Leci Brandão retorna à Nenê de Vila Matilde e é celebrada pela comunidade

Cantora e candidata à reeleição, Leci Brandão foi recebida pela velha guarda e ala das baianas da comunidade - Foto: Anju Fotografia

Após 12 anos, cantora e deputada retorna à escola onde desfilou pela primeira vez em São Paulo e reafirma defesa do samba, da cultura popular e da democracia

A deputada estadual e cantora Leci Brandão (PCdoB) participou de um reencontro e apresentação na Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, na Zona Leste de São Paulo, e conversou com a comunidade do samba matildense. A Nenê foi a primeira escola de samba de São Paulo que Leci desfilou em São Paulo, sendo hoje sua madrinha da Harmonia.

“Aqui dá vontade de chorar, de emoção. A Nenê tem uma tradição muito forte. A primeira escola que eu desfilei em São Paulo foi a Nenê de Vila Matilde. Eu sou uma pessoa que sempre batalhei pela questão da cultura. A Nenê foi a primeira escola que eu desfilei, foram quatro anos de desfile aqui, para mim foi muito importante e não vou esquecer nunca”, disse Leci em entrevista ao HP sobre a volta após 12 anos.

Já em seu discurso durante o evento, a deputada estadual relembrou sua trajetória pessoal e artística, desde seu nascimento em Madureira, no Rio de Janeiro, até sua relação com o samba e com São Paulo. Leci destacou suas origens humildes e de periferia, mencionou a influência mineira de sua família e contou que sua aproximação com o Carnaval paulistano começou após ouvir a bateria da escola, que a emocionou e a fez decidir se aproximar da Nenê.

Emocionada, Leci recordou momentos em que comentou o Carnaval do Rio e de São Paulo, inclusive na Tiradentes, onde afirmou ter acompanhado transformações no Carnaval paulistano ao longo dos anos, onde observou mudanças no perfil das pessoas envolvidas e a modernização da festa. 

Ela ressaltou que não é contra a modernidade nem o progresso, mas defendeu que não se pode esquecer a raiz e quem chegou antes, citando a importância de São Paulo, Belford Roxo e das baianas para o Carnaval.

Veja o discurso na íntegra:


“Hoje eu não canto em pé, mas canto sentada, vocês que são jovens aproveitem enquanto tem saúde. O samba é cultura, direito e forma de brincar, e as escolas de samba formam artistas de alta qualidade e valorizam a memória do país”, disse Leci. 

A deputada criticou restrições a rodas de samba e à dança na rua em São Paulo, afirmando que o samba salva vidas e que o povo tem direito à alegria. Mencionou as leis: 15.690 de 2015, onde declara o samba como patrimônio cultural e imaterial do Estado e a Lei 16.913 de 2018, que determina que o desfile das escolas de samba e a realização do Carnaval são patrimônio cultural e imaterial do Estado. As duas leis foram produzidas e conquistadas na condição de deputada.


Por fim, Leci afirmou que não é deputada, mas está deputada, e que veio para mudar a cultura, mas também precisa mudar a democracia. “Sem democracia não existe expressão, internet, samba na rua ou história cultural”, afirmou. 

Leci recebe homenagem do presidente da Nenê, Mantega – Foto: Anju Fotografia

UMA GUERREIRA AO NOSSO LADO

O presidente da Nenê de Vila Matilde, Mantega, comentou a volta de Leci Brandão à escola de samba. Mantega afirmou que hoje a escola e a artista selando novamente essa união com a volta dela.

“Leci Brandão é uma defensora da cultura e para mim que também preside um quilombo e uma escola de samba que defende a cultura, é muito importante ter uma guerreira como ela ao seu lado, como aliada. Esse momento é importante para o carnaval, para a Nenê de Vila Matilde e para Leci Brandão, são 50 anos de carreira e os 82 anos de idade de Leci. É um momento importante para ambas as partes e instituições, pois Leci também é uma instituição”, afirmou Mantega.

Integrante da comunidade, coordenador de Ala Narciso Negro e militante da Juventude Patria Livre (JPL), Jonathan Oliveira, comentou o retorno de Leci Brandão à quadra. Ele descreveu o momento como bem emocionante e um resgate histórico, após 12 anos.

Segundo Jonathan, houve articulação e conversas com o presidente e o vice-presidente da escola para fazer essa retomada. Jonathan afirmou que o retorno marca uma parte fundamental da história da Nenê de Vila Matilde e também da própria Leci, lembrando que a Nenê foi a primeira escola de samba que ela abraçou quando veio para São Paulo, sendo a escola do coração dela.

“Foi uma grande emoção da Leci ao ver as baianas e a velha guarda da escola, da qual ela é madrinha da harmonia, esse é um resgate da ancestralidade. Leci para nós é uma entidade viva, ancestral, bem importante para a história e para a cultura brasileira, e que tem em sua voz a resistência dos mais vulneráveis e daqueles que sofrem as mais bárbaras atrocidades de serem esquecidos pelo poder público e pelo Estado”, disse Jonathan.

Ele manifestou expectativa de que Leci conquiste o quinto mandato, para continuar fazendo “uma trincheira de luta através do quilombo da diversidade”, representando as mulheres, os negros, o povo do samba e o povo da cultura popular brasileira, para que se almeje novos caminhos para São Paulo e se construa “um Brasil livre, um Brasil soberano e um Brasil democrático”, afirmou.

Comunidade da Nenê de Vila Matilde – Foto: Anju Fotografia

TERREIRO SAGRADO

O baluarte da Nenê de Vila Matilde, Seu Junqueira, comentou o retorno de Leci Brandão à escola e classificou o momento como um divisor de águas. E afirmou ver não somente o retorno de Leci Brandão pisando no terreiro sagrado de uma das cinco matriarcas do samba de São Paulo, mas um momento realmente marcante.

“A cultura e o povo do samba sofrem como nunca, eu acredito que nem no período da ditadura houve tanta pressão e opressão como no atual momento político, não só na cidade de São Paulo, mas em todo o Brasil, principalmente para negros atuantes e militantes. A questão da negritude não é uma questão da quantidade de melanina na pele, mas de consciência”, disse.

Seu Junqueira disse que esse resgate é primordial em tudo, porque as novas gerações acabam imitando os mais velhos. “Eu costumo dizer aos mais antigos da escola e da liga: ‘Atenção, tome cuidado, porque nós somos espelhos’. Desde que eu piso na quadra, tenho o cuidado de manter as tradições, de fazer minha saudação no altar da esquerda, depois no altar da direita, eu olho para o final da quadra e saúdo o pavilhão antes de cuidar de outros assuntos”, continuou. 

Para ele, essa é a cultura e a tradição, e não é só em terreiro de umbanda, candomblé ou igreja católica que se faz reverência ao adentrar um espaço sagrado “os terreiros das escolas de samba também são sagrados”, afirmou. Ele concluiu dizendo que Leci sabe muito bem disso, inclusive pelo discurso que fez na quadra da Nenê de Vila Matilde.

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