível do qual recuar.”
REPROVAÇÃO DE TRUMP VAI A 65%
Na volta da peregrinação à China, na qual o presidente Xi Jiping propôs a coexistência pacífica na transição entre a potência em declínio e a China ascendente, desde que respeitado o direito chinês à reunificação de Taiwan pós-século das humilhações, Trump se deparou com pesquisa Reuters-Ipsos em que a reprovação a seu governo vai a 65%. As eleições intermediárias deste ano, que serão em novembro, decidirão o controle sobre o Congresso dos EUA.
Reprovação cujas principais condicionantes são a enorme rejeição nos EUA à guerra de escolha contra o Irã e o clamor contra a alta do preço dos combustíveis. Esta, também uma decorrência da agressão e sua consequência: o fechamento do estratégico Estreito de Ormuz, por onda transita 20% do petróleo e gás do planeta, mais 30% dos fertilizantes, mais insumos chave para a produção de chips e para a alta tecnologia.











