Centenas de milhares de manifestantes disseram um basta aos fundos de especulação imobiliária, erguendo faixas e cartazes exigindo uma lei para resolver a barbárie da crise habitacional
Quando Maricarmen Abascal, idosa de 87 anos – com 50% de deficiência – foi despejada, em cima de uma maca, do prédio da rua Alcalde Sainz de Baranda, no bairro do Retiro, em Madri, a Espanha ganhou um símbolo, refletindo a profunda crise de moradia em que se vê mergulhada.
Internada e apresentando um quadro severo de ansiedade e exaustão, sem ter garantido o regresso ao lar, após mais de 15 dias no hospital, a senhora faleceu na quarta-feira (7), vítima da crueldade a que foi submetida.
Embora defendida solidariamente pelos vizinhos e pelo Sindicato de Inquilinos, que enfrentaram a chuva de bombas e a violência dos cassetetes da polícia, a idosa foi expulsa no dia 23 de setembro do apartamento onde vivia desde 1956 com a família. O aluguel, que ela sempre pagou ao longo de sete décadas, era de 500 euros mensais. Depois da venda do imóvel, subiu 430%, para 2.650 euros – sendo posteriormente renegociado para 1.650 euros, um aumento de 275%. A aposentadoria, segundo o Sindicato de Inquilinos, não cobria sequer a metade: era de tão somente 1.300 euros.
Três dias depois, a revolta tomou a capital. Convocada sob o lema “Ni una Maricarmen más”, a marcha de 26 de setembro saiu da Porta do Sol e terminou próxima do Congresso dos Deputados, reunindo 300 mil pessoas. Parte dos manifestantes ficou acampada na Porta do Sol e no hospital, onde estava internada.
Do Palácio da Moncloa, o primeiro-ministro Pedro Sánchez dirigiu-se a ela e prometeu um decreto que pusesse fim à extorsão das imobiliárias. Houve acordo parcial, mediado pela empresa municipal de habitação, que previa novo contrato de oito anos, com aluguel limitado a 30% da sua renda líquida.
A vitória individual, porém, não aquietou as ruas, nem chegou a tempo. Os ativistas argumentaram que resolver um caso não elimina o problema de outras centenas de milhares de famílias. Os números sustentam a afirmação, já que o aluguel por metro quadrado em Madri quase dobrou em dez anos.
GREVE GERAL À VISTA
Diante disso, sob o lema “Rumo à greve geral”, quatro marchas vindas de quatro locais da capital (Atocha, Plaza de España, Hospital de La Princesa e Emilio Castelar) convergiram nesta quinta-feira (8) para a central Praça de Cibeles, reunindo dezenas de milhares de pessoas.
Na passagem pela praça, onde fica a sede da Prefeitura de Madri, os manifestantes fizeram um minuto de silêncio, recordando o caso de Olga Matute, uma senhora, mãe de duas filhas, que se suicidou recentemente após ser retirada da casa em que vivia há mais de 20 anos em L’Hospitalet, na região de Barcelona.
A mesma determinação e o mesmo compromisso se espalharam por mais de 50 cidades, que levantaram faixas e cartazes pela redução de 50% nos aluguéis, contratos de aluguel por tempo indeterminado, desapropriação ou restrições a fundos abutres de especulação imobiliária e grandes proprietários de imóveis residenciais, sublinhando a necessidade de medidas emergenciais após a rejeição dos decretos sobre habitação no Parlamento.
Cidades como Santiago de Compostela, Santander, Santa Cruz de Tenerife, Palma de Maiorca, Cádis, Toledo ou Valladolid, entre outras, reiteraram a necessidade de uma legislação para disciplinar a questão das moradias como um direito humano.
As duas maiores centrais sindicais do país (CCOO e UGT) convocaram uma greve geral de 24 horas para o dia 11 de novembro – a primeira paralisação unificada desta magnitude na Espanha em 14 anos –, tendo como eixo a resolução da crise habitacional e a recuperação do poder de compra.
Como símbolo do apoio popular à solução da crise, os manifestantes cobriram a frente da residência de Maricarmen com coroas de flores e velas em protesto contra os despejos e a alta dos aluguéis.
A rejeição de dois decretos de habitação no Parlamento reabriu a discussão sobre antecipar as eleições, previstas para meados de 2027.











