Enquanto suspeitos de provocar queimadas são presos no Amazonas, políticas de fiscalização e combate aos crimes ambientais do governo Lula derrubam o desmatamento na Amazônia e no Cerrado
Um homem de 53 anos foi preso em flagrante na segunda-feira (19), suspeito de atear fogo em uma área de mata em Careiro da Várzea, no interior do Amazonas. A Polícia Civil também procura dois homens suspeitos de incendiar vegetação em Manaus. Em Autazes, outras 11 pessoas foram presas nos últimos dias por suspeita de envolvimento com queimadas, enquanto imagens de drones registraram pessoas colocando fogo em áreas próximas a residências. O avanço dos incêndios levou o governo federal a ampliar as operações, mobilizar as Forças Armadas e liberar recursos para combater as chamas.
Segundo a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), a investigação que resultou na prisão começou após denúncias de que proprietários de terras e fazendeiros estariam usando fogo para limpar áreas destinadas ao plantio ou à criação de animais. A suspeita é de que a prática tenha provocado a propagação descontrolada de incêndios.
A prisão ocorreu durante o cumprimento de um mandado judicial de busca e apreensão no ramal Sissaíma, na zona rural de Careiro da Várzea. A identidade do suspeito não foi divulgada. De acordo com o delegado David Jordão Castanho, as equipes foram ao local para verificar as denúncias e encontraram indícios de crime ambiental. A Polícia Civil encaminhou as informações ao Ministério Público do Amazonas (MPAM), ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
Na Zona Norte de Manaus, a polícia procura dois homens suspeitos de atear fogo em uma área de vegetação na Avenida Governador José Lindoso, conhecida como Avenida das Torres. O caso ocorreu no sábado (17). Vídeos gravados por motoristas e compartilhados nas redes sociais mostram os dois colocando fogo na vegetação. Eles ainda não identificados. A ocorrência é investigada como crime de poluição ambiental.
Outro flagrante, registrado por um drone em 7 de outubro e divulgado pelo g1, mostra pelo menos duas pessoas ateando fogo em uma área de vegetação próxima a residências no distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus. Nas imagens, uma pessoa se afasta à medida que as chamas aumentam, enquanto outra se aproxima e coloca mais objetos sobre o fogo.
O registro ocorreu cinco dias depois de um incêndio de grandes proporções atingir a mesma região. As imagens reforçam a gravidade das suspeitas de incêndios provocados intencionalmente. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), não houve prisões relacionadas à ocorrência registrada pelo drone.
Em reportagem exibida no domingo (18), o Fantástico, da TV Globo, mostrou a dimensão dos incêndios e ouviu autoridades que apontaram indícios de ação humana intencional. O Amazonas já havia registrado mais de 1,9 mil focos de incêndio apenas em outubro, segundo os dados apresentados pelo programa.
O presidente do Ibama, Jair Schmitt, afirmou que a origem humana predomina nos incêndios florestais registrados no estado e apontou a ocorrência de queimadas sem autorização para desmatar e degradar a floresta.
“Praticamente todo incêndio florestal que está ocorrendo no estado do Amazonas é de origem humana. Alguém risca o fósforo e ateou o fogo na floresta. As pessoas colocam fogo sem autorização para causar o desmatamento, para causar a degradação da floresta”, declarou ao Fantástico.
O secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Anésio Brito de Paiva, também relatou informações recebidas pelas equipes de inteligência sobre a participação de suspeitos nos incêndios.
“De acordo com os relatos que foram passados para a inteligência, nós afirmamos que mais de 95% desses cidadãos são criminosos. E aí também tem os relatos dos brigadistas”, informou. “As pessoas chegavam: ‘Olha, não adianta nada vocês combaterem aí. Quando vocês saírem, nós vamos tocar fogo de novo’”, completou.
No domingo (18), o governador do Amazonas, Roberto Cidade, anunciou a prisão de 11 pessoas em Autazes por suspeita de envolvimento com queimadas. Durante entrevista coletiva, ele afirmou que as forças de segurança trabalham para identificar os responsáveis.
“A Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, a nossa equipe aqui vem trabalhando muito pra que a gente possa identificar esses homens que ficam ateando fogo no nosso estado. Só durante esses dias nós já prendemos onze criminosos no município de Autazes”, declarou.
A Polícia Civil anunciou que intensificou as investigações e que o monitoramento com drones equipados com câmeras térmicas permite identificar focos de fumaça e movimentações suspeitas, inclusive à noite. As coordenadas são repassadas às equipes em solo para orientar o deslocamento das viaturas.
O uso do fogo está proibido em todo o Amazonas por 120 dias, conforme o Decreto Estadual nº 55.339, publicado em 9 de setembro, em razão da estiagem e do aumento das temperaturas. A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) prevê punições para quem provoca poluição capaz de prejudicar a saúde humana, causar a morte de animais ou destruir a vegetação.
Diante do avanço das queimadas, o governo federal anunciou, no domingo um reforço das ações de combate aos incêndios no Amazonas. A operação passou a contar com 16 aeronaves, mobilização de helicópteros e navios, ampliação das equipes de brigadistas e participação das Forças Armadas.
A reunião entre representantes dos governos federal e estadual ocorreu na sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), com a participação dos ministros José Múcio Monteiro, da Defesa; Wellington César Lima e Silva, da Justiça e Segurança Pública; João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente e Mudança do Clima; e Waldez Góes, da Integração e do Desenvolvimento Regional.
Uma das medidas anunciadas foi a instalação de um Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas em Manaus, para coordenar as operações militares e agilizar a mobilização de recursos. Também foi prevista a implantação de uma base descentralizada da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), destinada a ampliar a capacidade de atendimento diante dos efeitos da fumaça sobre a população.
Na área financeira, o governo federal confirmou R$ 14 milhões para executar o plano de ação apresentado pelo governo do Amazonas, voltado ao combate aos incêndios florestais. Também foram aprovados cerca de R$ 6,8 milhões para municípios atingidos pela estiagem, conforme informações da Agência Brasil.
Na segunda-feira (19), a Defesa Civil Nacional autorizou mais R$ 3,5 milhões para quatro municípios amazonenses: Rio Preto da Eva, Nhamundá, Benjamin Constant e Amaturá. Com essa liberação, o total aprovado chegou a R$ 21,1 milhões, distribuídos em nove planos de trabalho para ações de resposta aos incêndios e à estiagem. Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, 46 municípios estavam com reconhecimento federal de situação de emergência.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou nesta terça-feira (20) que as aeronaves federais já haviam lançado 1.118.600 litros de água sobre áreas atingidas pelo fogo desde 10 de outubro. As operações somavam 390,5 horas de voo e 369 lançamentos de água. Segundo a pasta, as ações contribuíram para extinguir 337 ocorrências de incêndio desde o início da temporada. O ministério informou ainda que a mobilização contava com 13 aeronaves e 462 brigadistas do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Os incêndios se espalham pela Região Metropolitana de Manaus e por municípios do interior desde o fim de agosto. Em Itacoatiara, um foco na região do Rio Urubu permaneceu ativo por mais de 40 dias. Na região do Lago do Canaçari, outro incêndio destruiu mais de 1,3 mil hectares.
A situação comprometeu a qualidade do ar e levou à suspensão de aulas presenciais na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Entre 1º e 17 de outubro, Manaus registrou 559 atendimentos de saúde relacionados à exposição à fumaça.
Além da destruição da vegetação, os incêndios ameaçam comunidades tradicionais e áreas utilizadas para alimentação e subsistência. Ao Fantástico, o tuxaua Ilair Mura, liderança da Aldeia São Félix, relatou o medo dos moradores diante da aproximação das chamas:
“Ah, é medo, né? A gente fica com medo porque a gente sabe que o pessoal já tá lá combatendo, né? Muita gente inalou fumaça. Tem gente aí que tá com crise de ansiedade, porque viu o fogo chegando muito próximo, né”.
Políticas ambientais de Lula levam desmatamento a mínimas históricas
A redução histórica do desmatamento na Amazônia e no Cerrado é resultado da retomada das políticas de proteção ambiental pelo governo Lula. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgados em outubro, mostram que o desmatamento na Amazônia caiu 41,8%, chegando a 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, o menor índice da série histórica, iniciada em 1988. No Cerrado, a queda foi de 23,8%, também atingindo o menor patamar da série.
Desde 2023, o governo Lula retomou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), reforçou a fiscalização ambiental e ampliou a atuação de órgãos como Ibama e ICMBio. As medidas incluem operações contra crimes ambientais, aplicação de multas, embargo de áreas desmatadas ilegalmente e monitoramento por satélite. Na comparação com o período final do governo anterior, o desmatamento amazônico caiu cerca de 71%.
Os resultados mostram que políticas públicas, fiscalização e responsabilização podem conter a destruição florestal. O desafio agora é manter esses avanços e combater os incêndios provocados por ação humana, que ameaçam a biodiversidade, as comunidades tradicionais e a saúde da população.











