“Flávio Bolsonaro não é o primeiro criminoso que se evade”, afirma ex-chanceler

Ex-ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes (Foto: Pedro França - Agência Senado)

“Não é um problema do governo brasileiro, é um problema da direita. A direita brasileira é que tem de saber como lidar com este De Gaulle de fancaria”, afirma Aloysio Nunes

O ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes Ferreira afirmou que a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, após a derrota na eleição presidencial, não deve se transformar em problema do governo Lula (PT). Para o ex-chanceler, cabe à própria direita brasileira lidar com o desgaste provocado pelo candidato derrotado, que deixou o País e foi para os Estados Unidos.

Em entrevista à revista CartaCapital, publicada nesta quinta-feira (29), Aloysio foi direto e recorreu à ironia para comentar o episódio:

“Ele não é o primeiro criminoso que se evade — estou usando o termo da crônica policial —, especialmente quando se dispõe de recursos milionários como ele. Não é um problema do governo brasileiro, é um problema da direita. A direita brasileira é que tem de saber como lidar com este De Gaulle de fancaria.”

A expressão De Gaulle de fancaria é referência irônica ao general Charles de Gaulle, ex-presidente francês e símbolo da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Ao empregá-la, Aloysio ridiculariza a pretensão de Flávio de se apresentar como liderança política exilada e comandante da oposição brasileira a partir do exterior.

GOVERNO NÃO DEVE ENTRAR NO JOGO DE TRUMP

Aloysio também defendeu que o Itamaraty não transforme a permanência de Flávio nos Estados Unidos em assunto central das relações entre Brasília e Washington.

Segundo ele, o presidente Lula tem questões muito mais importantes a tratar com Donald Trump, especialmente as negociações comerciais para enfrentar o tarifaço imposto aos produtos brasileiros e ampliar a cooperação bilateral.

O ex-chanceler chamou atenção ainda para o calendário político americano, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. Na avaliação dele, os trumpistas já trabalham com a possibilidade de contestar antecipadamente o resultado eleitoral caso sejam derrotados.

“Eles [os trumpistas] têm a perspectiva de perder e já estão plantando que as eleições podem ser fraudadas”, observou.

FUGA EXPÕE CONTRADIÇÃO DO DISCURSO BOLSONARISTA

Em outra entrevista, ao SBT News, Aloysio avaliou que a saída de Flávio representa oportunidade para a direita se desvencilhar da tutela política da família Bolsonaro.

“Ninguém comprou essa história que ele está sendo perseguido por uma ditadura. Jornais internacionais enfatizam o lado criminal, a verdadeira razão da fuga”, afirmou.

O ex-ministro também considerou que a fuga do senador representa desmoralização política, já que ele havia sido escolhido pelo pai para liderar o bolsonarismo e organizar a oposição nos próximos 4 anos.

“Flávio Bolsonaro é um vazio, um nada, uma casca de ovo escrita Bolsonaro. O dono dos votos é o Jair Bolsonaro. Ele é o líder. E agora não terá ninguém atuando no campo bolsonarista de extrema direita para manter a chama acesa porque quem foi designado para isso fugiu e vai ficar nos Estados Unidos”, declarou.

Para Aloysio, a direita precisa encontrar liderança que não esteja subordinada à família Bolsonaro. Entre os nomes que poderiam ocupar esse espaço, mencionou o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Rogério Marinho (PL-RN).

PF INVESTIGA SAÍDA DO SENADOR

A Polícia Federal investiga as circunstâncias da viagem de Flávio aos Estados Unidos. Segundo a corporação, não foram encontrados registros de passagem do senador pelos postos oficiais de controle migratório brasileiro.

A investigação ocorre depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou a entrega dos passaportes do parlamentar e impôs restrições à saída do parlamentar do país, no âmbito de investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio e o advogado Willer Tomaz, também investigado, negam irregularidades.

A viagem ocorreu pela fronteira com a Argentina, de onde o senador embarcou em avião particular rumo aos Estados Unidos, acompanhado da mulher e das 2 filhas.

O episódio também provocou repercussão diplomática. O governo brasileiro convocou o representante argentino para prestar esclarecimentos sobre a passagem de Flávio pelo país vizinho.

Enquanto isso, o senador continua questionando o resultado eleitoral, insinua fraude sem apresentar provas e promete recorrer à Justiça para tentar anular a vitória de Lula.

A situação coloca o fascismo diante de dilema: continuar seguindo a estratégia política da família Bolsonaro ou construir oposição que reconheça as regras democráticas e atue dentro do País.

Para Aloysio Nunes, a resposta a esse impasse não cabe ao governo brasileiro. É a própria direita que terá de resolvê-lo.

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