Entrega da estatal foi em troca de US$ 340 milhões, sem apresentar qualquer estudo que revelasse o valor real da empresa argentina de água e saneamento
O desgoverno do presidente argentino, Javier Milei, continuando com a política neoliberal de terra arrasada, anunciou na quinta-feira, 8, que encontrou um comprador para a empresa de água e saneamento básico, Agua y Saneamientos Argentinos (AySA), que atende mais de 14 milhões de usuários, responsável pelo abastecimento de água potável e tratamento de esgoto para a cidade de Buenos Aires e mais 26 distritos na região metropolitana em torno.
A privatização acontece depois de duas décadas da reestatização da AySA, no governo de Néstor Kirchner, em 2006 e de reconstrução da empresa sucateada.
Um consórcio formado pelas empresas Rowing, Arcos Saneamento (do Grupo Equipav), Transclor e PHX AQUA venceu a licitação para privatização com a proposta, uma bagatela de US$ 340 milhões. Pelos termos da entrega da empresa os novos aquisidores terão controle de 90% da empresa e vão ter o período de concessão de 30 anos que pode então ser prorrogado para mais 10 anos. Os 10% que restam ficaram para um pseudo “controle” dos trabalhadores pelo programa de participação acionária da empresa.
A notícia da privatização foi recebida com desaprovação e críticas pelo povo argentino, como a venda por um preço muito baixo, até pelos termos do Ministério da Economia da Argentina, que previa venda por valor US$ 110 milhões acima.
Para tornar o botim mais atrativo, antes de concluir a venda, as tarifas de água na região de Buenos Aires sofreram violentos reajustes que chegaram a até 530%.
Os argentinos se revoltam contra o impacto da privatização nas tarifas, na previsível queda na qualidade do serviço prestado, além da falta de transparência nas negociações.
A principal crítica é a de que o governo argentino não estabeleceu um preço mínimo de referência e também não divulgou a avaliação dos ativos da AySA, impossibilitando saber de forma competente se o valor de US$ 340 milhões oferecido corresponde ao valor real de uma empresa essencial como a AySA, que foi reconstruída com recursos públicos durante o governo Nestor Kirchner.
Ao fim e ao cabo, a proposta que o consórcio ofereceu foi apenas 75,6% dos US$ 450 milhões, ou seja, abaixo até do estimado pelo Ministério da Economia do governo de destruição de Milei, sem falar que durante o processo de venda houve a recusa da divulgação dos ativos e do estabelecimento de um preço mínimo para a venda, o que deixa evidente que AySA foi vendida por um valor muito mais abaixo do que realmente vale.
Outra denúncia é a de compadrio na venda, com a participação da Rowing, do empresário Walter Román, que tem fortes ligações com Milei. A empresa de engenharia, construção, logística e infraestrutura faz parte da holding Equo Capital, que tem transações com o partido do presidente.
De acordo com o Subprocurador-Geral da Província de Buenos Aires, Walter Martello, o Grupo Direct e a Lógico, do mesmo grupo de empresas, fizeram ambas uma contribuição de 20 milhões de pesos para a campanha do partido de Mieli, La Libertad Avanza, em 2025. No total eles doaram 40 milhões de pesos para o partido de Milei. Martello pediu uma investigação para apurar se as contribuições estavam nos conformes das leis argentinas sobre financiamento partidário.
Uma outra empresa da família de Román, a Urbano Express, ganhou em 2025, um contrato da PAMI (Programa Nacional de Saúde para Aposentados e Pensionistas da Argentina), para fornecimento de fraldas para idosos, levantando alegações de manipulação em licitações e superfaturamento.
Sobre a falta de transparência na privatização da AySA, Martello disse que o governo nunca tornou público o valor do pacote de ações, nem do inventário do passivos ambientais, informações mantidas confidenciais para os licitantes privados, deixando o público argentino desconhecendo o verdadeiro valor da empresa, desrespeitando a Lei de Acesso à Informação Pública, levando a entrarem com uma ação coletiva da Justiça Federal da Argentina contra mais essa privatização com toda a cara de assalto ao patrimônio público.











