O almoço emblemático do senador com milícia no corpo e o chefão da Globo


DAVI MOLINARI

O Brasil chegou ao ponto em que uma reportagem séria sobre os riscos de o clã Bolsonaro voltar ao poder precisa sair da boca de um humorista do Porta dos Fundos, como Fábio Porchat. Enquanto a cúpula da maior empresa de comunicação do país almoça com o filho do ex-presidente, a Polícia Federal já desenhou um esquema que exige software de organograma.

Perspectiva é tudo. Na campanha, as redações tentaram criar a falsa simetria de tratar o clã e o governo em pé de igualdade, como se debatessem economia e políticas públicas em nível de normalidade. Essa isonomia artificial colocou o matador da democracia na mesma mesa. Agora, a dias da votação, Estadão, O Globo e Folha ensaiam revelar o miliciano dentro daquele corpinho. Tomara que dê tempo de exorcizá-lo do jogo democrático.

Na semana passada, João Roberto Marinho (Globo) recebeu Flávio Bolsonaro para um “almoço institucional”. O mesmo Flávio que, segundo a PF, era “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, uma offshore no exterior de Willer Tomás, advogado investigado por tomar dinheiro nas fraudes no INSS, lavar em apostas e ele mesmo ser dono de bets.

Quando a PF agiu, o banco retirou o nome de Flávio da conta. Ele alegou “cadastro indevido” feito pelo amigão (não o Daniel Vorcaro), Willer Tomás.

Os GoodFellas dividem muitos segredos até do jatinho de luxo. Flávio voltou da Flórida num Legacy 650 compartilhado entre a Alcazar Holdings (de Willer) e a Prime You (empresa de aeronaves que teve Daniel Vorcaro, do Banco Master, entre os sócios). A rede de Willer ainda se liga a imóveis frequentados por Flávio.

No papel, o império dos GoodFellas é uma piada. O advogado colocou sua empregada doméstica como dona de empresas no CNPJ. À polícia, ela admitiu: “Sou é doméstica aqui”. No instituto ligado a um filme negociado por Flávio e Vorcaro, o tesoureiro formal era um eletricista autônomo, que confessou ter apenas “emprestado o nome”.

A podridão abraça Daniel Vorcaro, claro. Muito além de pedir dinheiro, mensagens de Vorcaro conectam negócios de Willer com empresa suspeita de agenciar mulheres em situação de guerra para  festas, chamadas de “escravas” e “creche”, e citações a uma refugiada ucraniana. As passagens saíam da Prime You. Nas conversas, advinha só, surge Kassio Nunes Marques, presidente do TSE e ministro do STF, como frequentador e destinatário de favores. O Banco Master pagou milhões a consultorias de amigos do ministro, e R$ 300 mil chegaram ao filho dele. Indicado ao STF por Jair Bolsonaro, com apoio de Flávio e Willer, Nunes Marques votou depois para anular as provas das “rachadinhas”.

É o manual de proteção do clã, alerta Porchat. Jair Bolsonaro admitiu trocar o comando da PF no Rio para proteger a família, e a Abin produziu relatórios “para defender FB”. Queiroz foi achado na casa do advogado Wassef.

O ICL e o humor desenharam o organograma real em que Flávio está no centro, empresários no jatinho, a doméstica no CNPJ, o eletricista na tesouraria e o ministro garantindo a impunidade.

Quem senta à mesa da Globo com Flávio divide o prato com quem compartilha a Prime You e a Alcazar. E quem insiste na falsa equivalência divide a vergonha da omissão.

Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.

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