Espantalhos S.A.


DAVI MOLINARI

Era um final de tarde gelado. Daqueles em que o Sol parece luz de geladeira: ilumina tudo, mas não esquenta porção nenhuma.

Eu e o doutor ocupávamos nossa mesa cativa no “Fale Mais Sobre Isso”, nossa zona neutra onde estudantes, artistas, trabalhadores, aposentados e jornalistas dividem chope, manjubinhas e divergências sem precisar chamar a polícia ou o algoritmo.

O doutor observava tudo por cima dos óculos, alternando olhares entre mim e seu inseparável bloquinho de notas.

Foi quando a paz acabou.

Passando entre as mesas com um sorriso insolente, surgiu o Laranjinha.

Para quem não conhece o espécime, ele é o filho bastardo do Laranjão, morador da cobertura mais nababesca da região. A semelhança era tão impressionante que dispensava DNA.

Aliás, a família já era conhecida por causa do Messias, o cachorro do Laranjão. Um animal tão seletivo nas mordidas que parecia trabalhar com recorte ideológico. Tinha preferência por democratas, sindicalistas, estudantes e qualquer cidadão que demonstrasse apreço por livros. Acabou recolhido pela carrocinha depois de transformar a calçada num campo de batalha. Foi a primeira vez que alguém daquela família encontrou um limite imposto pela realidade.

Ao passar por nossa mesa, Laranjinha parou.

— Acabou a mamata! Agora vocês é tudo terrorista! Comunista, sindicalista, estudante de humanas, gente que lê livro sem figura… tudo terrorista!

Senti o sangue subir.

Mas antes que eu me levantasse, Juvenal apareceu com uma bandeja e uma porção de manjubinhas.

— Não liga não — disse ele. — Esse aí veio te atacar com um espantalho. E dos vagabundos. Nem espantalho premium é. Foi feito com palha de rede social e roupa usada de gabinete parlamentar.

Laranjinha revirou os olhos.

Juvenal continuou:

— Agora a moda é chamar tudo de terrorismo. Misturam traficante, adversário político e até estudante. O objetivo é simples: fabricar medo. Primeiro inventam um inimigo absoluto. Depois desligam a empatia. É uma técnica tão velha que já devia estar em liquidação.

Peguei uma manjubinha.

— Também não é novidade histórica — respondi. — Nero culpou os cristãos pelo incêndio de Roma. O Reichstag serviu de pretexto para esmagar direitos e perseguir os comunistas. A fórmula nunca muda: inventam um monstro, apontam para ele e pedem mais poder para combatê-lo.

Laranjinha foi embora.

Por cinco minutos.

Voltou acompanhado de dois sujeitos saídos diretamente de uma incubadora da Faria Lima.

Camisa azul-clara.

Colete importado.

Relógio caro.

Opiniões compradas em podcast da extrema direita.

Pararam diante da mesa.

— Terroristas.

— Comunistas.

— Vagabundos.

O repertório completo coube em três palavras.

Levantei meio centímetro da cadeira.

Juvenal levantou antes.

— Meu querido – disse ao Laranjinha – você está no lugar errado, fazendo a coisa errada, pelos motivos errados e usando dados errados. É quase uma obra de arte.

Um dos faria-limers tentou avançar.

Foi um erro.

João e Maria largaram as panelas.

O apontador do bicho se levantou.

Os estudantes fecharam os notebooks.

A professora aposentada largou o chá.

Em segundos, o bar inteiro estava de pé.

Sem gritos.

Sem empurrões.

Sem ameaças.

Apenas o constrangimento coletivo fazendo seu trabalho. Todos juntos avançaram de braços unidos.

O trio começou a recuar.

Um passo.

Depois outro.

Depois mais um.

Quando percebeu, já estava do lado de fora.

O estudante sorria.

O apontador do bicho sorria.

A professora sorria.

Até Maria sorria.

Ser desaprovado simultaneamente pelo apontador do bicho, pela cozinheira e pela aposentada é uma experiência espiritual que nenhuma escola de negócios consegue oferecer.

Quando a porta se fechou, a paz voltou ao salão.

Foi então que o doutor guardou a caneta, fechou o bloquinho e falou sua única frase da tarde:

— O espantalho é o espelho do covarde: projeta-se nele a própria Sombra para ter o falso luxo de espancar aquilo que não se tem coragem de enfrentar diante do espelho.

Ninguém respondeu.

Nem precisava.

Mas Juvenal ainda tinha uma última cartada.

Olhou pela janela com aquele olhar perigoso que costuma anteceder suas piores ideias.

Desapareceu pelos fundos.

Voltou carregando um espantalho.

Cabo de vassoura.

Palha.

Trapos velhos.

A clássica engenharia agrícola.

Mas a cabeça era especial.

Presa ao topo do boneco balançava uma máscara com as feições do próprio Laranjão.

Juvenal fincou o espantalho na entrada do bar.

Afinal, eles passam a vida fabricando espantalhos para assustar os outros.

Professores.

Jornalistas.

Artistas.

Universidades.

Livros.

Qualquer coisa serve.

O problema é que quem vive cercado de bonecos de palha acaba esquecendo de olhar para dentro. Aí caiu uma ficha: — nada assusta mais um hipócrita do que descobrir que o espantalho que aponta todos os dias tem exatamente o seu próprio rosto! Pensei, em voz alta, enquanto me afastava do “Fale Mais Sobre Isso”.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – XCIV. Enviado pelo autor.

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