JANAINA DEITOS
Passada uma semana da vitória do presidente Lula, li inúmeras análises sobre o resultado das eleições. Muitas delas interessantes, pertinentes e necessárias para compreendermos a dimensão dessa conquista. Entretanto, há uma questão que continua martelando na minha cabeça e sobre a qual senti necessidade de escrever.
Escrever não é propriamente a minha praia. Mas há momentos em que determinadas convicções, construídas ao longo de uma vida, precisam ser partilhadas.
Há mais de 30 anos sou uma militante política organizada. Iniciei minha trajetória na Juventude Revolucionária 8 de Outubro (JR8), depois militei no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), no Partido Pátria Livre (PPL) e, atualmente, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
Ao longo dessas três décadas, ouvi incontáveis vezes afirmações de que o povo brasileiro é apático, despolitizado, acomodado, de que não participa das lutas e não reage diante das injustiças. Não raramente, a responsabilidade pelas dificuldades de mobilização popular era atribuída ao próprio povo.
Mais recentemente, passei a ouvir avaliações semelhantes sobre a juventude.
Quantas vezes não escutamos que os jovens estão alienados, que não querem saber de política, que não se interessam pelas grandes questões nacionais ou, pior, que estamos diante de uma geração perdida?
Essas afirmações sempre me incomodaram profundamente.
Nunca nutri qualquer sentimento de descrença em relação ao povo brasileiro, muito menos à juventude. Pelo contrário! Sempre confiei na sua inteligência, na sua sensibilidade, na sua capacidade de compreender a realidade e, sobretudo, na sua extraordinária força transformadora.
E sempre sustentei uma convicção: quando o povo e a juventude não correspondem aos chamados para a luta, talvez devamos procurar as razões não apenas naqueles que não atenderam ao chamado, mas também naqueles que se propuseram a organizá-los e dirigi-los.
O povo brasileiro, especialmente a classe trabalhadora, enfrenta diariamente uma batalha pela sobrevivência. São milhões de homens e mulheres que acordam cedo, enfrentam jornadas exaustivas, transportes precários, baixos salários e inúmeras dificuldades para garantir o sustento de suas famílias.
A juventude, por sua vez, enfrenta o desafio do primeiro emprego, a precarização do trabalho, as dificuldades de acesso à educação e a incerteza quanto ao futuro.
Como exigir que essas pessoas estejam permanentemente mobilizadas, como se suas condições materiais de existência não interferissem na possibilidade de participação política?
A luta pela sobrevivência também é uma forma cotidiana de resistência.
Isso não significa que a consciência política surja espontaneamente ou que a organização seja dispensável. Muito pelo contrário! Significa reconhecer que cabe às organizações políticas e aos seus dirigentes compreender a realidade concreta do povo, dialogar com suas necessidades, conquistar sua confiança e construir os caminhos capazes de transformar a indignação em ação coletiva.
Não é o povo que deve estar à altura dos seus dirigentes. São os dirigentes que precisam estar à altura do povo.
E foi justamente essa reflexão que a recente vitória eleitoral de Lula trouxe novamente ao centro das minhas inquietações.
No dia 25 de outubro, Lula foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma disputa acirrada, cujo resultado também expressou a importância da mobilização popular nas semanas que antecederam o segundo turno.
Na reta final da campanha, vimos uma extraordinária mobilização popular.
Pessoas que até então acompanhavam os acontecimentos à distância passaram a ocupar as ruas, conversar com familiares, procurar amigos, organizar atividades, distribuir materiais e defender suas posições com uma energia impressionante nas ruas e nas redes sociais.
A política deixou de ser apenas assunto de debates e passou a ocupar o cotidiano de milhares de brasileiros.
Essa extraordinária mobilização me fez recordar as palavras do camarada Carlos Pereira, em seu artigo “Manifestações de milhões nas ruas e nas redes vão garantir vitória contra o fascismo”, publicado no Jornal Hora do Povo em 22 de outubro de 2026.
“O povo antes passivo se levanta e enxerga com nitidez o inimigo, no caso o bolsonarismo subserviente ao imperialismo norte-americano. Compreende com simplicidade, e ao mesmo tempo com sangue nos olhos, as manobras táticas, as formas de luta, as diretivas, as palavras de ordem, o que antes era de propaganda hoje é de ação.”
Essa reflexão traduz muito do que testemunhamos nas ruas durante a campanha eleitoral.
E a juventude, tantas vezes chamada de geração perdida, foi responsável pelo início do levante popular no segundo turno.
Aqui reside, a meu ver, uma das principais lições dessa vitória: não podemos confundir a ausência de mobilização com a ausência de consciência, muito menos atribuir ao povo a responsabilidade pelas dificuldades daqueles que se propõem a organizá-lo e dirigi-lo.
O povo brasileiro não precisa que lhe ensinem a lutar. Ele luta diariamente para sobreviver. O nosso desafio é contribuir para que essa resistência cotidiana se transforme em consciência política, organização e força coletiva capaz de mudar os rumos do país.
É evidente que não podemos ignorar as contradições reveladas pelo resultado eleitoral. Uma parcela expressiva da população votou em Flávio Bolsonaro, e seria um erro desconsiderar esse fato ou simplesmente reduzir todos esses eleitores a uma mesma identidade política.
Acredito que, entre eles, há muitos brasileiros que podem ser conquistados para outras perspectivas de país. Pessoas que vivem as mesmas dificuldades materiais, enfrentam os mesmos problemas cotidianos e desejam melhores condições de vida para suas famílias.
Conquistar essas mentes e esses corações exige muito mais do que discursos. Exige diálogo, presença, organização, respeito e, principalmente, respostas concretas às necessidades da população.
A disputa política não termina com a apuração das urnas. Ela continua todos os dias, nos locais de trabalho, nas escolas, nas universidades, nos bairros, nos movimentos sociais e nas organizações populares.
Por isso, considero que saímos dessa batalha não apenas com uma vitória eleitoral, mas também com uma lição fundamental para os desafios que virão: jamais subestimar o povo brasileiro!
Precisamos confiar na sua capacidade de compreender a realidade, de mobilizar-se, de construir soluções coletivas e de transformar a realidade.
Essa confiança, entretanto, não pode ser apenas uma declaração de princípios.
Precisa orientar nossa prática política, nossa forma de organização e nossa relação cotidiana com a população.
Vencemos uma batalha importante, mas ainda há muito caminho pela frente.
Na minha avaliação, um dos grandes desafios do próximo período será contribuir para que o governo Lula avance na superação das amarras do neoliberalismo e na construção de um Projeto Nacional de Desenvolvimento que tenha como centro a redução da taxa de juros, o aumento do investimento público, o fortalecimento da indústria nacional e pelo menos dobrar o salário mínimo nos próximos 4 anos para elevar as condições reais de vida do povo brasileiro a patamares cada vez mais dignos.
O Brasil possui riquezas naturais, capacidade produtiva, conhecimento científico, diversidade cultural e um povo extraordinário. Temos todas as condições de construir um país mais desenvolvido, soberano e socialmente justo.
E tenham certeza que o povo cobrará isso do Governo Lula.
Por isso, diante daqueles que insistem em afirmar que o povo é apático ou que a juventude está perdida, sigo sustentando a mesma convicção que me acompanha desde os primeiros passos na militância: o povo brasileiro não é o problema. É nele que reside a força capaz de construir as soluções para o Brasil.
Cabe a nós confiar nessa força, ajudar a organizá-la e, sobretudo, jamais perder a capacidade de aprender com ela.
Como diz Hino Nacional “ Verás que um filho teu não foge à luta!”
Viva o Brasil!
Viva o povo brasileiro!











