Recurso teria sido repassado por operadores que ganharam milhões com informação privilegiada sobre decisões da Petrobrás. Abradin denunciou a falcatrua na época. São esses os sigilos que Flávio não quer abrir
A Polícia Federal reabriu a investigação sobre a compra de uma mansão pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) em Brasília. O assunto voltou à cena quando Lula lembrou o episódio, durante o debate da Band, e desafiou Flávio a abrir seus sigilos bancário e telefônico.
O financiamento concedido pelo Banco de Brasília (BRB) para a aquisição do imóvel é objeto de investigação da Polícia Federal. O presidente questionou a origem de recursos associados ao adversário.
O ex-deputado federal Julian Lemos, antigo aliado de Jair Bolsonaro, deu informações importantes sobre a origem do dinheiro. Ele estabeleceu uma ligação entre a aquisição do imóvel e uma operação financeira relacionada a informações privilegiadas sobre a troca de comando da Petrobrás, ocorrida em 2021.
Em entrevista recente, o ex-deputado voltou a criticar o senador. “Flávio, fique à vontade para me processar. Você é ladrão, você é senador, você pode ser presidente da República, pode até mandar me matar. Agora eu quero dizer uma coisa a você: você é ladrão, o seu pai não tem controle sobre você”, disse.
A operação envolvendo a Petrobrás começou em fevereiro de 2021, quando o então presidente Jair Bolsonaro anunciou a substituição de Roberto Castello Branco no comando da estatal.
Nos dias próximos à divulgação da mudança, foram identificadas operações consideradas atípicas com opções de venda de ações da companhia. Esses instrumentos financeiros podem ganhar valor quando o preço de uma ação cai.
A Associação Brasileira dos Investidores (Abradin) apresentou reclamação à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), apontando suspeitas de utilização de informação privilegiada, prática conhecida no mercado como insider trading. A entidade apontou prejuízos aos acionistas minoritários da estatal. Segundo a Abradin, um único investidor teria lucrado mais de R$ 16 milhões com essas operações.
A Abradin argumentou à época que existiam indícios de que as operações tenham sido feitas por alguém com acesso privilegiado às informações da estatal. As movimentações foram realizadas no dia 18 de fevereiro e envolveram mais de 4 milhões de opções de compras de contratos de opção de venda de ações preferenciais da Petrobrás.
Tudo isso foi registrado em reportagem da IstoÉ Dinheiro da época. Segundo o documento assinado pelo presidente da entidade, Aurélio Valporto, essa série de opções de venda envolveram os papéis da PETRN265, feitas a um valor unitário de R$ 0,04, totalizando um volume financeiro de R$ 160 mil. As ordens teriam partido da corretora Tullet Prebon e a série teria vencimento no dia 22 de fevereiro.
Ainda no dia 18, Bolsonaro reclamou, durante uma live, do preço do combustível e seus reajustes promovidos pela Petrobrás. No dia seguinte, após o fechamento do mercado, ele anunciou a demissão de Castello Branco.
“Esta série de opções venceria no dia 22 de fevereiro, segunda-feira, portanto, quem abrisse posição no final do pregão do dia 18 somente teria o pregão do dia 19, uma sexta-feira, para desfazer-se da posição, uma vez que no pregão do dia do vencimento não é possível negociar as opções, apenas exercê-la ou deixar ‘virar pó’ [perder 100% do dinheiro investido, no caso do comprado] e apenas durante duas horas de pregão, das 11h às 13h”, disse a Abradin.
Na sexta, as ações preferenciais caíram 6,63% e desabaram na segunda-feira, quando desvalorizaram 26,7%, gerando para a estatal um prejuízo de R$ 102,5 bilhões em valor de mercado.
O investidor que realizou a operação ganhou uma grande quantia e o raciocínio da Abradin é descrito da seguinte forma: no dia 22 de fevereiro, dia de vencimento das opções, a ação da Petrobrás chegou a ser cotada a R$ 22,40 e o investidor comprou as opções de vender a R$ 26,50 por apenas R$ 0,04 no dia 18 de fevereiro. Caso tenha mantido sua posição até o exercício no dia 22, ele compraria as ações por até R$ 22,40 e as venderia por R$ 26,50, auferindo um ganho de R$ 4,10 por papel. Se descontarmos os R$ 0,04 gastos na compra do prêmio da opção, o ganho potencial foi de até R$ 4,06 por cada opção. Para o lote total de 4 milhões de opções que ele obteve inicialmente, o ganho potencial da operação descrita atinge R$ 16.240.000,00.
Segundo a Abradin, a CVM informou a abertura do processo administrativo nº 19957.001646/2021-76 para examinar indícios de uso de informação privilegiada nas negociações realizadas em 18 e 19 de fevereiro daquele ano. No entanto, diz a entidade, ao baixar a poeira, o caso foi arquivado.
Contudo, a repercussão do financiamento da mansão de Flávio, que até hoje não explicou a origem do dinheiro para adquirir o imóvel, ocorre em um momento de confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Em 4 de março de 2021, a revista IstoÉ Dinheiro informou que a operação questionada envolvia aproximadamente quatro milhões de opções de venda de ações preferenciais da Petrobrás. A estimativa divulgada na época indicava ganho potencial superior a R$ 16 milhões.
O procedimento, segundo fontes do mercado, tinha como objeto operações financeiras que beneficiaram o senador Flávio Bolsonaro que comprou o imóvel em Brasília. O empréstimo conseguido junto ao BRB – que o futuro confirmou estar envolvido nas falcatruas de Vorcaro e Flávio – serviu apenas como fachada da transferência financeira ilegal, propiciada pelo grupo que se beneficiou com a informação privilegiada.
Tanto o debate da Band quanto a reabertura de investigações da aquisição do imóvel pela Polícia Federal podem trazer à tona mais essa falcatrua de Flávio Bolsonaro, entre tantas outras de sua autoria. E uma operação fraudulenta como essa explica também porque Flávio resiste tanto a abrir seus sigilos bancário e telefônico.
SÉRGIO CRUZ










