“Não tenho que justificar nada a ninguém”, diz Flávio, sobre os milhões que pegou com Vorcaro

O filho "01", Flávio Bolsonaro (PL-RJ) (Foto: Pedro França - Agência Senado)

Confirmou que pegou dinheiro com o banqueiro ladrão mas disse que foi “lá atrás, quando ele era cortejado”. Esta versão mais uma vez não corresponde à verdade. Mensagens foram feitas na véspera da prisão do dono do Master

Flávio Bolsonaro (PL) seguiu mentindo neste sábado (16) e disse, em Sorocaba-SP, que os adversários esqueceram que ele “tem sangue Bolsonaro”. “Estão querendo me enterrar vivo. Não tenho que dar satisfação a ninguém”, afirmou. Veja aqui a fala do senador.

Sobre o pedido de dinheiro a Vorcaro, mentiu de novo, dizendo que foi “lá atrás, numa época em que o banqueiro era cortejado”. Ao contrário de sua versão, os áudios são de setembro do ano passado e as mensagens, de novembro do ano passado, véspera da prisão do banqueiro.

A referência ao “sangue Bolsonaro” se explica pela insistência compulsiva na mentira. Ele, por exemplo, afirmou várias vezes que não conhecia e que nunca esteve com Vorcaro e apareceu num áudio pedindo R$ 134 milhões ao banqueiro e chamando-o de “irmãozinho”.

Ao falar em ser “enterrado vivo”, ele deve estar se referindo às avaliações de que ele virou um “zumbi”. Quanto mais ele fala, mais se complica. Disse que o irmão não tinha recebido o dinheiro do Master e foi desmentido ao vivo na CNN. A divulgação, pelo Intercept Brasil, do contrato assinado por Eduardo Bolsonaro, como produtor-executivo do fundo, desmoralizou sua versão.

Reportagem da BC News Brasil revela que investigadores brasileiros vão apurar se parte dos recursos repassados por Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), teriam sido usados também para custear o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos.

Eduardo também negou ter recebido recursos de Vorcaro. Só que, após a declaração de Eduardo, o site Intercept Brasil publicou a reportagem, mostrando que o ex-deputado teria atuado sim como produtor-executivo de Dark Horse, segundo um contrato assinado por ele e diálogos obtidos com exclusividade pelo veículo de imprensa. O fundo que recebeu o dinheiro comprou um imóvel de R$ 3,6 milhões no Texas, exatamente onde Eduardo Bolsonaro está residindo.

O contrato apresentado pelo Intercept é datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024. Ele traz a empresa GoUp Entertainment, sediada nos EUA, como produtora, e Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) à frente da produção-executiva da cinebiografia.

“Os registros contradizem afirmações feitas por Eduardo Bolsonaro (…) sobre sua relação com o filme e colocam o deputado federal cassado como uma peça-chave com poder na tomada de decisões, inclusive financeiras, sobre o filme que conta a história do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro”, afirma a reportagem de Intercept.

Os recursos pedidos por Flávio Bosonaro deixaram o Brasil “via Entre” e eles chegaram aos EUA por meio do fundo Havengate. O grupo Entre foi alvo da segunda fase da operação Compliance Zero, que apura um esquema de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master. Os documentos mostram que o fundo Havengate tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado e aliado de Eduardo Bolsonaro nos EUA.

Nos registros, o fundo aparece ainda como sendo de propriedade de uma empresa do tipo LLC (equivalente às limitadas brasileiras), de nome quase igual ao fundo, a Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas, no Texas, que o escritório de Calixto. Escritório, aliás, onde, segundo a revista Piauí, Eduardo faz reuniões para conduzir sua sabotagem ao Brasil.

Segundo o Intercept, a opção de Vorcaro por remeter recursos à família Bolsonaro no exterior por meio da Entre Investimentos ao fundo Havengate aconteceu após dificuldades operacionais para a remessa internacional dos recursos. Em fevereiro de 2025, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro apontado pela PF como principal operador financeiro do banqueiro, relatou sucessivas recusas do setor de câmbio do Banco Master de realizar a operação de envio de recursos para o exterior, conforme o Intercept.

Para investigar a atividade de fundos como o da família Bolsonaro nos Estados Unidos, a PF depende de ato recíproco de cooperação com o FBI ou instituições americanas. “Quando você coloca dinheiro em um país que não troca essa informação automaticamente, é uma forma de você dificultar esse acesso”, observa o auditor fiscal Marcelo Lettieri.

Para o auditor fiscal Roberto Alvarez, diretor financeiro do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Sindifisco Nacional), a operação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro usando a Entre Investimentos e o fundo Havengate chama atenção ainda pelo volume de recursos movimentados.

“Ninguém diz qual é a origem dos recursos até agora. Essa é uma pergunta que precisa ser feita”, diz o auditor fiscal. “Quais são os dispositivos legais que foram infringidos? Do ponto de vista da Receita Federal, é bem provável que nenhum dos tributos possivelmente incidentes sobre essa operação foi recolhido. Tudo isso tem que ser investigado”, afirrmou.

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