“Quando o Getúlio estabeleceu a Petrobrás, muita gente dizia que o Brasil não tinha petróleo e que era algo para ficar debaixo da terra. Hoje a Petrobrás é uma das maiores potências do mundo”, lembrou
Em entrevista ao canal Tutaméia, do Youtube, na última sexta-feira (9), o assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, afirmou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais poderia levar o Brasil a um nível de subserviência aos Estados Unidos sem precedentes na história do país.
“Nem a ditadura foi tão subserviente aos EUA quanto Flávio Bolsonaro pode ser”, advertiu Amorim.
Questionado sobre o cenário eleitoral brasileiro, o assessor alertou para as consequências de uma vitória bolsonarista. “É claro que se acontecer esse desastre de o Bolsonaro ganhar as eleições, ele mesmo está dizendo e repetindo, que então a interferência seria permitida e bem-vinda, o que seria uma subserviência jamais vista. O próprio governo militar teve oscilações”.
Amorim, que é um diplomata renomado, ministro das relações exteriores nos governos Itamar e Lula, e da defesa no governo Dilma, alertou para o risco de interferência direta de Washington em decisões estratégicas brasileiras, especialmente nas áreas de recursos minerais, inteligência artificial e soberania nacional.
Segundo Amorim, nem mesmo durante a ditadura militar, apesar do apoio norte-americano ao golpe de 1964, houve uma disposição tão explícita de aceitar a ingerência estrangeira.
O assessor também advertiu que esse alinhamento poderia comprometer o controle sobre riquezas nacionais e transformar o Brasil em uma colônia, administrada em benefício de interesses externos, e não da população brasileira.
Sobre a diferença entre as interferências do passado e o que teme agora, Amorim comparou os dois momentos:
“Mesmo nessas interferências passadas, ninguém tem dúvida que o embaixador americano em 1964, Lincoln Gordon, agiu amplamente e que havia planos de deslocamento inclusive de navios norte-americanos para ficar em frente ao território brasileiro. Tudo isso aconteceu, mas havia mais disfarce, porque havia o combate ao comunismo. Hoje em dia o que se combate? Quem pode acusar o presidente Lula e o vice-presidente Alckmin de serem comunistas? Nada. O objetivo exclusivo é a dominação de todo o hemisfério, que eles consideram, e já usaram essa palavra de várias formas, o quintal deles”, disse.
Ao comentar a posição brasileira diante dessa ofensiva, Amorim citou o discurso de Lula na ONU. “O presidente Lula disse claramente na Assembleia Geral das Nações Unidas que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, nem a América Latina na realidade cabe no quintal de ninguém. Só que como os outros países apresentam uma realidade mais fragmentada, é menos difícil, não fácil, mas menos difícil, essa penetração”, afirmou Amorim.
“No governo Castelo Branco, o Juracy Magalhães disse que o que era bom para os Estados Unidos era bom para o Brasil. Mas já nos governos subsequentes houve discordâncias em relação ao mar de 200 milhas, em relação ao programa nuclear, em relação ao nosso reconhecimento de Angola, com o Brasil sendo o primeiro país a reconhecer Angola”, disse.
Para reforçar seu argumento, Amorim lembrou que o Brasil já contrariou interesses americanos no passado:“O Brasil acabou estabelecendo relações com a China antes dos Estados Unidos, que começaram o processo com o Kissinger, mas demoraram anos, e o Brasil fez rapidamente. Não estou defendendo o governo militar. Havia tortura e perseguição aos direitos humanos. Eu mesmo, enquanto presidente da Embrafilme, fui convidado a pedir demissão por causa do filme Pra Frente, Brasil. Não estou defendendo, o que estou dizendo é que nunca houve uma invasão consentida e desejada a esse ponto. Isso é uma coisa absurda, e o povo brasileiro tem que estar em alerta para isso, porque se eles forem fazer isso não é em benefício do povo brasileiro, será em benefício deles. Será para saber onde estão os nossos minerais críticos, como eles vão usar a inteligência artificial no Brasil”, continuou Amorim em entrevista.
Ao citar exemplos concretos de defesa da soberania, Amorim recorreu à criação da Petrobrás. “Esses temas não são abstratos. Esses temas são muito concretos. Quando o Getúlio estabeleceu a Petrobrás, muita gente dizia que o Brasil não tinha petróleo e que era algo para ficar debaixo da terra. Hoje a Petrobras é uma das maiores potências do mundo. Nós sofremos com o aumento do preço do diesel ou com a escassez de combustível, porque todos sofrem, mas muito menos do que estaríamos sofrendo se nós tivéssemos que comprar todo nosso petróleo ou se nosso petróleo estivesse sendo explorado todo por empresas estrangeiras que estariam dando preferência aos seus países de origem”, disse Amorim.
Por fim, o assessor mencionou o risco de destruição da memória e da própria ideia de país. “Até a memória histórica do Brasil eles estão aparentemente querendo destruir através do Iphan. Nós lembramos o que aconteceu no IBGE no governo Bolsonaro, em que os dados também eram suprimidos. Não é uma coisa menor, é uma destruição do país o que está em jogo. Ou seja, acabar com a ideia de que o Brasil é um país. O país passaria a ser uma colônia, administrada não em benefício do povo brasileiro”, disse Amorim.










