Flávio Bolsonaro defendeu PM acusado de assassinar menina de 5 anos

O policial, Flávio e a vítima, a menina Ana Clara (Fotos: Reprodução - Instagram)

Presidenciável integrou defesa de Bruno Delaroli e assinou recurso ao STJ contra decisão que determinou julgamento pelo Tribunal do Júri. Caso prova histórico de proximidade do senador com policiais e personagens ligados às milícias

Nova revelação lança luz sobre a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, como advogado de defesa de policial militar acusado pelo MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) de matar uma criança de 5 anos.

Flávio integrou a defesa do ex-cabo da PM Bruno Dias Delaroli, denunciado pela morte de Ana Clara Gomes Machado, em Niterói (RJ), e assinou, em 2024, recurso ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) contra decisão que determinou que o policial fosse submetido ao Tribunal do Júri.

Ana Clara foi atingida por disparos de fuzil em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói. Segundo a acusação, os tiros partiram da arma de Delaroli. A menina brincava na porta de casa com o irmão, então com 2 anos. Socorrida, não resistiu.

A Polícia Civil apontou Delaroli como autor dos disparos. Ele foi preso em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva, posteriormente substituída por medidas cautelares.

DEFESA TENTOU BARRAR O JÚRI

O processo avançou até a decisão de levar Delaroli a julgamento pelo Tribunal do Júri. A defesa, da qual Flávio fazia parte, recorreu ao STJ para contestar a decisão.

O recurso não prosperou. O caso, porém, continuou percorrendo as instâncias superiores. Em 2025, o STF (Supremo Tribunal Federal) registrou recurso ordinário em habeas corpus apresentado pela defesa do ex-PM.

A atuação de Flávio foi revelada publicamente pelo ex-deputado federal Marcelo Freixo (PT-RJ), que questionou a participação do senador na defesa de policial acusado da morte de uma criança.

“É comum o senador, no exercício do seu mandato, ser advogado de um caso, seja qual for? Não, não é comum”, afirmou Freixo.

O ex-deputado também questionou se Flávio havia procurado a família da menina: “Como Flávio Bolsonaro, senador, procurou a mãe? Procurou a família? Eu estou falando de uma criança de 5 anos de idade”, disse.

Delaroli é acusado e não foi condenado (ainda) pela morte de Ana Clara.

NOVO EPISÓDIO

O caso ganha dimensão política por se somar ao histórico de declarações, homenagens e relações de Flávio Bolsonaro com policiais e personagens associados às milícias do Rio.

Em agosto deste ano, durante entrevista ao Jornal Nacional, Flávio voltou a defender a homenagem que concedeu, quando deputado estadual, ao ex-PM Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como chefe do grupo miliciano Escritório do Crime, central de assassinatos por encomendas.

Questionado sobre a Medalha Tiradentes concedida a Adriano, Flávio afirmou que, à época, ele era “policial exemplar” e disse que não poderia prever o que ocorreria posteriormente.

Adriano foi expulso da PM e posteriormente apontado pelas autoridades como liderança de uma organização criminosa.

A relação com o entorno do ex-policial também apareceu nas investigações sobre o antigo gabinete de Flávio na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). A Justiça mantém medidas relacionadas à quebra de sigilos de Danielle Nóbrega, viúva de Adriano e ex-assessora do então deputado.

MILÍCIAS

A trajetória política de Flávio também registra declarações sobre a atuação de policiais em grupos de segurança privada no Rio.

Questionado neste ano sobre essa posição histórica em relação às milícias, afirmou que defendia a legitimidade dos policiais, mas fazia distinção entre essa atuação e a exploração criminosa de comunidades.

“A gente defendia a legitimidade dos policiais, mas não depois, quando começa essa prática de explorar a comunidade, cobrar pelo gás, cobrar pelo wi-fi, cobrar pelo gato de energia”, declarou.

Ao ser novamente questionado, em 2026, sobre Adriano da Nóbrega, Flávio sustentou que não poderia ser responsabilizado pelo que o ex-PM teria feito depois da homenagem e voltou a dizer que ele era, naquele período, um “policial exemplar”.

A atuação na defesa de Delaroli acrescenta outro episódio ao histórico e recoloca no debate público as relações de Flávio com agentes da segurança pública acusados de crimes graves; especialmente porque se trata de senador e candidato à Presidência que fez da segurança uma das bandeiras da trajetória política.

Para Freixo, essa dimensão precisa ser discutida na campanha:

“Eu acho que alguém que quer ser presidente da República, essa é uma história sobre a qual a gente tem que falar.”

5 ANOS SEM JUSTIÇA

Ana Clara tinha apenas 5 anos. Dizia que, quando crescesse, queria ser igual à mãe. Na manhã de 2 de fevereiro de 2021, brincava na porta de casa, em Monan Pequeno, quando foi atingida por disparos de fuzil.

Segundo a acusação do MPRJ, os tiros partiram do então policial militar Bruno Dias Delaroli. A criança foi atingida por 4 disparos, segundo relatos sobre o caso.

O processo se arrastou durante anos até que a Justiça decidiu levar o ex-PM ao Tribunal do Júri. Foi então que Flávio Bolsonaro, senador e advogado inscrito na OAB, passou a integrar a defesa e assinou recurso ao STJ contra a decisão.

Será que Flávio também vai alegar cinicamente que não sabia que o policial matou uma criança de 5 anos?

O recurso foi rejeitado. Ainda assim, o caso continuou tramitando e, até setembro de 2026, Delaroli não havia sido julgado pelo Tribunal do Júri.

Para a família, a espera por Justiça tornou-se a segunda violência. Ana Clara morreu aos 5 anos. E 5 anos depois, o acusado ainda não havia sido submetido ao julgamento popular determinado pela Justiça.

DIREITO DE DEFESA E A QUESTÃO POLÍTICA

Não há contradição jurídica em advogado defender alguém acusado de crime grave. O direito de defesa é garantia constitucional, e todo acusado pode utilizar os recursos previstos em lei. A questão política é outra.

Quando passou a integrar a defesa de Delaroli, Flávio não era apenas advogado privado. Era senador da República e uma das principais figuras políticas de campo que reivindica para si a bandeira da segurança pública. Hoje, candidato à Presidência, a atuação profissional inevitavelmente ganha dimensão pública.

A questão, portanto, não é se Delaroli tinha direito à defesa — tinha — nem se Flávio podia exercer a advocacia — podia.

O ponto é o significado político da escolha de atuar em defesa de policial acusado de matar uma criança, especialmente para quem pretende governar o País e apresenta o endurecimento na segurança como uma de suas principais bandeiras.

E, diante da história de Ana Clara, permanece uma pergunta que não é jurídica, mas humana: quando a Justiça chegará para essa família?

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