É urgente que o campo progressista supere o neoliberalismo, alertou Lula em Barcelona

Lula em Barcelona (Foto: Ricardo Stuckert)

“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante”, apontou o presidente, destacando que isso propiciou o crescimento do fascismo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez várias reflexões importantes durante sua participação na 1ª Reunião da Mobilização Progressista Global, ocorrida neste final de semana em Barcelona, na Espanha.

Ele destacou que o campo progressista precisa superar as políticas neoliberais que ainda têm prevalecido em vários países onde este campo está no governo.

“Desde sempre, a política se dividiu em dois campos. De um lado, aqueles que acham que os deveres do indivíduo se sobrepõem ao da coletividade, e do outro lado, os que acreditam que o bem-estar de cada um depende da garantia de uma vida digna e decente para todos”, disse Lula.

“O campo progressista conseguiu avançar na pauta dos direitos”, afirmou, acrescentando que “a situação dos trabalhadores, das mulheres, das pessoas negras e de muitas minorias é melhor hoje do que foi no passado. “Ainda assim”, ponderou, “o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante”.

“O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, dificuldade e insegurança. Provocou crise atrás de crise”, denunciou Lula. Segundo ele, houve submissão a essa lógica. “Ainda assim, nós nos submetemos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo”, afirmou.

O presidente Lula já tinha falado isso outras vezes e repetiu a crítica às contradições em governos progressistas. “Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrimos mão de políticas públicas em nome da governabilidade”, disse. Para ele, esse distanciamento contribui para a ascensão de discursos antissistema. “Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema”, declarou Lula.

“O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo”, afirmou o presidente.

“O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda semana, todo mês e durante 365 dias por ano, para que a gente reestabeleça a coisa mais sagrada no mundo, que é a democracia e o multilateralismo”, acrescentou.

Ele também ressaltou que as demandas da população são universais. “Mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escola de qualidade, hospital de qualidade”, disse, acrescentando que as pessoas também buscam “um trabalho digno, uma jornada de trabalho equilibrada, um salário que permita uma vida confortável”.

Ao abordar o avanço do fascismo, Lula afirmou que esse campo político explora frustrações sociais. “A extrema-direita soube capitalizar as promessas não cumpridas no neoliberalismo. Potencializou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras”, declarou.

O presidente criticou ainda a desigualdade e a concentração de renda, cada vez mais escandalosa. “Um punhado de milionários concentra a maior parte da riqueza mundial. Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá”, disse. Em seguida, acrescentou: “A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade”.

Sobre a situação internacional, Lula defendeu uma ação global articulada. “Esta luta precisa ser global. De nada adianta manter a casa em ordem em um mundo em desordem”, afirmou. Ele também criticou os impactos de conflitos armados. “Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças, gastam em armas bilhões de dólares que poderiam ser usados para acabar com a fome”, disse.

O presidente destacou ainda o peso das desigualdades entre países. “O sul global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como o quintal das grandes potências”, afirmou. Por fim, Lula defendeu a reformulação das instituições multilaterais. “Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado. É defender que o direito prevaleça sobre a força”, declarou, ao propor maior equilíbrio entre países em organismos como o Conselho de Segurança da ONU, o Banco Mundial, o FMI e a OMC.

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