Documentário do Middle East Eye relata o cruel assassinato de palestinos em busca de comida na Faixa de Gaza por tropas de Netanyahu e mercenários norte-americanos
O documentário Encharcado de Sangue: O Assassinato de Ameen Sameer Khalifa (Soaked in Blood: The Killing of Ameen Sameer Khalifa), produzido pela plataforma Middle East Eye ganhou o prêmio Voz do Povo (People’s Voice Award) na categoria documentário, vídeo e filme no Webby Awards deste ano.
Sob aplausos e gigantesco apoio do público, o filme venceu diversas outras indicações para garantir o prêmio e será homenageado em uma cerimônia para exigir a punição dos crimes de guerra cometidos por Israel.
Lançado em outubro, logo após a entrada em vigor do cessar-fogo na Faixa de Gaza, a obra reconstituiu os momentos que antecederam a morte de Khalifa e expôs como os palestinos foram criminosamente levados às zonas de tiroteio, para serem massacrados.
A partir de vídeos gravados em um local de distribuição de alimentos da chamada Fundação “Humanitária” de Gaza (GHF) – contratada pelos governos de Israel e dos Estados Unidos -, juntamente com imagens de satélite, depoimentos de testemunhas oculares e análise forense de áudio, o Middle East Eye (MEE) conseguiu descobrir que o homem de 30 anos foi assassinado a tiros em 3 de junho de 2025, próximo ao local de distribuição da pretensa “ajuda”da GHF em Rafah.
Khalifa, que era o principal responsável pelos cuidados de sua família, havia filmado um incidente dias antes, no qual foi alvejado por forças israelenses enquanto tentava obter ajuda.
No dia primeiro de junho, ele documentou multidões reunidas antes do amanhecer perto da rotatória de Al-Alam, próxima a um dos quatro pontos de distribuição de ajuda estabelecidos pela GHF. Horripilantes, as imagens falavam por si, mostrando civis caindo no chão enquanto dezenas de tiros eram disparados.
“ESTAMOS MORRENDO DE COMER UM PEDAÇO DE PÃO”
“Estamos morrendo de vontade de comer um pedaço de pão”, relatava Khalifa na gravação. “A fome é implacável”, respondeu seu primo Khalid.
Naquele dia, tanto Khalifa quanto seu primo Khalid sobreviveram à fuzilaria. Passados dois dias depois, porém, Khalifa percorreu o mesmo trajeto. Mas desta vez, em vez de recuperar uma caixa de farinha, óleo e um pacote de lentilhas, seu corpo foi crivado de balas, enquanto dezenas de palestinos ao seu redor gritavam por socorro e se encolhiam em busca de segurança.
Sua mãe, Fadwa, declarou ao MEE que implorou para que ele não fosse. “Ele tomou banho, passou perfume. Eu senti alguma coisa”, disse ela. Minutos depois, a senhora disse ter visto mensagens relatando tiroteios no ponto de distribuição. Mais tarde, recebeu uma ligação de alguém usando o celular dele. “Seu filho, que Deus tenha misericórdia dele [está morto]”.
Entre o final de maio e 10 de outubro, quando um cessar-fogo entrou em vigor em Gaza, pelo menos 2.615 palestinos foram mortos e pelo menos 19.182 ficaram feridos enquanto tentavam obter ajuda nos locais da GFH.
Conforme asseguram inúmeros relatos, desesperados, muitos palestinos foram baleados propositalmente por soldados israelenses ou por seguranças contratados pelos EUA, cumprindo ordens diretas de seus superiores. Confrontando-se ao documentado, mentindo descaradamente, a GHF negou que alguém tenha sido morto em suas instalações e afirmou que os próprios números divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) eram “falsos e enganosos”.
“CINEGRAFISTA FOI ASSASSINADO NO HOSPITAL POR UM BOMBARDEIO DUPLO DE ISRAEL”
“Encharcado de sangue é um filme do nosso tempo”, ressaltou David Hearst, cofundador e editor-chefe da MEE, frisando que “o cinegrafista que realizou grande parte das filmagens, Mohamad Salama, acabou morrendo por um bombardeio duplo de Israel ao Hospital Nasser, no sul de Gaza”. “Encharcado de Sangue faz jus ao seu nome”, reiterou
Salama foi executado pelas tropas sionistas no dia 25 de agosto, antes do lançamento do documentário, que representa um clamor à vida e à solidariedade. Seu assassinato ocorreu juntamente com o de outro jornalista do MEE, Ahmed Abu Aziz.
Ao comentar o reconhecimento do seu valor histórico, a MEE afirmou que o prêmio reflete tanto a qualidade do documentário quanto o impacto do jornalismo independente em levar informações pouco divulgadas de forma falsa ou invisibilizada pelos cartéis midiáticos a um público mais amplo.
“Criado em 1996, o Webby Awards é considerado um dos prêmios mais prestigiosos da indústria de mídia digital, com prêmios concedidos pelo júri da Academia Internacional de Artes e Ciências Digitais. A premiação recebeu centenas de milhares de votos do mundo todo, reconhecendo o melhor em filmes, vídeos e conteúdo digital online”, registrou o MME, frisando que “outras organizações de notícias, incluindo a CBS News, a Rudaw e a Variety, também ganharam prêmios Webby por seu conteúdo jornalístico e documental”.
Assista o filme











