“A mobilização popular é essencial para fazer justiça diante do golpe dado pelo presidente da República, Santiago Peña, aos cofres dos paraguaios. O fato é que seu vice, Pedro Alliana, era cúmplice”, afirmou a destacada ativista pelos direitos humanos
Em entrevista exclusiva, a renomada ativista pelos direitos humanos Guillermina Kanonnikoff denuncia o assalto ao Ueno Bank, realizado pelo presidente do Paraguai, Santiago Peña. “O fato é que seu vice, Pedro Alliana, era cúmplice”, assinala. A heroica sobrevivente da ditadura militar de Alfredo Stroessner (1954-1989) sustenta que houve “enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e administração em proveito próprio”, frisando que a instituição financeira responsável por 60% das contas dos paraguaios foi levada à ruína e os correntistas deixados sem acesso aos depósitos. De forma contundente, Guillermina aponta o “fio condutor até o Partido Colorado e Horacio Cartes”, destaca os inúmeros crimes cometidos pelo governo contra o patrimônio público, e exalta o exemplo do povo brasileiro em “ampliar a pressão e a mobilização para conquistar um país e um continente livres das amarras da dependência”.
LEONARDO WEXELL SEVERO
Qual a sua avaliação desse golpe?
Como cidadã paraguaia, que vive neste país e faz parte dessa história ao longo de vários governos colorados, vejo no caso do Ueno Bank uma escandalosa fraude contra o nosso povo. É evidente que Santiago Peña não governou para o povo, e sim para o próprio partido, seus amigos e sócios comerciais. Desta vez foi com um banco, por meio do qual assaltaram os cofres públicos, nossas instituições. É o jeito deles: cúmplices durante todo o processo e, quando já não dá para sustentar, saltam como salvadores da pátria. Também é necessário lembrar que o vice-presidente Pedro Alliana foi deputado federal entre 2013 e 2013 e presidente do Partido Colorado de 2015 a 2023.
O fio condutor é Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado, que colocou Peña e Eliana no poder. É uma vendeta, porque dois “filhos” se rebelaram. Hoje o único ganhador é, outra vez, Cartes: Peña saiu do círculo dele, e Pedro Alliana e outros que subiram no carro de Peña estão desconcertados e voltam a Cartes, que tem o poder do dinheiro, da carteira, e manda no país. Já vimos isso no massacre de Curuguaty, em junho de 2012, e no golpe contra um governo eleito nas urnas.
Agora o povo sentiu a fraude no próprio bolso. É a hora de entender que, votando no Partido Colorado, não vamos sair adiante como país sério. O desfecho está cantado: Peña caiu fora e renunciou para enfrentar o impeachment. A renúncia traz custos políticos mais altos e complica ainda mais a credibilidade internacional do país.
Há acusações e provas contundentes contra o presidente Santiago Peña.
Há denúncias contra Peña por enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e administração em proveito próprio. E há provas concretas de que o Estado foi posto à disposição dele e dos amigos.
Por isso, nem o impeachment nem a renúncia significam que Peña possa sair livre e impune. Já aconteceu com o ditador Alfredo Stroessner, que governou de forma sangrenta o país de 1954 a 1989 e nunca respondeu pelos crimes de lesa-humanidade e econômicos. Deixaram o caminho livre; isso é muito próprio deles. Há motivos para colocá-lo na prisão, e acho que nada disso teria sido armado sem provas contundentes. Resta ver se o Ministério Público estará à altura. Tenho esperança, mas isso não resolve o problema de fundo, que é uma corrupção que permeia tudo. Não basta prender Peña, nem dois ou três. É preciso uma revisão completa: há muitas contas a pagar na gestão do Estado.
O governo paraguaio vinha sendo uma das marionetes de Trump e de Netanyahu.
Há pouco tempo, o Paraguai votou ao lado dos Estados Unidos e de Israel contra Cuba, alinhado com Trump e Netanyahu, que perderam recentemente as eleições em seus países. É maravilhoso ver mais um dos amigos deles na lona. O que vocês fizeram no Brasil foi um tsunami, que vai arrastando o resto. Vocês mostraram que, juntos, podemos: essa é a grande esperança latino-americana.
Assim, espero que caiam não só Peña, mas todos os que o sustentaram e aprofundaram essa corrupção. Pode ser uma limpeza, a grande oportunidade do Paraguai, mas ela nos pega com uma oposição desorganizada e com difícil acesso ao poder pelas urnas. A corrupção toca até as classes mais humildes: é o modo de manter cativos os votos, dependentes das migalhas que o governo deixa chegar para que sobrevivam. É isso que os colorados conseguiram ao rejeitar na Câmara dos Deputados, por 48 votos a 30, o pedido de impeachment contra Pedro Alliana, deixando-lhe caminho livre para assumir a Presidência da República. Isso em um contexto no qual a oposição havia assinalado a “cumplicidade” do vice-presidente no caso Ueno Bank, envolvendo o agora renunciante presidente. Falta até a esperança de construir algo diferente. O desafio é reverter isso, como fez Lula: mostrar às pessoas que é possível sair, mas juntos e com gente confiável, que resolva as demandas do povo.
Como você vê essa mobilização popular?
Estou acompanhando os deputados na fase acusatória. Estamos prontos para sair às ruas quando for preciso, mas este ainda não é o momento-chave. Ele virá com o desfecho. Ontem houve uma convocação de pessoas afetadas, com presença e até repressão. Há uma juventude que se manifesta, e essa pressão vai crescer. Não sabemos até quando.
Uma última palavra.
Sim: que todos sigamos atentos. Sei que vocês estão sempre alertas, como estivemos nós. Seguimos agradecidos pelo grande apoio que o povo brasileiro sempre nos deu no caso de Curuguaty, e que hoje volta a nos dar. A solidariedade latino-americana é o que nos faz crer que o futuro é possível, e que a esperança de estarmos juntos e unidos por um continente livre das amarras da dependência e a serviço da vida das pessoas é real. Com vocês, comprovamos isso.










