Em Paris e nas principais cidades, manifestantes denunciaram a política de alta dos preços e de “ajuste fiscal” em benefício dos especuladores. Ao mesmo tempo, Macron tenta aprovar no parlamento recursos para manter o apoio à guerra contra a Rússia
Um verdadeiro tsunami popular ganhou as ruas da França neste sábado (17) contra a violência da repressão policial e a disparada no custo de vida. Sob o lema de “Tomamos a Bastilha” e “Abaixo o sistema”, 800 mil manifestantes, de acordo com a Confederação Geral do Trabalho (CGT), levantaram vozes, faixas e cartazes pela renúncia do presidente Emmanuel Macron, em fim de mandato.
Na capital, Paris, antigos “coletes amarelos” – resistência popular legítima contra as políticas de arrocho fiscal e desmonte dos serviços públicos promovidos por Macron – se somaram a estudantes secundaristas, universitários, aposentados, agricultores e defensores do meio ambiente em um bloco de mais de 100 mil ativistas para exigir uma guinada na política de aumentos exorbitantes – com a alta dos combustíveis a partir da guerra dos EUA-Israel contra o Irã – e de “ajuste” ditada pelos especuladores.
Este é o momento em que Macron tenta aprovar no parlamento o orçamento para 2027, que prevê um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (60,78 bilhões de dólares) para “sanear as contas públicas” e manter de forma insana o apoio à guerra contra a Rússia.
“MULTIDÃO IMPRESSIONANTE”
Em Paris, a multidão marchou da Praça da República até a Praça de Clichy, num trajeto de mais de três quilômetros, entoando reivindicações para que se dê um basta ao aumento de preços. A dimensão do público surpreendeu até quem estava do outro lado da barreira, com policiais posicionados atrás da fita de isolamento comentando que “a multidão era impressionante”.
Em torno da palavra de ordem “estou farto”, uma mãe de 42 anos, divorciada, com dois filhos e salário pouco acima do mínimo, assinalava que se somara ao movimento porque há tempos vinha sendo desrespeitada e era preciso abrir espaço ao futuro. Um grupo de cerca de 30 secundaristas chegou sob aplausos e entoou a Marselhesa, elevando as denúncias à política de violência e arrocho do governo.
A Praça da República foi parcialmente evacuada após confrontos em que as forças de segurança utilizaram um canhão de água, além de muitas bombas de gás lacrimogêneo. Até as 16 horas a promotoria já havia registrado cerca de 200 detidos na capital, enquanto vários outros incidentes foram relatados em cidades como Lyon e Marselha.
“Hoje há um ponto de convergência de muitas raivas, todas legítimas e todas mais ou menos conectadas”, desabafou Florine Pigny, uma tatuadora de 36 anos que mora na periferia de Paris e que se diz preocupada com o “futuro” de sua filha e com a degradação dos serviços públicos.
“OS PREÇOS SOBEM, MAS OS SALÁRIOS NÃO”
Em Guéret, capital do departamento (estado) de Creuse, no centro do país, um trabalhador justificou a razão da sua presença no ato: “No fim do mês, não me sobra mais nada; os preços sobem, mas os salários, não. Não aguentamos mais, estamos sendo sufocados”.
No sábado passado (10) um jovem perdeu uma mão, em Saint-Étienne, no centro da França, devido à explosão de uma granada lançada pelas forças de segurança. Anteriormente, vários manifestantes já haviam perdido olhos pela ação policial, mas apesar disso o ministro do Interior, Laurent Nuñez, avalizou o uso de “granadas de efeito moral” em caso de distúrbios urbanos.
Conforme o centro de pesquisa alemão Kiel Institute for the World Economy, a França comprometeu um total de 27 bilhões de euros para apoiar a Ucrânia desde o início da guerra contra a Rússia em fevereiro de 2022. Deste total, explicita o instituto, cerca de 7,9 bilhões de euros foram alocados como “ajuda bilateral direta” pelo governo francês (sendo a maior parte, próxima de 78%, de caráter militar, como o envio de mísseis, obuses Caesar e veículos blindados). A outra parte foi como “ajuda multilateral via União Europeia”, com aproximadamente 19 bilhões de euros referentes à parte que cabe à França nos fundos, empréstimos e mecanismos de assistência como o “Fundo Europeu para a Paz”.









