“O que ele está fazendo é desmantelar o Estado-Nação. O memorando de livre comércio assinado com Trump é de absoluta submissão à economia dos Estados Unidos, onde os EUA podem exportar para o nosso país até gado em pé”, denunciou o secretário administrativo da Central dos Trabalhadores da Argentina
“Javier Milei está cometendo um industricídio em prol das grandes corporações”, denunciou Daniel Jorajuría Kars, secretário administrativo e responsável pelo departamento jurídico da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA-Autônoma), em entrevista exclusiva na sede da entidade, em Buenos Aires.
Daniel advertiu que ao adotar esse comportamento para que as “corporações norte-americanas ganhem todas as licitações, o que Milei está fazendo é desmantelar o Estado-Nação”. “O memorando de livre comércio assinado com Trump é uma prova disso, pois é de absoluta submissão à economia dos Estados Unidos, onde os EUA podem exportar para o nosso país até gado em pé. E não pode haver coisa mais cruel do que exportar para a Argentina os mesmos produtos dos quais nós somos exportadores”, assinalou.
Kars denunciou o governo Milei como “o mais cruel que já tivemos na democracia”. “É um governo que veio para destruir o Estado Social de Direitos, que veio para se abraçar com as corporações econômicas no mundo e destruir a soberania nacional a fim de que as empresas entrem com tapete vermelho para explorar os trabalhadores”, condenou.
O dirigente da CTA adverte para o caráter perverso do esvaziamento da negociação coletiva, da manipulação dos índices de inflação e o ataque direto à liberdade sindical e ao direito de greve. “Hoje, a negociação coletiva está sob intervenção do governo, está pisoteada, e os salários estão sendo arrochados, perdendo dia após dia o seu poder de compra, enquanto as tarifas sobem em dólares. Além disso, este é um governo que atacou e eliminou praticamente a liberdade sindical e o direito de greve, que é a garantia de todos os nossos direitos”.
Segundo Daniel Kars, o governo também começou a reestruturar o Judiciário trabalhista para blindar suas reformas ultraneoliberais: “Está tentando eliminar a Justiça Nacional do Trabalho com juízes afins, transferindo-a para o Foro Contencioso Administrativo, que não tem o princípio protetório do Fórum do Trabalho. Por isso acabou de nomear cento e poucos juízes para esse foro, o que é um absurdo”.
Uma das acusações mais graves que apontou envolve as pressões diretas exercidas pelas autoridades estadunidenses diretamente sobre empresas argentinas, e a dependência estrutural do país frente ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
Recentemente houve o caso de uma empresa argentina que teve o seu próprio presidente executivo submetido a chantagens dos norte-americanos, “recebendo mensagens do chefe de negócios da embaixada dos EUA dizendo para reverter a situação sobre um contrato assinado com uma empresa chinesa. E depois o próprio embaixador fez uma publicação advertindo as consequências para essa empresa. Ou seja, esse é o grau de extorsão, de impunidade que os Estados Unidos vêm tendo dentro do país com o atual governo”.
MAIOR DEVEDORA DO FMI, ARGENTINA É SUBMETIDA À INSPEÇÃO EM SUA MAIOR RIQUEZA
“A Argentina é o maior devedor do FMI e a diretora-geral do Fundo, Kristalina Georgieva, veio inspecionar os recursos do país e visitou Vaca Muerta para ver se ali havia garantias para o recebimento do pagamento diante de uma eventual queda do governo Milei”. Uma “vistoria” constrangedora, que se deve à riqueza da formação que fornece mais de metade do gás e do petróleo do país, e tem capacidade de impulsionar fortemente a produção nacional. Localizada na Bacia de Neuquén, na Patagônia, Vaca Muerta abriga a segunda maior reserva mundial de gás de xisto e a quarta maior de petróleo não convencional do planeta.
Segundo o entrevistado, mesmo empresários que apoiaram o presidente vêm sendo prejudicados por licitações feitas sob encomenda em prol de empresas norte-americanas, citando o caso de Paolo Roca. “Milei tratou o chefe da indústria de infraestrutura na Argentina como ‘chatarrín’, uma palavra absolutamente pejorativa como ‘sucateiro’. Assim ele descreve o maior empresário do país”.
Ao mesmo tempo em que destrata quem é de casa, informou Daniel, “o governo preparou licitações sob medida, perfeitas para o que uma empresa norte-americana precisa. Então as empresas nacionais acabam perdendo as licitações, pois são feitas sob encomenda, em função do acordado entre Milei e Trump”.
“MILEI PERMITE QUE A INGLATERRA COM UMA EMPRESA ISRAELENSE COLOQUE EM DÚVIDA A SOBERANIA DAS MALVINAS”
A entrega de recursos estratégicos e o questionamento da soberania sobre as Ilhas Malvinas é outro ponto à flor da pele, que fica a cada dia mais escabroso, protestou. “Milei já está fazendo isso ao permitir que a Inglaterra, com uma empresa israelense, explore a plataforma submarina argentina ou esteja colocando em dúvida a questão das Malvinas, que é território argentino”.
Ao associar esse cenário a uma disputa geopolítica mais ampla dos EUA na região, incluindo suspeitas sobre a lisura de eleições recentes na América Latina, Daniel Kars vê a necessidade de uma maior integração entre as forças democráticas para barrar a ingerência ianque. “Não acreditamos que as últimas eleições na América foram transparentes, onde acabam ganhando, como no Peru ou na Colômbia, por um ponto, um ponto e meio, há sérias dúvidas de que isso foi manipulado”, ponderou.
Entre as vitórias, cita a inclusão da Argentina entre os países denunciados na Conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em que enalteceu o trabalho conjunto das três centrais para obrigar o governo a sentar no banco dos réus, “na lista curta de 24 países, demonstrando que Milei está com um trabalho minucioso: destruindo, desarmando e diluindo todos os direitos trabalhistas e a Justiça do Trabalho”.
Questionado sobre o crescimento da consciência popular diante das sucessivas mobilizações em defesa dos direitos dos aposentados, contra a política educacional e a estrangeirização da terra, Daniel Kars é direto sobre a necessidade de vencer definitivamente o serviçal de Trump: “Vamos derrotá-lo quando o povo que votou nele perceber que foi enganado e começar a marchar junto conosco nas ruas”. “Milei tem claro para onde vai e vai tentar cumprir todos os seus planos: desmantelar o Estado, desregular absolutamente toda a economia, abrir as portas para a economia transnacional para quem manda e entregar a própria soberania. Cabe a nós darmos o ponto final à sua política”, frisou.
As eleições em outubro no Brasil terão um caráter estratégico não só para a região, mas para toda a América, avalia, “o que obrigaram Milei a denegrir Lula publicamente num ato político para ver se fortalece Flávio Bolsonaro para derrotar o candidato popular e termos nossos países, máximos expoentes da América, retomados pelos EUA”. Anteriormente, observa Kars, “os EUA tinham outros objetivos: petróleo, Oriente Médio, União Europeia”. “Agora perderam um pouco essa hegemonia e vêm para a América, retomando a velha doutrina Monroe de 1823, ‘a América para os americanos’, entendendo que os americanos são eles”. “De fato, já fizeram isso na Venezuela, miram Cuba e continuam com este objetivo. Então é imperiosa uma unidade latino-americana urgente, através da unidade absoluta e da integração dos nossos povos, porque isso vai levar a uma batalha nas ruas dos nossos povos pela retomada dos nossos governos”, concluiu.
LEONARDO WEXELL SEVERO










