Culminando a visita de dois dias do presidente russo Vladimir Putin à China, onde se reuniu com seu homólogo Xi Jinping, os dois países reafirmaram nesta quarta-feira (20) seu compromisso com a construção de um mundo multipolar e mais equânime, sua oposição ao “retorno a um mundo onde só vale a lei do mais forte” e reiteraram seu compromisso com a paz e a prosperidade com base na Carta da ONU.
Em comemoração ao 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação, do qual Putin foi signatário, e ao 30º ano da parceria estratégica Rússia-China, a visita acontece sob a turbulência do declínio de um império que se agarra ao mundo unipolar que naufraga e sob os holofotes da partida de Trump há quatro dias. Como lembrou o Global Times, Pequim se tornou “o epicentro da diplomacia mundial”. Putin é o chefe de Estado estrangeiro que mais visitou a China.
“Os laços estreitos entre Moscou e Pequim são especialmente necessários na atual conjuntura internacional tensa”, porque “tornaram-se um dos principais fatores de estabilização no mundo”, disse Putin a Xi, após ser recebido com honras na Praça Tiananmen, na capital chinesa.
O presidente russo saudou as conquistas dessa parceria. O intercâmbio bilateral entre os dois países alcançou o equivalente a mais de US$ 200 bilhões por três anos consecutivos. Mais de 40 acordos e memorandos foram assinados, referentes a áreas de parceria que vão do petróleo e gás às usinas nucleares, aviação, infraestrutura, espaço e alta tecnologia. O regime de isenção de vistos foi prorrogado. Está aberto o Ano da Educação. Os BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai e o Novo Banco de Desenvolvimento florescem.
Nos primeiros quatro meses de 2026, o volume de negócios aumentou em aproximadamente 20%. “Não foi fácil”, admitiu Xi Jinping, referindo-se à pressão das sanções. “Praticamente todas as transações de importação e exportação entre a Rússia e a China são realizadas em rublos e yuans”, enfatizou Putin. “Essencialmente, construímos um sistema estável de comércio mútuo, protegido de influências externas e tendências negativas nos mercados globais.”
Em seu discurso de boas-vindas, Xi Jinping assinalou que “na conjuntura internacional caótica, o unilateralismo e a hegemonia são desenfreados. Como grandes potências globais, a China e a Rússia devem construir um sistema de governança global mais justo e razoável.”
“O complexo processo de formação de um mundo policêntrico baseado no equilíbrio dos interesses de todos os seus participantes está em curso”, observou Putin. “Juntamente com nossos amigos chineses, defendemos a diversidade cultural e civilizacional e o respeito pelo desenvolvimento soberano dos Estados.”
O presidente Xi assinalou que “a razão pela qual nossa relação bilateral atingiu gradualmente esse nível é porque ambos os lados conseguiram aprofundar a confiança política mútua e a cooperação estratégica, demonstrando persistência em se manter firmes apesar de inúmeros contratempos, expandir a cooperação em diversas áreas, bem como defender a justiça internacional e construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”.
MAIORIA GLOBAL
“As tentativas de vários Estados de gerir unilateralmente os assuntos globais fracassaram”, afirma o documento. “Moscou e Pequim reconhecem isso como um fato consumado: o sistema internacional já está se deslocando para o multilateralismo”, registrou a agência RIA Novosti, analisando a Declaração dos 25 anos do Tratado. “A ascensão da Ásia, da África e da América Latina, e o crescimento das associações regionais, estão criando uma nova realidade.”
A Declaração formula quatro princípios fundamentais, analisa a Novosti. “Primeiro: não existem ‘países de primeira classe’ no mundo, e não existe um caminho universal para o desenvolvimento. Segundo: a segurança é indivisível; um Estado não pode estar seguro à custa de outro, e, portanto, a expansão de alianças militares e guerras por procuração são inaceitáveis. Terceiro: regras elaboradas por um círculo restrito não devem substituir o direito internacional. Quarto: todas as civilizações são iguais, e os direitos humanos não podem ser usados para interferir em assuntos internos.”
CONTRA A VIOLAÇÃO DA CARTA DA ONU
A Declaração desta quarta-feira entrou nas questões mais candentes da atualidade e condenou os ataques dos EUA e Israel contra o Irã que “violam o direito internacional e as normas fundamentais das relações internacionais e prejudicam seriamente a estabilidade no Oriente Médio”.
“Ações como o lançamento traiçoeiro de ataques militares contra outros países; o uso hipócrita de negociações como pretexto para a preparação de tais ataques; o assassinato de representantes dos governos de Estados soberanos; a desestabilização da situação política interna nesses Estados e a provocação de uma mudança de poder; e o sequestro descarado de líderes nacionais para submetê-los a julgamento violam gravemente os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas”, enfatizaram Rússia e China.
Ambos os líderes expressaram seu apoio ao status da América Latina e do Caribe como uma zona de paz, bem como à luta dos Estados latino-americanos “para escolher autonomamente seus caminhos de desenvolvimento e seus parceiros”.
O documento afirma que Moscou e Pequim se opõem a qualquer ação que viole os objetivos e princípios da Carta das Nações Unidas ou que ameace a soberania e a segurança de outros países, e enfatiza que se opõem à interferência de forças externas nos assuntos internos da região “sob qualquer pretexto”.
Sobre a proposição do governo Trump de construir o sistema de defesa aérea Domo Dourado, o documento aponta que “nega completamente o princípio fundamental da manutenção da estabilidade estratégica, que prevê a indissolubilidade da inter-relação entre armas estratégicas ofensivas e defensivas”.
ADVENTO DE UMA NOVA ERA
“As tentativas de vários Estados de gerir unilateralmente os assuntos mundiais, impor os seus interesses ao mundo inteiro e limitar as possibilidades de desenvolvimento soberano de outros países, à semelhança da era colonial, falharam. O sistema de relações internacionais do século XXI está sofrendo uma profunda transformação”, afirma o documento.
“A maioria dos Estados, levando em conta a experiência histórica adquirida, tornou-se plenamente consciente do advento de uma nova era e da necessidade de continuar no caminho da formação de uma comunidade internacional mais coesa, bem como do respeito mútuo pelos interesses fundamentais, da igualdade, da justiça e da cooperação para benefício mútuo, sem dividir o mundo em regiões e blocos opostos”, acrescenta.
Moscou e Pequim também se comprometeram a continuar defendendo firmemente “a visão correta da história da Segunda Guerra Mundial” e a inalterabilidade de seus resultados, e a “se opor às tentativas de negar, distorcer e falsificar a história” desse conflito.
“As partes pretendem fortalecer ainda mais a cooperação na luta contra a glorificação do nazismo, do fascismo e do militarismo, bem como contra as tentativas de reviver essas ideologias destrutivas e a negação dos fatos do genocídio”, diz o documento.
Ambos os lados expressaram seu apoio à soberania mútua: a Rússia apoiou o princípio de “uma só China” e reconheceu Taiwan como parte inalienável do território chinês. Pequim, por sua vez, apoia os esforços da Rússia “para garantir a segurança e a estabilidade, o desenvolvimento e a prosperidade nacional, a soberania e a integridade territorial, e opõe-se à interferência externa nos assuntos internos da Rússia”.
Como resumiu o Global Times: “A parceria estratégica abrangente de coordenação entre China e Rússia é de grande importância para manter a estabilidade estratégica global, preservar o multilateralismo e salvaguardar a ordem internacional. China e Rússia são estrategicamente independentes, respeitam consistentemente os interesses centrais um do outro, evitam impor sua própria vontade e agendas um ao outro e seguem o princípio de não aliança, não confronto e não visar terceiros.”











