Federação Internacional de Jornalistas, Comitê para a Proteção dos Jornalistas e Repórteres Sem Fronteiras se somam contra a execução da colega libanesa perseguida e mantida sangrando sob os escombros durante horas. Autoridades do Líbano e profissionais pediram o acesso a ambulâncias, que foi negado pelas tropas de ocupação
O cortejo fúnebre da renomeada jornalista libanesa Amal Khalil, de 43 anos, assassinada quarta-feira (22) após duas horas de perseguição por tropas nazisraelenses, foi acompanhado nesta quinta-feira pela população de Baisariyeh, sua cidade natal, e gerou forte comoção nacional e internacional.
“Estamos consternados com o assassinato direcionado de nossa colega Amal Khalil por Israel e com a obstrução dos esforços de resgate que impediu que o socorro chegasse até ela enquanto estava presa sob os escombros”, afirmou o secretário-geral da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), Anthony Bellanger.
Conforme Bellanger, “a violência deliberada de Israel e o assassinato sistemático de jornalistas em Gaza estão sendo replicados no Líbano, diante da inação da comunidade internacional e com total impunidade”. “Os perpetradores de crimes contra jornalistas e crimes de guerra devem ser responsabilizados perante tribunais internacionais”, enfatizou.

“A Cruz Vermelha informou que não conseguia chegar ao local devido aos bombardeios israelenses em curso. Isso demonstra um descaso cruel, além do que parece ser um assassinato premeditado e direcionado de um jornalista”, protestou o diretor executivo da Repórteres Sem Fronteiras, Clayton Weimer, reiterando que a organização enviou mensagens solicitando que fosse permitido o acesso de ambulâncias a Khalil e que este lhe foi terminantemente negado.
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) reforçou a condenação à postura sanguinária e covarde dos israelenses. “Os ataques repetidos ao mesmo local, o direcionamento a uma área onde jornalistas estavam abrigados e a obstrução do acesso médico e humanitário constituem uma grave violação do direito internacional humanitário”, afirmou a diretora regional do comitê, Sara Qudah. “O CPJ responsabiliza as forças israelenses pelo risco à vida de Amal Khalil e pelos ferimentos sofridos por Zeinab Faraj após o ataque direcionado ao local onde estavam abrigados”, sublinhou.
“ISRAEL ADICIONA MAIS UM CRIME DE GUERRA AO SEU SANGRENTO HISTÓRICO”
“Com este crime agravado, o exército israelense adiciona mais um crime de guerra deliberado e flagrante ao seu longo e sangrento histórico”, reforçou a União de Jornalistas do Líbano, lembrando que só no mês passado teve três colegas assassinados pelos sionistas.
Segundo o Ministério da Saúde libanês e o jornal al-Akhbar, a profissional estava perto da vila de al-Tiri, portando equipamentos de proteção e identificação visível de imprensa, quando o veículo que dirigia foi alvejado, bem como sua colega Zeinab Faraj, fotógrafa freelancer, e duas pessoas morreram.
O Ministério da Saúde informou que as tropas israelenses perseguiram Khalil e Faraj, “visando a casa para a qual haviam fugido”. “Quando a Cruz Vermelha Libanesa chegou para transportar os feridos”, lamentou o ministério, “o inimigo impediu a conclusão da missão humanitária, disparando uma granada de efeito moral contra a ambulância e alvejando-a com tiros, de modo que não foi possível resgatar Khalil”. Os socorristas conseguiram resgatar Faraj e os corpos de dois homens que foram mortos no ataque.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, classificou o assassinato da profissional como “crime de guerra”, registrando a covardia dos sionistas que dispararam até mesmo contra as equipes de socorro que tentaram retirá-la do prédio sob os escombros.
“Os ataques de Israel contra profissionais da mídia no sul do país, enquanto estes exercem suas funções, deixaram de ser incidentes isolados e se tornaram uma prática consolidada que condenamos e rejeitamos, assim como todas as leis e convenções internacionais”, protestou Salam, enfatizando que o país tomará todas as medidas necessárias para responder a conduta de terrorismo de Estado adotada por Benjamin Netanyahu.
“ATAQUE VISA OCULTAR A VERDADE SOBRE A AGRESSÃO AO LÍBANO”
Conforme o presidente Joseph Aoun, o “ataque foi deliberado e consistente de jornalistas por Israel” visando “ocultar a verdade sobre seus atos de agressão contra o Líbano, além de constituir crimes contra a humanidade puníveis pelas leis e convenções internacionais”.
Khalil já havia relatado ter recebido ameaças por meio de um telefone israelense não identificado de que seria “executada e decapitada” caso não abandonasse o sul do Líbano, onde residia há muito tempo. Me disseram: “Sabemos onde você está e entraremos em contato quando chegar a hora”.
Para aumentar a sensação de horror, Khalil ficou presa por horas em uma casa que havia sido bombardeada pelas forças israelenses, morrendo apesar dos esforços desesperados de sua família, seus editores e do próprio presidente libanês para organizar um resgate.
O Sindicato dos Jornalistas do Líbano afirmou que, quando os paramédicos tentaram resgatá-la, as tropas israelenses impediram o acesso ao local. O corpo de Khalil só conseguiu ser recuperado próximo à meia-noite, pelo menos seis horas após o ataque.
Cinicamente, o governo Netanyahu anunciou que “o caso está sendo investigado, mas que Israel jamais ataca civis e faz todo o possível para minimizar os riscos para jornalistas”.
“O QUE ISRAEL FAZ É VIOLAÇÃO DO DIREITO INTERNACIONAL”
Para o o ex-reitor da Faculdade de Direito e Ciências Políticas da Universidade Libanesa, Camille Habib, “tudo o que Israel está fazendo é uma violação do direito internacional, desde o deslocamento forçado à destruição, da explosão de casas aos ataques contra jornalistas e paramédico”.
O fato, registrou Habib, é que “depois de tudo o que o inimigo israelense fez de Gaza ao Líbano, o direito internacional deixou de existir, porque o inimigo violou tudo”. “O direito internacional humanitário, as leis da guerra e todas as convenções internacionais foram violadas, e crimes de guerra e crimes contra a humanidade foram cometidos sem que tenhamos visto qualquer ação internacional efetiva para deter o inimigo”, disse. Camille Habib recordou que “o Tribunal Penal Internacional já havia emitido um mandado de prisão contra Netanyahu e seu Ministro da Defesa, mas quem o executou? Não foi executado de forma alguma”.
Para o pesquisador em relações internacionais, Ali Matar, “o que estamos testemunhando pode ser legalmente descrito, sob o direito internacional humanitário, como graves violações que constituem crimes de guerra e, em alguns casos, crimes contra a humanidade”. “Atacar civis, bombardear infraestruturas como hospitais e escolas, atacar equipes de ambulância ou destruir casas e aldeias são violações claras desse princípio. Da mesma forma, a destruição generalizada de propriedades sem necessidade militar e impedir que os moradores retornem às suas áreas são considerados atos proibidos, e esses atos são claramente classificados como crimes de guerra no Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional”, concluiu.











