Milei aporta US$ 350 mil à guerra de fake news contra Sheinbaum e Petro, comprovam áudios

O marionete da Casa Rosada bastante empenhado em satisfazer o chefe (AFP)

Agência de notícias falsas foi montada por Trump para “atacar e erradicar o câncer da esquerda de Honduras e de toda a América Latina”. Narcotraficante indultado nos EUA ficou responsável para chefiar a desinformação midiática

O presidente argentino Javier Milei aportou com US$ 350 mil (cerca de R$ 1.750.000,00) para a formação de uma “agência de notícias” para despejar fake news contra os presidentes da Colômbia e do México, Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum, “atacar e erradicar o câncer da esquerda em Honduras e em toda a América Latina”. A operação não é casual. Em 2025, Trump acusou Petro de ser “o líder do narcotráfico” e insinuou uma possível intervenção terrestre no México para “combater” os cartéis, comprovando a orquestração.

Conforme a manchete do Página 12 deste domingo (2), “há um fio condutor estranho” que liga Milei ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (JOH), condenado há 45 anos de prisão pelo tráfico de cerca de 500 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e que foi misteriosamente perdoado por Donald Trump. “Não se trata de uma relação amigável, mas sim de uma tarefa conjunta que eles realizam como aliados do presidente americano no contexto do MAGA (Make America Great Again – Torne a América grande novamente)”, denuncia o site.

“Hernández pavimentou uma rodovia de cocaína até os EUA, protegida por metralhadoras”, reforçam os procuradores, para quem o chefe da quadrilha hondurenha mantinha vínculos com narcotraficantes ao menos desde 2004 – muito antes de chegar à presidência, onde esteve de 2014 a 2022.

Em uma série de gravações de áudio vazadas de conversas entre Hernández e o atual presidente hondurenho, Nasry Asfura, e sua vice-presidente, María Antonieta Mejía, Milei é citado por ter contribuído de forma decisiva para formar uma “equipe de comunicação” cujo objetivo é travar uma guerra midiática contra os avanços conquistados na Colômbia e no México. Portanto, JOH diz a Asfura, é necessário organizar e estabelecer uma “Unidade de Jornalismo Digital” nos Estados Unidos, que será gerenciada por “alguém daqui, da equipe do presidente dos Estados Unidos”. Outro dos objetivos seria obstaculizar a presença chinesa no continente, mantendo o controle das riquezas minerais da região em mãos dos cartéis norte-americanos.

Parte de uma investigação jornalística detalhada publicada no Diario Red, dirigida pelo espanhol Pablo Iglesias, e no site Hondurasgate, as gravações de áudio do WhatsApp, Signal e Telegram revelam que o objetivo de Trump é reinstalar Hernández como presidente de Honduras para transformá-la numa colônia norte-americana, reduzida a uma zona de operações militares, logísticas e econômicas.

Questionado por que havia dado o indulto a um criminoso por tráfico de drogas que transformou Honduras em um “narcoestado”, Trump disse que concedeu a soltura porque “sentiu que este homem foi tratado muito mal”. “Como vocês sabem, eu apoiei o vencedor, o homem que venceu em Honduras. Apoiei o homem que venceu no Chile, apoiei o homem que venceu na Argentina. Estamos indo bem com esse grupo. Hernández que foi perseguido injustamente, e sentimos que foi muito injusto”.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Os áudios vazados monstram que o perdão foi obtido graças ao “dinheiro” contribuído por um grupo de rabinos sionistas, e é por isso que tudo o que ele faz é em favor dos Estados Unidos e de Israel, garantindo o controle deles sobre a região e, sobretudo, assegurando um arcabouço legal que beneficia as empresas de inteligência artificial americanas e israelenses. Tudo está minuciosamente estampado nas gravações.

Considerando-se um representante de Trump, o narcotraficante afirma trabalhar para uma aliança continental responsável pela criação e propagação de notícias falsas em grande escala.

“Vamos montar uma célula, presidente (Asfura). Daqui, dos Estados Unidos, uma célula de informação, para que eles não possam nos rastrear lá em Honduras. Será como um site de notícias latino-americano”, explica Hernández à presidente hondurenha em uma gravação datada de 30 de janeiro deste ano.

Destacando a participação do parceiro argentino, JOH ressalta que este em uma ligação com Milei e foi um sucesso. “Muito, muito bom, e acredito que neste momento podemos fazer grandes coisas por toda a América Latina. Há processos pendentes contra o México, processos contra a Colômbia e, principalmente, contra Honduras, especificamente contra a família Zelaya”, reitera.

O próximo áudio vazado é do mesmo dia, em janeiro, no qual o narcotraficante indultado envia uma mensagem à vice-presidente de Honduras, María Antonieta Mejía, dizendo que precisa “desse dinheiro porque vamos montar um escritório aqui” para disparar contra as forças progressistas da região. JOH então confessou a Mejía ter enviado mensagens para Asfura: “Conseguimos falar com Javier Milei, e ele também está nos apoiando com US$ 350.000. Outro grande amigo nosso do México também está nos apoiando, especificamente para a questão mexicana. Estamos bastante preparados e na expectativa de que isso avance com força”.

CONFIRMADA VERACIDADE DAS GRAVAÇÕES

“Em tempos em que a Inteligência Artificial pode confundir até os mais astutos, o grupo que investiga essa conspiração não oficial realizou um trabalho meticuloso para confirmar sua veracidade”, reforçou o Página12.

A diretora do Diario Red América Latina, Daniela Pastrana, registra que as mais de 300 gravações que possui estão passando por um processo exaustivo de verificação, usando programas e aplicativos que permitem testar a autenticidade. De acordo com Pastrana, houve várias reuniões com os indivíduos que vazaram as gravações para checar cada uma das informações. “Tudo estará disponível na próxima semana, assim que todos os vazamentos forem feitos. As gravações estarão abertas e disponíveis para que qualquer pessoa possa realizar qualquer tipo de análise que julgar necessária”, assinalou.

Informado das gravações, José Orlando Hernández se apressou em negar sua veracidade. A reação não surpreendeu Daniela Pastrana, já que “quando se olha para as conversas, as datas das conversas e os acontecimentos posteriores a essas conversas, percebe-se que não há como, cronologicamente, escapar à verdade das evidências do que aconteceu”.

Como aponta a diretora do Diario Red América Latina, esta ação intervencionista não é novidade, e não deveríamos nos surpreender, pois “esse tem sido o modus operandi dos Estados Unidos em toda a região há muitas décadas”. Pastrana recorda a sanguinária Operação Condor, implementada durante os anos de ditaduras na América Latina. “A diferença é que agora não precisamos esperar 40 anos para que livros sejam publicados detalhando como a operação se desenrolou ou para que os arquivos da CIA e de outras agências americanas sejam desclassificados”, declara a jornalista mexicana. Além disso, “agora podemos ver tudo ao vivo, quase em tempo real, enquanto as coisas acontecem. E acho que essa é a enorme diferença”.

“O que acontece com esses áudios é que podemos ouvir os operadores, os chefes dessa operação, falando com suas próprias vozes”, registra Pastrana, lembrando que a então presidente de Honduras, Xiomara Castro, havia denunciado a interferência de JOH, com apoio dos EUA, nas eleições daquele país. Dada a relevância das gravações, defende a jornalista, o essencial é “parar de pensar que cão que ladra não morde, porque a cada semana deste ano eles nos mostraram que estão, sim, dispostos a morder e que estão vindo para pegar tudo”.

CONVERSAS

1

Chamada entre Juan Orlando Hernández e o presidente de Honduras, Nasry Asfura, 30 de janeiro de 2026

JOH: Preciso que você envie cerca de US$ 150.000 para a conta de Rosales, porque vamos alugar um apartamento aqui e montar um escritório lá para estabelecer uma Unidade de Jornalismo Digital. Alguém daqui, da equipe do presidente dos EUA, vai administrá-la. Bem, ele é um dos republicanos que estão nos ajudando. Eles vão criar um site de notícias onde publicarão informações importantes sobre Manuel Zelaya e Xiomara Castro.

JOH: Vamos montar uma célula, Sr. Presidente. Daqui, dos Estados Unidos, um centro de informações, para que não possam nos rastrear lá em Honduras. Vai ser como um site de notícias da América Latina. Eu estava em uma ligação com o Presidente Javier Milei, e foi um sucesso. Muito, muito bom, e acho que neste momento podemos fazer grandes coisas por toda a América Latina. Há alguns casos pendentes contra o México, alguns casos pendentes contra a Colômbia e, mais importante, contra Honduras, neste caso contra a família Zelaya.

NA: Eu também acho que o senhor precisa de um pouco mais de dinheirinho. Para o senhor mesmo. Então, vamos enviar mais 150 mil. E assim o senhor poderá sobreviver por mais tempo. Vamos tirar o dinheiro do INSEP.

2

Conversa telefônica entre María Antonieta Mejía e Juan Orlando Hernández, 30 de janeiro de 2026

JOH: E eu preciso dessa liquidez porque vamos montar um escritório aqui. Com o apoio de alguns republicanos, poderemos atacar e erradicar o câncer da esquerda aqui em Honduras e em toda a América Latina. Eu estava dizendo ao Presidente Asfura que conseguimos falar com Javier Milei, e ele também está contribuindo com US$ 350.000. Outro grande amigo nosso do México também está contribuindo, especificamente para a questão mexicana. Estamos bem preparados e esperamos que isso avance rapidamente. É por isso.

MAM: Senhor Presidente, se o senhor preferir, podemos omitir os detalhes. Eu só queria confirmar o valor. Agora que sei, cuidarei de todos os preparativos. US$ 300.000, então.

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