Os Emirados Árabes Unidos anunciaram que a partir desta sexta-feira, 1º de maio, deixarão a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e a aliança Opep +, comunicado saudado pelo presidente Donald Trump, que costuma chamá-la de “monopólio que rouba o resto do mundo”, enquanto promete saquear geral o petróleo alheio e tem como lema “drill, baby, drill”.
O anúncio ocorreu uma semana após os entendimentos do governo emiradense com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, de um acordo de swap cambial, que garanta aos Emirados um fluxo de dólares nesse quadro de paralisia das exportações de petróleo, sob o fechamento e bloqueio do Estreito de Ormuz, desencadeados pela guerra de agressão dos EUA-Israel contra o Irã.
Terceiro maior produtor da Opep com 4,6 milhões de barris diários, atrás da Arábia Saudita e do Irã, os Emirados atribuíram sua saída à disposição de ampliar a disputa de mercado, em contraposição à política da Opep de estabilização da produção e defesa do valor do barril, capitaneada pelos sauditas e apoiada pelos russos.
O Ministério da Energia dos Emirados Árabes Unidos afirmou, em um comunicado, que a saída da Opep irá proporcionar ao país maior flexibilidade para responder a uma “nova era da energia”, em consonância com sua “visão estratégica e econômica de longo prazo”.
Antes mesmo desse anúncio, em recente conferência com diplomatas russos, o chanceler Sergey Lavrov identificou como projeto americano o controle dos mercados globais de energia. Como visto na agressão à Venezuela que resultou no sequestro do presidente Maduro e sua esposa, nas sanções contra empresas russas do setor, e na tentativa fracassada de decapitação do governo iraniano.
“GOLPES, SEQUESTROS, ASSASSINATOS
Como disse o chefe da diplomacia russa, os americanos “estão prontos para defender sua prosperidade por quaisquer meios – golpes, sequestros, ou assassinatos de líderes de países que têm recursos naturais que Washington deseja. Tudo isso relacionado ao petróleo”. E seus interesses “sempre têm precedência sobre os acordos internacionais”.
Ao mesmo tempo que força a Europa à desindustrialização e à dependência, cobrando quatro vezes mais pelo gás natural, Washington, com esses movimentos, também busca apertar o nó no pescoço da China e estrangular seu desenvolvimento.
CONFERÊNCIA DE BAGDÁ
A Opep foi criada em 14 de setembro de 1960, na Conferência de Bagdá, no Iraque, por iniciativa de Venezuela e Arábia Saudita, juntamente com Irã, Iraque e Kuwait, para contrabalançar o poder da Standard Oil, Shell, Chevron e British Petroleum.
Nos anos 1970, a Opep tornou-se o instrumento central da luta pela soberania sobre o petróleo por parte dos países produtores, que se traduziu na nacionalização em muitos países e, ainda, nos choques de preço do petróleo, primeiro com o embargo (1983-84) aos países que apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur, quadruplicando o preço do barril. E depois, em 1979, diante da reação norte-americana à revolução iraniana.
PETRODÓLAR
Em 1975, os EUA haviam imposto aos sauditas o acordo para que o petróleo só pudesse ser vendido em dólares, forçando todos os países do mundo a precisarem obter dólares para comprar energia, e estabelecendo o petróleo como o substrato do dólar. O que persiste até hoje, mas cada vez mais frágil, quando o petróleo já começa a ser comercializado, por exemplo, em yuans.
Nas décadas seguintes, países que em algum momento questionaram o “privilégio exorbitante” – os casos mais notórios são o Iraque e a Líbia – sofreram agressões do império. Em 2001, logo depois do 11 de Setembro, o general Wesley Clark, ex-comandante supremo da Otan, foi informado no Pentágono que os EUA iriam invadir sete países de maioria islâmica – e com petróleo. Da lista, só faltava o Irã.
OPEP E OPEP+
São membros da Opep: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait, Venezuela, Argélia, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Líbia e Nigéria. A Opep + inclui os 11 da Opep e mais a Rússia, México, Omã, Cazaquistão, Malásia, Brasil (observador), Bahrein, Brunei, Sudão e Sudão do Sul.
Em 2023, o novo governo angolano de João Lourenço retirou o país da Opep, após uma guinada em favor dos Estados Unidos. Em 2019, o Qatar também saiu. A Indonésia deixou a Opep em 2014 por ter de se tornar um importador de petróleo.
As exportações de petróleo bruto da Opep representaram cerca de 47% das exportações globais marítimas em 2025. E a Opep compreende aproximadamente 69,5% a 80% das reservas comprovadas de petróleo do mundo.
DIVERGÊNCIAS ENTRE OS EMIRADOS E RIAD
Para analistas, outras divergências contribuiram para esse afastamento dos Emirados da Opep, hegemonizada por Riad.
Enquanto os sauditas seguem sustentando o estabelecimento de um Estado palestino como pré-condição, ou seja, paz por terra, para a normalização árabe com Israel, os Emirados são desde 2020, ainda no primeiro mandato de Trump, signatários dos Acordos de Abraão, que rifam os direitos palestinos.
Antes aliados dos sauditas no apoio ao governo iemenita no exílio e contra a revolução houthi, o apoio explícito dos Emirados a forças separatistas, que querem a recriação do Iêmen do Sul, também gerou fortes contradições com Riad. Estão, ainda, em lados opostos no Sudão, com os sauditas apoiando na guerra civil o exército enquanto os emiradenses respaldam os paramilitares.
Autoridades emiradenses buscaram atenuar o grau das divergências. “Estamos trabalhando juntos há muitos anos. Temos o maior respeito pelos sauditas por liderarem a Opep”, disse o ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail al-Mazrouei.
LAÇOS COM ISRAEL
Fontes dos Emirados também tentaram justificar o desenlace pelo fato de a reação iraniana à agressão americano-israelense ao país ter sido explicitamente severa com a pequena monarquia, que abriga bases e instalações americanas, e de onde partiram agressões contra o Irã.
“”Dificilmente parece do interesse dos Emirados Árabes Unidos conspirar com o Irã sobre o preço do petróleo quando estamos sendo diretamente atingidos por eles”, disse um ex-diplomata à RT. Segundo o portal Axios, Israel até mesmo enviou à petromonarquia secretamente uma bateria do Domo de Ferro e soldados israelenses para a operarem.











