Submissão, neoliberalismo, arrocho e rearmamento: premiê alemão neto de nazista é recordista hiistórico de reprovação, com 85%
Recordista absoluto em reprovação, na Alemanha do pós-guerra, com 85% [oitenta e cinco por cento!] contra, o primeiro-ministro Friedrich Merz foi o grande derrotado nas eleições deste domingo (6) no estado de Saxônia-Anhalt (que era parte da Alemanha Oriental), em que o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) pela primeira vez ficou em condição de pleitear o governo estadual.
Enquanto a AfD alcançou 43,8% dos votos (+23) em relação à eleição de 2021, a CDU (a direita democrata-cristã) ficou com apenas 17,6%, perdendo 19,9 pontos percentuais – e foi isso que decidiu a eleição. Em suma, mais da metade dos eleitores da CDU se manifestaram contra Merz, votando na AfD. A Saxônia-Anhalt é um pequeno estado alemão com 2,1 milhões de habitantes e quase a área de Sergipe.
Seus parceiros de coalizão, os social-democratas (SPD), obtiveram 9,3% e até cresceram quase 1,0 ponto percentual. Os verdes, que andam de mala e cuia com os social-democratas, cresceram 3 pontos percentuais, para 8,9%.
O partido A Esquerda reduziu sua votação para 8,2% (-2,4) mas, em compensação, os progressistas anti-OTAN da BSW, liderados por Sahra Wagenknecht, conseguiram ultrapassar a barreira eleitoral, com 5,3%.
Os liberais do FDP não alcançaram a cláusula de barreira, ficando fora do parlamento estadual com 2,6% (3,8 pontos percentuais a menos). A participação na eleição chegou a 78%.
Na Alemanha, o voto é distrital misto, e cada eleitor tem dois votos, o primeiro, nominal, e o segundo, na lista do partido. No domingo, a AfD ganhou quase todos esses primeiros votos.
O NETO DE NAZISTA MERZ
Apesar do estardalhaço feito pelo AfD, em prol do “nossa hora chegou” e delírios como a “remigração”, papagueando Trump, o que aflige a Alemanha é o curso em que o país foi jogado, desde a submissão de Olaf Scholz ao governo Biden, com o atentado ao gasoduto Nord Stream, implosão da indústria alemã sem o gás russo barato e aposta total na guerra da OTAN contra a Rússia na Ucrânia, até à ascensão de Merz, ex-ceo na Alemanha da gigante americana da especulação, a BlackRock, e que é neto de nazista, neoliberal de carteirinha e belicista.
Pouco depois de tomar posse em 2025, Merz afirmou que o país “não podia mais bancar o Estado de Bem Estar Social” e logo em seguida prometeu rearmar a Alemanha para torná-la “novamente” (sic) a maior potência militar europeia, em meio aos chamados quase diários para a “guerra contra a Rússia”.
“Não vou me deixar irritar por palavras como desmonte social e devastação”, declarou então Merz durante um evento da CDU. “O Estado de bem-estar social, da forma como o temos hoje, já não é mais financiável com o que conseguimos produzir economicamente.”
ECONOMIA ESTAGNADA
Isso com a economia estagnada há cinco anos e a indústria pagando de quatro a cinco vezes mais caro pelo gás americano importado e que só nos últimos 12 meses perdeu 144 mil empregos industriais.
Mais que qualquer retórica da AfD, o que moveu a enxurrada de votos foram os cortes aprovados em julho da previdência social e do equivalente alemão ao bolsa família para bancar o rearmamento – e a conclamação “nach osten”, “para leste”, contra os russos, como a história já viu duas vezes.
Em discurso ano passado, o premiê alemão reclamou do ‘Bolsa Família’ alemão, que assegura uma renda mínima a desempregados, alegando que as pessoas estariam deixando de trabalhar por causa disso. “Não dá para continuar assim: 5,6 milhões de beneficiários”, disse. “O que está acontecendo nesses sistemas?”
“A censura é contra nós: nós fazemos ofertas que um ou outro olha e diz: ‘Eu seria estúpido se não aceitasse'”, afirmou, prometendo que seu governo mudaria isso, para que “voltar ao mercado de trabalho regular valha a pena”.
Além disso, nos últimos dias, em nova provocação contra a Rússia, o governo Merz acusou-a pelo suposto atentado no aeroporto de Leipzig com drones com explosivos (que não explodiram). O que Moscou denunciou como uma operação de bandeira trocada, um “incêndio do Reichtag” dos tempos modernos, como o encenado em 1933 para culpar os comunistas e preparar a guerra.
Ainda, três dias antes da eleição, foi confirmado o corte de 50.000 empregos na Volkswagen em crise.
PRESSÃO SOBRE MERZ AUMENTA “DRASTICAMENTE”
O próprio Merz admitiu que foi a “derrota eleitoral mais grave” da CDU em décadas e que “minha pessoa também foi um tema constante nesta campanha eleitoral”.
Situação descrita pela Der Spiegel, a principal revista alemã: “A pressão sobre Merz, que já era extremamente impopular, aumentou drasticamente após a derrota devastadora. O ressentimento contra o líder está crescendo dentro do partido; quase ninguém acredita que ele possa reconquistar a confiança do povo e derrubar a AfD.”
Acrescenta a publicação que “o parceiro de coalizão, o SPD, está se distanciando do rumo reformista” – isto é, está achando que a insistência na pilhagem dos direitos dos trabalhadores e dos menos favorecidos não vai emplacar.
Aliás, a Der Spiegel tentou dar uma força a Merz, publicando uma capa com o principal candidato da AfD, um ex-vendedor de perfumes, negacionista e blogueiro, Ulrich Siegmund, a quem qualificou como “o homem mais perigoso da Alemanha”, mas parece que saiu pela culatra.
O sinuoso Siegmund aproveitou para sair autografando a revista em seus comícios, e ainda zombando da publicidade gratuita.
Tentando nublar o fato de que foi sua política que empurrou parte do eleitorado para a extrema-direita, Merz culpou os “60% dos eleitores” por supostamente elegerem partidos políticos que “questionam fundamentalmente as instituições e regras democráticas do nosso país”, juntando no mesmo saco o partido A Esquerda, a BSW e a AfD, acrescentando enigmaticamente que então “não se pode simplesmente voltar ao normal”.
“PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO”
O “normal”, segundo Merz, é que o fim do Estado de Bem Estar Social e o rearmamento da Alemanha são intocáveis e “ninguém deve duvidar de sua determinação” em prosseguir com o curso dessas “reformas fundamentais”.
Para ele, os índices de aprovação “excepcionalmente baixos” das políticas de seu governo são principalmente “um problema de comunicação”.
Estaria faltando emoção na hora de mentir: é crucial, insistiu, não apenas justificar o rumo das reformas “racionalmente”, mas também “comunicá-lo emocionalmente”.
Merz também prometeu não “ceder um milímetro” em sua “convicção fundamental de que devemos defender nossa liberdade, especialmente agora, contra a Rússia”. Ele também identificou um problema de comunicação aí: “Provavelmente terei que explicar isso de forma muito mais extensa e detalhada.”
Resumo da ópera: Merz não se dispõe a mudar um milímetro dessa trajetória que enche a AfD de votos, seja no arrocho aos direitos ou na marcha batida para a guerra diretamente com a Rússia, depois de cinco anos apoiando o governo neonazi de Kiev com dinheiro e armas.
IMPASSE NA SAXÔNIA-ANHALT
“Em tempos de crescente risco de guerra, a presença de um partido pacifista consistente no parlamento estadual da Saxônia-Anhalt é um sinal importante”, registrou, pela plataforma X, Sahra Wagenknecht, fundadora do partido BSW, parabenizando seus companheiros de partido por sua entrada no parlamento estadual.
A mensagem chama ainda a trabalhar no parlamento estadual pela mudança de rumo na política energética, fim das sanções contra a Rússia, melhorias na educação e uma reforma fundamental da radiodifusão pública. “O retorno do BSW começou!”
Quanto ao novo governo da Saxônia-Anhalt, há um impasse. A AfD está a três cadeiras de conseguir formar um governo por conta própria. A CDU, os Verdes, o SPD e o Partido de Esquerda, juntos, também estão a três assentos da maioria – mas uma resolução da CDU em nível nacional a proíbe de cooperar diretamente com o Partido de Esquerda. A BSW, com seus cinco assentos, poderia desequilibrar a balança, mas rejeita a eleição de um ministro-presidente da CDU e, até agora, também descartou uma coalizão com a AfD.
O impasse pode durar meses, já que o democrata-cristão Schulze permanece como ministro-presidente até que um sucessor seja eleito, e a constituição não estabelece um prazo para isso. A AfD parece estar apostando no deslocamento de deputados da CDU para o seu seio.
Nas próximas duas semanas, haverá eleições estaduais em Berlim e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. No pequeno Estado que é governado pelos social-democratas desde 1998, e atualmente em coalizão com o Partido A Esquerda, pode-se repetir um cenário de crescimento da AfD. Já em Berlim, a CDU e A Esquerda lideram as intenções de voto; a AfD tem chance de dobrar seu eleitorado de 9% na última eleição em 2023 para 18%. A campanha eleitoral tem sido dominada temas como custo de vida e a crise da habitação, segundo a Deutsche Welle.











