DAVI MOLINARI
As bandeiras da Copa mal tinham saído do teto do Fale Mais Sobre Isso e as faixas de Lula já disputavam os mesmos ganchos. A democracia brasileira não guarda ressaca: troca a camisa amarela pelo panfleto vermelho e parte para a próxima prorrogação.
– Finalmente já podemos pedir voto abertamente – comemorou Juvenal, equilibrando uma porção de manjubinhas que João e Maria haviam frito com a precisão de um Datafolha na véspera da eleição.
Num canto, destoando da decoração, o Laranjão vestia a camisa da Argentina e usava uma motosserra de brinquedo. Ainda sem superar a derrota na Copa, celebrava a presença de Javier Milei na convenção do PL.
– Cuidado para não cortar o próprio pescoço, disse Juvenal em referência ao aparelho que Laranjão carregava.
Tentei me acomodar diante do Doutor, mas meu corpo rejeitava a física daquela cadeira.
Ele me observou por cima dos óculos, com o ar clínico de quem preferia examinar um surto de piolho.
– O que se passa, meu analisado? – perguntou Juvenal.
– Estou com dores.
– Onde?
– Em todo lugar. Músculos, costas, alma. Não sei se é crise renal, dor ciática ou o peso de duzentos anos de República mal construída caindo sobre minha lombar.
O Doutor arqueou a sobrancelha e sacou o indefectível bloquinho.
Conheço bem a dor física. Já enfrentei pedra no rim, apendicite e boleto vencendo em domingo de feriado. A dor física é honesta: avisa que algo pifou e pede providência. A dor moral é um deboche. Não aparece no raio-X, zomba do analgésico e se instala entre a vesícula e a cidadania.
Juvenal renovou a rodada.
– Essa dor começou quando?
– Quando assisti à convenção que oficializou Flávio Bolsonaro candidato à Presidência.
O Laranjão levantou o polegar da outra mesa. Fingi que era um mosquito e ignorei.
– Foi por causa do Milei? – perguntou Juvenal.
– Não só. Milei veio ao Brasil participar de um comício e atacar Lula, presidente do país que o recebeu. É a diplomacia de cabeça para baixo: entregaram nossa soberania para a extrema direita internacional fazer palanque. Mas o golpe final foi o avatar de Jair Bolsonaro.
O Doutor congelou a caneta no ar.
Impedido pela Justiça de fazer manifestações políticas, Jair Bolsonaro apareceu no telão por meio de uma cópia criada por inteligência artificial.
Primeiro, o vídeo avisou que aquilo não era ele, mas uma simulação. Logo depois, a simulação abriu a boca para falar exatamente como ele:
– “Estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária” – bradou o fantasma digital.
O algoritmo atacou o STF, jurou inocência e pediu apoio para o herdeiro:
– “Sangue do meu sangue, meu filho Flávio.”
Juvenal apoiou a bandeja no quadril.
– Quer dizer que o pai estava impedido de falar, mas o boneco de pixels podia fazer campanha?
– É a nova mágica da inteligência artificial: o cidadão finge obedecer à Justiça enquanto o avatar avacalha a decisão.
– Dependendo da tela – arrematou Juvenal –, o homem está calado em casa e berrando no comício.
O Doutor escondeu um sorriso atrás da mão.
– Se essa moda pega – continuei –, todo mundo vai passar a mão no Judiciário. O réu cumpre prisão domiciliar enquanto seu avatar faz campanha, ataca juiz e ainda pede uma tornozeleira virtual com Bluetooth.
Na TV, Flávio prometia honrar a família e garantia que o pai colocaria nele a faixa presidencial em janeiro. O programa de governo parecia uma certidão de nascimento: o pai escolhe o filho, o filho liberta o pai e a República paga a festa das astronautas.
Da mesa ao lado, o Laranjão deu um pulo:
– ¡Viva la libertad, carajo!
– Sente-se, Laranjão – cortou Juvenal. – A Argentina perdeu a Copa e você continua passando vergonha em dois idiomas.
O salão veio abaixo.
O Laranjão sentou-se, humilhado em espanhol.
Pela janela, vi passar um ônibus lotado e lembrei da semana de cão no transporte de São Paulo: trem pegando fogo, linhas paradas e milhares de trabalhadores mergulhados no caos.
Essa dor não ganhou telão em 4K.
Não mereceu discurso emocionado.
Não recebeu a solidariedade do populista argentino.
A convenção preferiu o sofrimento da família Bolsonaro: a dor do pai, o drama do filho e o calvário do avatar.
– Eles reconhecem a própria dor de olhos fechados – observou Juvenal. – Só não encontram empatia pela dor dos outros.
– Porque a dor deles rende poder, dinheiro, conexões com bilionários. A nossa é só atraso na linha de trem privatizada.
Uma convenção deveria discutir emprego, saúde, educação e transporte. Aquela era uma reunião de família convocada para transformar o Palácio do Planalto na sede da Cosa Nostra.
Não havia projeto de país.
Havia um plano de fuga.
Juvenal recolheu um copo vazio.
– Ou recuperamos a vergonha – concluí –, ou viramos o país da Justiça nua com a mão no bolso na esquina.
O Doutor fechou o bloquinho com um estalo seco.
Ele me olhou por cima dos óculos e disparou sua única frase:
– O avatar é o álibi perfeito do narcisista: fala por ele, mente por ele e o livra de reconhecer a própria culpa.
Juvenal colocou a última travessa de manjubinhas no centro da mesa.
Crocantes, douradas e perfeitas.
Mas ninguém teve estômago para a primeira mordida.
E não é que o Laranjão ligou a motosserra de brinquedo?
– Quem é capaz de fabricar um brinquedo deste tipo? Pensei em voz alta.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CII. Enviado pelo autor.









