“Se não tivermos capacidade de defesa, não teremos como proteger tudo isso”, afirmou. Ele defende investimento permanente na área
O Brasil precisa construir plano estratégico de defesa de longo prazo, com financiamento permanente, fortalecimento da indústria nacional, investimento em ciência, tecnologia e inovação e modernização contínua das Forças Armadas.
Esta avaliação foi feita pelo presidente Lula (PT), na noite de terça-feira (28), em discurso na 78ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Niterói (RJ), ao defender que a proteção da soberania nacional deixe de ser tratada como política circunstancial e passe a integrar projeto permanente de Estado.
“O Brasil tem 16,8 mil quilômetros de fronteira terrestre, mais de 8 mil quilômetros de costa, cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados de Amazônia Azul, a maior floresta tropical do planeta, 12% da água doce do mundo e importantes reservas de terras raras e minerais críticos. Se não tivermos capacidade de defesa, não teremos como proteger tudo isso”, afirmou.
“Qualquer dia alguém resolve invadir a gente e a gente estará despreparado”, declarou, ao defender que o País desenvolva capacidade própria para monitorar e proteger o patrimônio territorial nacional.
“Se a gente não pensar num salto de qualidade nas coisas que são estratégicas, a gente fica dependendo do que sobra”, enfatizou, recebendo muitos aplausos da plateia.
Segundo Lula, a dimensão territorial brasileira, a extensão das fronteiras terrestres e marítimas, as reservas de petróleo do pré-sal, os minerais estratégicos, a Amazônia e a disponibilidade de água doce colocam o País no centro da nova geopolítica mundial, exigindo capacidade própria de vigilância, dissuasão e desenvolvimento tecnológico.
A fala de Lula ocorre num momento de grande hostilidade do governo Donald Trump para com o Brasil. E Trump não se destaca por ser um sujeito de juízo normal. Tanto assim que apadrinha Flávio Bolsonaro.
Sem falar na sua cobiça às terras raras brasileiras, conjunto de minerais essenciais para a tecnologia moderna.
SOBERANIA NÃO SE IMPROVISA
Ao justificar a necessidade de novo planejamento para a defesa nacional, Lula afirmou que o Brasil reúne ativos estratégicos que despertam crescente interesse internacional e que precisam ser protegidos por Estado preparado.
Na avaliação do presidente, a defesa nacional deve ser encarada como investimento estratégico e não apenas como despesa orçamentária.
PLANEJAMENTO EM VEZ DE IMPROVISAÇÃO
Lula também criticou a cultura de adiar investimentos estruturantes por falta de recursos imediatos. Utilizando comparação com o orçamento doméstico, afirmou que esperar “sobrar dinheiro” impede qualquer salto de qualidade.
Ao comentar a necessidade de renovar equipamentos militares, lembrou que ainda utiliza aeronave adquirida durante o segundo mandato presidencial dele e defendeu planejamento financeiro de longo prazo para modernizar a infraestrutura estratégica do Estado.
Segundo o presidente, o orçamento público deve incorporar mecanismos capazes de financiar projetos estruturantes, mesmo quando seus resultados ultrapassarem um mandato presidencial.
A lógica, afirmou, deve ser semelhante à de investimentos de longo prazo realizados por famílias e empresas: planejar, financiar e executar obras e aquisições essenciais, em vez de depender exclusivamente da disponibilidade orçamentária anual.
CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INDÚSTRIA DE DEFESA
O discurso foi proferido diante da principal comunidade científica do País, reforçando a aproximação entre política industrial, pesquisa científica e defesa nacional.
Para Lula, universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras precisam participar do desenvolvimento de tecnologias estratégicas, reduzindo a dependência externa em setores considerados sensíveis.
A defesa nacional, nessa perspectiva, deixa de se restringir ao campo militar e passa a envolver inovação tecnológica, indústria de alta complexidade, engenharia, inteligência artificial, sistemas espaciais, cibersegurança, satélites, radares, comunicações seguras e produção nacional de equipamentos.
Essa estratégia também é vista pelo governo como instrumento para ampliar empregos qualificados, estimular inovação e fortalecer cadeias industriais de elevado conteúdo tecnológico.
MUNDO MAIS INSTÁVEL
A defesa de plano permanente ocorre em meio ao agravamento das tensões internacionais, marcado pela continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia, pelos conflitos no Oriente Médio, pela competição estratégica entre Estados Unidos e China e pela crescente disputa global por minerais críticos indispensáveis à transição energética e às novas tecnologias.
Nesse cenário, especialistas em segurança internacional têm apontado que países detentores de grandes reservas naturais tendem a ampliar investimentos em capacidade de monitoramento, inteligência e proteção de seus ativos estratégicos.
O Brasil reúne alguns dos principais recursos considerados essenciais para a economia do século 21, como lítio, nióbio, grafita, níquel e terras raras, além das reservas do pré-sal e da biodiversidade amazônica, fatores que reforçam a relevância geopolítica do País.
PROJETO DE ESTADO
Embora tenha reafirmado que não pretende fazer promessas futuras, Lula afirmou que espera ser avaliado pelas ações já implementadas durante seus mandatos.
Ao defender o planejamento estratégico para a defesa, o presidente sinalizou que a soberania nacional deve ser tratada como política de Estado, sustentada por investimentos permanentes em ciência, tecnologia, inovação e indústria nacional, e não por iniciativas pontuais condicionadas às restrições do orçamento anual.
A proposta insere a defesa nacional em agenda mais ampla de desenvolvimento, na qual proteção territorial, autonomia tecnológica e capacidade industrial passam a ser vistas como elementos complementares de um mesmo projeto de fortalecimento do Estado brasileiro.










