Os relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelam que o senador Flávio Bolsonaro (PL) realizou movimentações bancárias incompatíveis com a renda declarada pelo candidato à Presidência.
Segundo reportagem do jornal “O Globo”, entre as operações consideradas atípicas pelo Coaf está o recebimento de R$ 520 mil de um escritório de advocacia para quitar antecipadamente o financiamento da mansão adquirida por Flávio em Brasília.
Os documentos integram a investigação da Polícia Federal sobre os vínculos do parlamentar com o advogado Willer Tomaz em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo transações com bets. O caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Procurado, Flávio não se manifestou.
Tomaz foi o maior apostador do Brasil em 2025, com movimentação de cerca de R$ 5 bilhões em plataformas de apostas on-line, segundo o Ministério da Fazenda.
Ao rastrear a origem e o destino dos valores, a investigação chegou às contas do senador.
Entre as evidências reunidas pela PF estão: registros de viagens internacionais de Flávio custeadas por empresas ligadas a Willer; documentos que apontam o senador como “usuário master” de conta bancária da Alcazar Holding, offshore da qual o advogado é sócio. O STF determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores de Willer, que nega irregularidades.
Segundo o jornal O Globo, o Coaf aponta que o senador “movimentou montante relevante sem respaldo em informações sobre sua capacidade financeira” entre janeiro e março de 2024, quando realizou R$ 1,3 milhão em transações financeiras, sendo R$ 660.111 em créditos e R$ 649.272 em débitos. O órgão vinculado ao Banco Central também destaca que o volume médio de operações feitas por Flávio Bolsonaro nesse período de três meses é 7,19 vezes superior “ao esperado para a renda informada” pelo senador.
O alerta foi feito por bancos e demais instituições financeiras ao Coaf, que emite comunicados às autoridades de investigação e controle, caso da PF e do Ministério Público, quando há indícios de ilícitos, como lavagem de dinheiro, por exemplo. Os relatórios por si só não atribuem crimes, mas servem para embasar investigações.
Os relatórios revelam que, no mês de março de 2024, Flávio recebeu R$ 520.277,28 do escritório Gavioli e Viola Advogados Associados. O montante foi utilizado para liquidar, de forma antecipada, um empréstimo imobiliário contratado em 2021 junto ao Banco de Brasília (BRB) para comprar uma mansão de R$ 5,97 milhões na época em uma área nobre da capital federal.
“Há suspeitas no valor recebido, pois foi destinado à quitação antecipada de operação de crédito”, diz o Coaf. Apesar de o contrato prever a quitação do financiamento imobiliário em 30 anos, a dívida foi liquidada em cerca de três anos por meio de seis pagamentos extraordinários, que variaram de R$ 198 mil a R$ 997 mil.
Ainda segundo o Coaf, um desses repasses ocorreu em março de 2024, no valor aproximado de R$ 520 mil, montante correspondente aos recursos transferidos pelo escritório Gavioli e Viola Advogados Associados.
Advogados desta banca jurídica atuaram com o senador em dois processos no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em um deles, relativo a uma disputa societária entre empresas do setor gráfico, o parlamentar ingressou na equipe de defesa em junho de 2024. Dois meses depois, em agosto, a Quarta Turma do tribunal decidiu, por unanimidade, não admitir o recurso apresentado pelos advogados.
No outro processo, o senador consta, desde abril de 2025, como integrante da equipe de defesa do casal envolvido no caso conhecido como o do Faraó dos Bitcoins, que envolve suspeitas de pirâmide financeira com investimentos em criptomoedas. No recurso apresentado ao STJ, Flávio Bolsonaro e integrantes do escritório Gavioli e Viola pediram o trancamento da ação penal, o que foi rejeitado pelo ministro relator do caso em maio daquele ano.
Quando solicitou o empréstimo imobiliário ao BRB, Flávio havia informado uma renda mensal de R$ 56,8 mil — composta pelo salário de parlamentar à época, os rendimentos de uma franquia de chocolates e aplicações financeiras. Após ser questionado pela Justiça, Flávio alegou que atuava como advogado e que os recursos empregados na compra do imóvel tinham origem lícita.
Recentemente, reportagem do site UOL revelou que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu ao menos 62 notas fiscais que somam R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
Entre os principais clientes do senador, está a banca jurídica Nilo & Almeida Advogados Associados, comandada pelo advogado Edvaldo Nilo de Almeida, que pagou R$ 4 milhões ao candidato à Presidência da República.
Ao menos metade desse valor foi desembolsado três semanas antes de o defensor ser aprovado pelo Senado para compor o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).










