CARLOS LOPES
[Publicado originalmente no portal da Fundação Maurício Grabois (FMG)]
O episódio do candidato Flávio Bolsonaro, desmentindo – interminável e inutilmente – que alguma vez tivesse proposto a retirada do título de “padroeira do Brasil” a Nossa Senhora Aparecida, parece ter, além do óbvio sentido político, um conteúdo pedagógico.
Nem parece perceber o candidato que o ridículo de levantar a imagem de Nossa Senhora Aparecida, junto com o governador Tarcísio Freitas, sabe mais a confissão que a desmentido.
Flávio, porém, nunca foi um sujeito brilhante, nem mesmo de inteligência mediana. Assim como o pai, está mais para um lorpa.
Porém, se ele não disse o que todos dizem que ele disse, por que isso pegou tão rapidamente – e tão firmemente?
Porque, independente do que ele disse – ou do que não disse – é verdade.
Ou a mais pura expressão da verdade.
O fascismo, como se sabe, se alimenta (se alimenta?) da mentira, da falsidade, da difamação, da injúria, da calúnia. Assim se portou Mussolini em relação aos comunistas, socialistas e até a democratas bem mais moderados. Pior ainda se portou Hitler, em relação a todos – até mesmo aos comandantes das forças armadas alemãs – que julgava um obstáculo às suas pretensões absolutistas e ditatoriais, isto é, nazistas.
Esse comportamento sociopático é o mesmo de Trump, capaz de dizer qualquer coisa – e fazer qualquer coisa, se não existir um limite político ou jurídico – para impor o domínio de seu decadente país imperialista.
O que isso tem a ver com Flávio Bolsonaro? E com Nossa Senhora Aparecida?
Comecemos pela padroeira do Brasil.
A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi retirada do rio Paraíba do Sul, por três pescadores, em 1717 – mais especificamente, em outubro de 1717, daí a sua data de comemoração, 12 de outubro.
Foi declarada padroeira do Brasil em 1931, numa cerimônia que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas. Um ano antes, o papa de então, Pio XI, havia declarado a santa, “Padroeira Principal do Brasil”.
Não nos estenderemos sobre detalhes que o leitor poderá conhecer com a consulta a fontes que são bastante acessíveis (por exemplo, o fato, ressaltado por alguns, de que a imagem retirada do rio em 1717 era originalmente uma imagem da Imaculada Conceição, a mais habitual aparição da Virgem Maria).
Resta-nos ressaltar, aqui, algo que não é um detalhe: Nossa Senhora Aparecida é uma santa negra, padroeira de um país composto por negros e mulatos.
Que melhor e mais apropriada padroeira o Brasil poderia ter?
Assim, não é à toa que Flávio Bolsonaro esteja tão aflito com a revolta que tomou o país quando se soube que os bolsonaristas queriam tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
O fascismo é assim: mente sem nenhuma, absolutamente nenhuma, vergonha – e depois protesta que os outros é que estão mentindo.
Vejamos, então, de mais perto a questão.
O autor do projeto foi um deputado federal, Victório Galli, que depois foi assessor especial do então presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro.
Portanto, trata-se de um projeto bolsonarista. E o principal representante atual do bolsonarismo – com a prisão do pai – é Flávio Bolsonaro.
Além disso, todo mundo sabe como os fascistas, os bolsonaros, trumps, hitlers, etc., detestam os negros, cultivando apenas alguns renegados, que lhes servem de feitores ou capitães do mato. Quanto aos outros (isto é, todos ou quase todos), se depender deles, e não houver resistência ou obstáculos, serão enviados ao extermínio ou à senzala.
Nada, portanto, mais coerente do que acabar com essa farra dos negros, bem representada – na visão deles – pela padroeira do Brasil.
O ideal deles, afinal, é o Brasil transformado em colônia de Trump – um país branco, exceto a criadagem ou a escravaria, ou seja, a população escravizada. Como pode tal país ter como padroeira uma santa negra?
Certamente, isso tem a ver com o falso cristianismo que eles professam – ou, melhor, que não professam.
Há muito já se disse que o cristianismo, quando surgiu, no modo de produção antigo, era a religião e ideologia dos escravizados. E, realmente, como ressaltou Engels em “Contribuição para a história do cristianismo primitivo” (1894-1895): “A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria”.
O que isso tem em comum com o fascismo? Ou com o clã dos Bolsonaros?
Nada.
Para começar, jamais se soube qual a religião de Jair Bolsonaro. Aliás, nem se soube por qual time de futebol ele torcia. Sempre foi a mais perfeita encarnação adulta de um perverso polimorfo…
Até há pouco, Flávio Bolsonaro se dizia evangélico – o que tornaria seu gesto, de erguer a santa, de uma hipocrisia farisaica (tal como diz Jesus Cristo, no Evangelho Segundo São Mateus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundície”).
Entretanto, como seu pai, ele não é evangélico nem católico nem cristão. Ele é um nada. Aliás, se podemos avançar alguma coisa na caracterização do fascismo, talvez esteja aqui uma pequena coisa a acrescentar. O fascismo não tem religião nem respeito por religião alguma.
Qual a religião de Mussolini? Qual a religião de Hitler?
Nenhuma, que se saiba.
Isso quer dizer que seja obrigatório, para todo ser humano, ter uma religião?
Não foi o que dissemos. O que é obrigatório, para todo ser humano que preze este título, é respeitar o que há de melhor nas religiões do mundo. Gorky, em um texto comovente, falou de como a ideia de Deus, para os pobres, é a condensação do que há de melhor nas qualidades humanas.
O problema dos fascistas é que eles não respeitam qualquer virtude ou qualidade humana – daí não respeitarem qualquer religião, sob qualquer aspecto.
Flávio Bolsonaro pode reclamar eternamente que jamais falou em retirar o título de “padroeira do Brasil” a Nossa Senhora Aparecida. Ninguém – exceto seus acólitos de sempre – vai acreditar. Porque todo mundo sabe que é exatamente o que faria, se pudesse.
No entanto, ele não pode. Primeiro, porque não vai ser eleito. Segundo, porque sua covardia não iria arriscar uma revolução contra ele, no país, para defender a padroeira – e padroeira há quase 100 anos.
Porém, não é somente por essas considerações específicas – inclusive as acusações que o próprio Flávio fez, injusta e mentirosamente, à CNBB, de criar fake news – que as pessoas acreditaram que ele iria retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”.
O problema de fundo é que quem vive da mentira – quem não consegue falar alguma coisa que não seja mentira – está sujeito a que a verdade desmascare a sua alma definitivamente.
É completamente secundário – é, inclusive, desprezível – que ele tenha ou não dito que iria tirar, se eleito, o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
Todos sabem que, mesmo que ele não tenha dito isso literalmente, esse é o sentido de sua campanha eleitoral – e de sua triste figura política.
Pois o que é o “programa” de Flávio Bolsonaro, senão a contradição com tudo o que a nossa padroeira representa, a começar pela pele negra, mas também com a esperança de ascensão social de cada pobre (e não somente dos pobres) deste país, e com o desejo de liberdade política de cada cidadão?










