Richarlison afirma ter investido R$ 10 milhões na propriedade e acusa o senador e o advogado Willer Tomaz de tomarem o imóvel após ele se recusar a vendê-lo
O presidente Lula pediu à Polícia Federal (PF), nesta quarta-feira (21), que investigue como o advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato do PL à Presidência Flávio Bolsonaro, ficou com a posse de uma ilha em Angra dos Reis (RJ) pela qual o atacante Richarlison afirma ter pago R$ 10 milhões. O jogador acusa Flávio e Tomaz de tomarem o imóvel “na mão grande” depois que ele se recusou a vendê-lo ao senador.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Lula questionou a rapidez com que Tomaz conseguiu a posse da ilha e lembrou que Richarlison havia dado entrada no pedido de regularização na Superintendência do Patrimônio da União (SPU) um ano antes. “Foi no mesmo SPU que ele tinha dado entrada há um ano atrás. Em apenas uma semana, esse Willer Tomaz, possivelmente com a ajuda do Flávio, conseguiu tomar a ilha do Richarlison”, declarou. Segundo o presidente, caberá à PF esclarecer as circunstâncias do caso.
A manifestação veio quatro dias depois de Richarlison tornar pública a denúncia. “Flávio e o tal Willer Tomaz pegaram em 24h a posse da ilha na mão grande e sem gastar um tostão porque eu não quis vender”, disse o jogador em vídeo no sábado (17). Desde então, o caso tomou as redes às vésperas do segundo turno, com apoiadores de Lula publicando mensagens como “Flávio, devolve a ilha do bebê”. Richarlison ganhou na internet o apelido de “pai do bebê” por causa de vídeos em que o cunhado chama o filho do jogador só de “bebê”.
Tomaz é amigo de longa data de Flávio e é apontado em inquérito da PF como suspeito de ser sócio do senador.
VÍDEOS MOSTRAM PMS E HOMEM COM FUZIL NA ILHA
No mesmo dia da fala de Lula, vídeos obtidos pelo Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, mostraram policiais militares fardados do Rio de Janeiro e homens com armas longas, um deles com fuzil, na mansão da Ilha Comprida depois que Tomaz obteve a posse do imóvel, em maio de 2022.
A pedido da Fórum, o criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, analisou preliminarmente as imagens. “Eu não tenho o conhecimento de todos os fatos, mas do que me foi apresentado, me parece um abuso absoluto e perigoso. Eu até ousaria dizer que é coisa de milícia. Não é coisa de agentes policiais que estejam a serviço do Estado. Estão a serviço de um grupo que parece ser mais uma ação miliciana”, afirmou.
“É extremamente grave essa situação pelo que está posto. Não há nenhum sentido, em uma situação dessas, que tivessem PMs armados em uma ação oficial. Em nome de quê? Em nome de quem? Não é em nome do Estado. É em nome, provavelmente, de uma ação miliciana. Isso tem que ser investigado. Muito preocupante”, completou.
O primeiro vídeo foi gravado às escondidas, de dentro de um barco, na manhã de 14 de maio de 2022, por um homem que se apresenta como funcionário do grupo que ocupava a mansão. Ele filma policiais fardados e fortemente armados na propriedade.
“Hoje, 7h30 da manhã, sábado, dia 14 de maio. Aí, tiraram a gente ontem daí, da ilha. Tiraram não, escorraçaram com a gente da ilha. Cheio de ignorância, cheio de polícia armado. Três policiais no deck ali armados, entendeu? E tratando a gente como se a gente fosse bandido. Meu patrão não estava aqui no momento, estava viajando. Estava eu, minha esposa e meus filhos. A gente teve que sair chovendo, com as nossas coisas”, relata.
Na véspera, 13 de maio, a mansão havia passado por uma violenta reintegração de posse, revelada pelo colunista Guilherme Amado, do Metrópoles. Tomaz obteve decisão favorável em primeira instância: o juiz Ivan Pereira, da 2ª Vara Cível de Angra dos Reis, determinou a retirada dos ocupantes, e a ordem foi cumprida por um oficial de Justiça com apoio policial. A operação repercutiu porque a mulher do empresário Renato Velasco, sócio de Richarlison, estava grávida quando foi retirada da casa. Os advogados do grupo do jogador reverteram a decisão dois dias depois, mas a disputa seguiu na segunda instância.
O segundo vídeo foi gravado por um ex-funcionário da propriedade que, segundo relato recebido pela reportagem, tinha sido autorizado pelo ex-deputado estadual Alencar Silveira a buscar seus pertences. Hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), Alencar integrava o grupo que comprou a mansão, ao lado de Richarlison e de Velasco. As imagens mostram um homem com fuzil, que pergunta ao ex-funcionário se ele “tem autorização”.
“Não, uai, eu liguei nele e ele falou que eu podia vir pegar meu colete que tá aí”, responde o ex-funcionário.
“É só encostar na poita ali e chamar o caseiro, entendeu?”, orienta o segurança armado.
A presença de homens armados na ilha também consta de um depoimento prestado à PF em 5 de novembro de 2024, ao qual o Fórum Investiga teve acesso. Ouvido pelo delegado Eduardo Cavalcante da Graça, na delegacia da PF em Angra dos Reis, Donato Capobianco Galvez, ligado à M. Locadora de Veículos e Transportes Turísticos, empresa que aparecia antes na cadeia de ocupação da ilha, levantou dúvidas sobre a segurança do local.
“QUE a segurança não era privada e não parecia ser regular; QUE a reintegração só ocorreu após apoio da PMERJ”, declarou.
O depoimento integra o inquérito nº 2024.0002098-DPF/ARS/RJ, aberto em maio de 2024 para apurar suspeita de ocupação e negociação irregular de terreno da União. A investigação partiu de uma denúncia contra Alencar Silveira e Renato Velasco, ligados às empresas YTA Consultoria e Sport 70, sócias de Richarlison.
UM ANO DE ESPERA PARA UM, UM DIA PARA O OUTRO
A ilha pertence à União. O que se compra e vende é o direito de ocupação, que precisa ser registrado na SPU.
Segundo reportagem do Metrópoles de setembro de 2022, Flávio conheceu a propriedade em julho de 2020, numa visita a Angra dos Reis, quando a mansão ainda estava sob responsabilidade do empresário Antônio Marcos Pereira Silva. Em janeiro de 2021, o senador voltou à região acompanhado de Tomaz, que passou a demonstrar interesse no imóvel. Uma foto obtida pelo Fórum Investiga e anexada ao processo como prova mostra Flávio com a camisa da seleção brasileira, ao lado de outros dois homens, no deck da mansão.
A propriedade, porém, já havia sido negociada com o grupo de Richarlison. O jogador diz que comprou a área em 2020, com sócios, e investiu cerca de R$ 10 milhões, parte disso para indenizar as pessoas que moravam lá. “Eu não quis vender a ilha para ele. Como não quis, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, afirmou.
Um acordo com os antigos moradores foi homologado pela Justiça de Angra em 2021. Em setembro daquele ano, a empresa do jogador pediu a regularização à SPU. O pedido ficou parado. Em julho de 2022, segundo os documentos divulgados por Richarlison, o pedido de uma empresa ligada a Tomaz foi aprovado em um único dia. O atacante afirma que essa empresa estava irregular, tinha sócios já mortos e detinha o registro da ilha desde os anos 1980. Documentos obtidos pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) via Lei de Acesso à Informação e apresentados em agosto apontam que o processo da empresa de Tomaz foi concluído em cerca de dois meses, enquanto o de Richarlison nunca teve desfecho.
“A gente sempre esperou a resposta deles e eles nada, só ficavam enrolando até chegar a turma do Willer Tomaz. Então foi aí que aconteceu a mágica. Para eles aconteceu muito rápido, foi questão de dias, e a gente esperou quase um ano e não teve resposta”, disse o jogador nesta quarta. “Eu, como cidadão brasileiro, queria ter esses privilégios, saber como que faz para ter esse privilégio da Justiça resolver mais rápido para um do que para outros.”
A disputa entre o grupo de Richarlison e a WT Administração de Imóveis e Bens, empresa vinculada a Tomaz, passou pelo Tribunal de Justiça do Rio e chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que em junho de 2025 manteve o entendimento favorável à empresa do advogado. Hoje a ilha está sob posse da WT. Flávio chegou a ser arrolado como testemunha no processo.
DESAFIO DE 72 HORAS E DOCUMENTOS NA MESA
No domingo (18), um dia depois da denúncia de Richarlison, Tomaz respondeu em vídeo, pela primeira vez em público. “Você comprou a ilha de invasores. Eu tenho a escritura de compra e venda”, afirmou. O advogado deu 72 horas para o jogador apresentar algum documento anterior a julho de 2022 que o ligasse à propriedade e prometeu entregar a ilha de graça se isso acontecesse.
Na segunda-feira (19), Rogério Correia lançou no Change.org o abaixo-assinado “Devolva a ilha do Richarlison”, dirigido à PF. O texto acusa os envolvidos de usar mecanismos judiciais para tirar a propriedade do jogador e pergunta: “Como essa posse foi parar nas mãos da empresa do amigo de Flávio Bolsonaro? Por que os processos de transferência tiveram tramitações tão diferentes? E qual foi, afinal, o envolvimento do senador nessa história?”. O deputado já havia acionado a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para apurar irregularidades e crimes ambientais na transferência dos direitos de ocupação.
Nesta quarta, Richarlison respondeu ao desafio e divulgou a jornalistas os contratos de compra e a homologação judicial, com os números dos processos. Entre eles, está uma decisão de 2022 que, segundo ele, reverteu o despejo e devolveu a ilha à sua empresa. Seu agente, Oswaldo Botrel, afirmou que o jogador comprou a ilha dos primeiros posseiros e donos originais do terreno.
AÇÃO CONTRA OS VÍDEOS E NOVOS PEDIDOS DE INVESTIGAÇÃO
Tomaz entrou na Justiça pedindo a remoção imediata dos vídeos de Richarlison. A petição alega que o jogador divulga informações inverídicas, que as declarações extrapolam a liberdade de expressão ao atribuir condutas ilícitas a quem venceu nos tribunais e que a publicação em período eleitoral, com menção a figuras políticas, prejudica a imagem do advogado.
O grupo Derrubando Muros, que reúne sociólogos, empresários e juristas, entre eles Miguel Reale Jr., pediu ao Ministério Público que investigue Flávio por advocacia administrativa e grilagem. “O objeto é a grilagem, mas esse caso ocorreu no último ano de Jair Bolsonaro na Presidência. É preciso apurar se ele usou a posição de filho”, disse à CNN o sociólogo José César Martins, coordenador do grupo.
Tomaz também é investigado pela PF em outro inquérito, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e apura suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio. A investigação analisa arquivos da nuvem do celular do advogado, com registros financeiros que mencionam o senador, e movimentações de cerca de R$ 130 milhões numa conta de Tomaz entre março e maio de 2025. A origem e o destino do dinheiro ainda estão sob apuração. Os dois negam irregularidades. Esse inquérito não tem ligação com a disputa pela ilha.
Em julho, a Justiça julgou improcedente uma ação em que Flávio cobrava R$ 61 mil de indenização de Rogério Correia por publicações sobre a propriedade.











