“Milei desmonta setor científico nuclear argentino”, condena físico Rodolfo Kempf

Rodolfo Kempf denuncia que com o desgoverno argentino cerca de 500 profissionais deixaram a Comissão Nacional de Energia Atômica rumo a empresas privadas, muitas de capital estadunidense (ComunicaSul)

Pesquisador da Comissão Nacional de Energia Atômica da Argentina defende “domínio da tecnologia estratégica” e adverte sobre ida do conhecimento científico aos EUA: “está em jogo um projeto de soberania, desenvolvimento e resistência à ingerência externa”

CAIO TEIXEIRA E LEONARDO WEXELL SEVERO, de BUENOS AIRES

“A energia nuclear argentina não é apenas uma fonte de eletricidade. É uma construção nacional de mais de sete décadas, baseada em ciência, engenharia, formação de trabalhadores altamente qualificados e capacidade industrial. É, sobretudo, um dos exemplos mais expressivos de que um país sul-americano pode dominar tecnologias estratégicas, desenvolver seu próprio ciclo do combustível, produzir radioisótopos para a medicina, projetar reatores e exportar conhecimento de alto valor agregado. Defender esse patrimônio significa defender a capacidade da Argentina de decidir seu próprio futuro energético, industrial e tecnológico”.

Com base nestes princípios, o físico Rodolfo Kempf, pesquisador da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) da Argentina, iniciou sua entrevista em Buenos Aires afirmando que o “que está em jogo é um projeto de soberania, desenvolvimento e resistência à ingerência externa”. O risco é grave, condenou, pois “ao paralisar áreas estratégicas, Javier Milei coloca em risco todo o desenvolvimento nuclear do país”.

A CNEA foi criada no início dos anos 1950 por decreto assinado pelo então presidente Juan Domingo Perón, num momento em que a energia nuclear era vista como instrumento de reconstrução e industrialização. Mais de setenta anos depois, esse projeto histórico – que ganha ainda maior relevância – está sob ameaça, reitera.

“NOSSO FUTURO ENERGÉTICO NÃO PODE SER DECIDIDO EM WASHINGTON”

“A energia nuclear argentina não deve ser desmontada, terceirizada nem convertida em simples fonte de urânio e cérebros para potências estrangeiras. Deve ser preservada, ampliada e colocada a serviço de um projeto nacional e regional de desenvolvimento. Nosso futuro energético não pode ser decidido em Washington, nem em qualquer outra capital estrangeira. Deve ser decidido pelos argentinos, com seus trabalhadores, cientistas, engenheiros e instituições, em cooperação soberana com seus vizinhos e com o mundo”.

Para o responsável de Transição Energética da Coordenadora Nacional de Trabalhadores da Indústria e dirigente da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA-Autônoma), “o ponto vital é a soberania tecnológica”.

“A Argentina não se limitou a comprar usinas prontas. No desenvolvimento de Atucha 1, a primeira usina nuclear da América Latina, desmontou o pacote tecnológico, comprando tão somente aquilo que não fosse possível produzir internamente”, desenvolvendo em solo argentino o máximo possível de materiais, sistemas, equipamentos e conhecimentos. O resultado foi decisivo por um caminho mais difícil, mas mais valioso, pois construiu com capacidades próprias que lhe permitem dominar grande parte do ciclo do combustível nuclear.

Na avaliação de Kempf, “essa autonomia é um ativo estratégico” pois assim o país utiliza tecnologia baseada em urânio natural e água pesada e possui capacidade para fabricar combustíveis. “Tem reservas de urânio e uma história própria de mineração e processamento, embora parte do combustível utilizado atualmente dependa de urânio comprado no exterior. Possui ainda tecnologia de enriquecimento, ainda que não opere usinas elétricas baseadas em urânio enriquecido. Em outras palavras: existe uma infraestrutura humana, científica e industrial que não pode ser tratada como uma mercadoria qualquer sem comprometer décadas de investimento nacional”, assinalou.

ENERGIA NUCLEAR EXIGE PLANEJAMENTO DE DÉCADAS

“Nosso país também construiu uma experiência nuclear com fins pacíficos reconhecida internacionalmente. O país possui três usinas de geração: Atucha 1, Atucha 2 e Embalse. A retomada e conclusão de Atucha 2, interrompida durante os anos 1990 e retomada a partir de 2006, demonstra a diferença entre uma política energética de longo prazo e uma lógica de curto prazo. A energia nuclear exige planejamento de décadas, formação de quadros e continuidade institucional. É justamente o contrário de uma política que trata recursos estratégicos como ativos a serem vendidos rapidamente”, esclareceu.

Conforme o especialista, a relevância econômica da energia nuclear vai muito além dos megawatts produzidos, pois “ela sustenta empregos altamente qualificados, universidades, centros de pesquisa, metalurgia especializada, engenharia, indústria de componentes e cadeias produtivas que agregam valor dentro do país. Também permite que a Argentina exporte tecnologia”.

A Comissão Nacional de Energia Atômica e a INVAP (empresa da área de serviços de tecnologia que atua em projetos, integrações, fabricação e entrega de equipamentos, plantas e dispositivos) já participaram do desenvolvimento e da exportação de reatores de pesquisa para países como Argélia, Egito e Peru, além do reator exportado para a Austrália, que produz radioisótopos destinados à medicina. “Nosso país, portanto, não é apenas consumidor de tecnologia nuclear: é produtor e exportador de conhecimento”, enfatizou.

Na medicina nuclear, essa soberania também tem uma dimensão social direta. A Argentina possui capacidade de autoprodução de radioisótopos para aplicações médicas. Isso significa que a política nuclear não deve ser apresentada como um luxo tecnológico, mas como parte de uma infraestrutura nacional que alcança a saúde pública, a indústria, a pesquisa e a segurança energética.

“Para um país que pretende se industrializar, ampliar sua infraestrutura e garantir eletricidade confiável, abandonar a energia nuclear significaria abrir mão de uma ferramenta estratégica”

A defesa da energia nuclear é ainda mais forte quando se considera o problema climático e a necessidade de eletricidade para uma economia industrial, adverte Kempf, pois diferentemente das fontes eólica e solar, cuja produção depende das condições meteorológicas, a geração nuclear oferece fornecimento contínuo e previsível. “Para um país que pretende industrializar, ampliar sua infraestrutura e garantir eletricidade confiável, abandonar a energia nuclear significaria abrir mão de uma ferramenta estratégica justamente quando o mundo volta a reconhecer sua importância”.

O governo neocolonial está conduzindo um processo de desmonte da capacidade nuclear nacional em paralelo ao crescente alinhamento com o governo Trump. “Assim, entregar minerais estratégicos, põe na rua trabalhadores qualificados e interrompe projetos nacionais, transformando uma capacidade soberana em mera fonte de matérias-primas e mão de obra para empresas estrangeiras”.

O caso do urânio é emblemático. A Argentina conhece reservas importantes em seu território e Milei está interessado em direcionar esse recurso para os EUA, o que não é uma questão simplesmente comercial. Afinal, alerta, “se um país exporta seu mineral estratégico enquanto desmantela a capacidade de processá-lo, pesquisá-lo e transformá-lo em tecnologia, corre o risco de repetir o velho padrão periférico: exportar recursos naturais e importar produtos de maior valor agregado”. “No setor nuclear, isso seria particularmente grave, porque significaria entregar não apenas uma matéria-prima, mas parte de uma cadeia tecnológica construída durante gerações”, repudia.

Ainda mais preocupante é a abundante perda de cientistas, técnicos e quadros altamente qualificados. Cerca de 500 profissionais deixaram a CNEA em direção a empresas privadas, muitas delas de capital norte-americano, atraídos por salários várias vezes superiores aos pagos pelo setor público. “Essa sangria representa uma perda estratégica já que um engenheiro ou pesquisador não é apenas um trabalhador substituível, mas parte de um conhecimento acumulado que pode levar décadas para ser formado. A transferência desses quadros para empresas estrangeiras pode significar a transferência indireta do próprio patrimônio intelectual argentino”.

“A transferência desses quadros para empresas estrangeiras pode significar a transferência indireta do próprio patrimônio intelectual argentino”

O projeto da Central Argentina de Elementos Modulares (Carem) concentra essa disputa pois trata-se de um reator modular de pequeno porte de desenho argentino, desenvolvido ao longo de décadas e apresentado como um dos projetos mais avançados do mundo em sua categoria. Sua importância não é apenas energética. Um reator nacional significa propriedade intelectual, capacidade de engenharia, possibilidade de exportação e independência tecnológica. O CAREM poderia atender pequenas localidades fora do sistema interconectado e aplicações industriais que exigem energia confiável, além de inserir a Argentina no mercado internacional de pequenos reatores modulares.

“Por isso, a paralisação do CAREM é parte de um processo de desmonte e precisa ser vista como questão de soberania. Se um projeto argentino é interrompido enquanto empresas estrangeiras avançam no mesmo mercado, o país corre o risco de destruir um competidor potencial antes mesmo de colocá-lo em escala comercial. A pergunta fundamental é simples: por que uma nação que conseguiu desenvolver tecnologia própria deveria abandonar essa capacidade para se tornar dependente de fornecedores externos?”, questionou.

EUA CONTROLAM ATÉ ESTRUTURAS DE SEGURANÇA E INSTALAÇÕES NUCLEARES

A ingerência dos EUA também se evidencia na forma institucional e no controle sobre estruturas e políticas de segurança, condenou Kempf, uma vez que “há equipamentos de vigilância instalados a partir de pedidos e participação de órgãos norte-americanos, além de episódios envolvendo representantes estrangeiros em instalações nucleares”. “Isso nos traz uma questão política incontornável: até que ponto a segurança de instalações estratégicas argentinas, que comprometem a sua soberania, pode ser submetida a agendas definidas fora do país?”, questionou

Kempf faz questão de frisar que o problema não é defender uma indústria nuclear sem controle: segurança, fiscalização e cooperação internacional continuam indispensáveis -ressalva. Nossa própria experiência comum indica o caminho, com a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), criada no contexto da aproximação entre os presidentes Alfonsín e Sarney. É a prova de que países sul-americanos podem construir “mecanismos próprios de confiança, controle e cooperação, sem depender da tutela de grandes potências”. Aprofundar essa cooperação – em tecnologia, combustíveis, pesquisa e formação de pessoal – poderia transformar o setor nuclear em um dos pilares de uma integração energética sul-americana, em vez de fragmentá-lo entre interesses estrangeiros isolados.

“Há diferença entre uma Argentina que vende seus especialistas e uma que forma novas gerações de cientistas e engenheiros para desenvolver tecnologia própria”

A defesa da energia nuclear argentina, portanto, não é uma defesa abstrata da tecnologia. É uma defesa de um modelo de desenvolvimento. Kempf demonstra que “há uma diferença fundamental entre uma Argentina que extrai urânio para exportá-lo e uma Argentina que transforma urânio em combustível, conhecimento, eletricidade, radioisótopos, equipamentos, reatores e empregos qualificados. Há também uma diferença entre uma Argentina que vende seus especialistas e uma que forma novas gerações de cientistas e engenheiros para desenvolver tecnologia própria”.

“O debate, no fundo, é sobre quem decide. Se a Argentina mantém a capacidade de projetar seus reatores, fabricar seus combustíveis, formar seus cientistas, produzir sua energia e exportar sua tecnologia, ela decide seu próprio caminho. Se perde essas capacidades e passa a fornecer urânio e trabalhadores para empresas estrangeiras, enquanto importa tecnologia e aceita que projetos nacionais sejam abandonados, deixa de ser protagonista para voltar à condição de dependência”, ressaltou o físico.

Com esta convicção, Kempf afirma que “defender a energia nuclear argentina é, portanto, defender a industrialização, a ciência, o trabalho qualificado, a saúde, a segurança energética e a soberania. E denunciar qualquer ingerência externa não significa rejeitar a cooperação internacional: significa exigir que ela ocorra entre países soberanos”. “A Argentina já provou que é capaz de construir tecnologia nuclear própria. O desafio agora é impedir que décadas de conhecimento sejam transformadas em oportunidade para outros países e em dependência para os argentinos”, concluiu.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *