DAVI MOLINARI
Quando cheguei ao Fale Mais Sobre Isso, minha mesa havia desaparecido.
No lugar onde eu e o doutor instalávamos nossa clínica clandestina de happy hour, havia quatro argentinos, seis bandeiras, um tambor e uma reprodução de Maradona grande o suficiente para pedir música no Fantástico.
Encontrei Juvenal na porta.
– Minha mesa foi sequestrada?
– Foi promovida para a calçada – apontou para fora.
Nossa mesa estava espremida entre um vaso de espada-de-são-jorge e o apontador do jogo do bicho, que fazia contas num caderno tão pequeno quanto a margem de segurança de suas apostas.
O doutor já estava sentado, observando a invasão hermana por cima dos óculos, com a serenidade de quem sabe que fronteiras são ilusórias, mas argentino ocupando mesa alheia é um fato geopolítico concreto.
Sentei-me.
– Estou deslocado, doutor.
Ele inclinou a cabeça.
Juvenal pousou dois chopes com a precisão de quem acopla uma nave à estação espacial. Em seguida, trouxe as manjubinhas que João e Maria preparavam com o asseio de quem ainda acreditava no progresso da civilização.
– Deslocado por causa da mesa? – perguntou.
– Da mesa, do país, do século e, em alguns dias, da espécie.
O doutor retirou o bloquinho do bolso. Mau sinal.
– Já não compreendo os valores vigentes, Juvenal. Antigamente, para ensinar medicina, o sujeito estudava medicina. Para recomendar investimento, o guru precisava saber a diferença entre ação e ação penal.
– Já entendi – antecipou-se. – Hoje basta um celular, uma luminária circular e começar o vídeo gritando: “Vocês não estão preparados para esta verdade!”
Imitou aquela influenciadora em prisão domiciliar.
– O problema é o charlatão ou quem quer ser enganado?
O doutor levantou a sobrancelha direita.
O apontador do bicho ergueu os olhos.
– O esperto só existe porque o otário também quer ser esperto – filosofou, anotando o milhar da avestruz.
Na mesa ao lado, Laranjinha, o playboy tardiamente reconhecido pelo bilionário Laranjão, explicava a dois estudantes que aprendera geopolítica num vídeo de quarenta segundos do TikTok. Defendia que democracia demais atrapalhava o mercado.
Laranjão, dono da cobertura mais cara do bairro, administrava a porção de frango a passarinho das estudantes como se fosse o teto de gastos.
– Três pedaços para cada um. Meritocracia.
– Mas o senhor comeu oito! – protestou uma delas.
– Gestão eficiente.
Ali estava o Brasil numa bandeja: quem comia oito ensinava moderação a quem recebia três.
– Até a Seleção está deslocada – continuei. – Depois do fiasco, apenas dois convocados voltaram no voo da delegação. O resto fugiu para as férias.
– Nem para darem satisfação – resmungou um advogado ao fundo, sufocado numa gravata verde-amarela.
Juvenal completou:
– Neymar apareceu na Disney num carrinho elétrico. Nada contra a Disney, mas o sujeito que deveria carregar a esperança nacional terminou carregado por um veículo de parque temático. Nosso homem-gol não anda nem de brincadeira.
O doutor anotou.
Nesse instante, o telão mostrou Flávio Bolsonaro lendo uma carta atribuída ao pai, que o apresentava como porta-voz oficial e pedia votos para sua candidatura.
Parei com uma manjubinha na boca.
– Porta-voz?
Juvenal baixou a bandeja. Laranjinha aumentou o volume.
– Silêncio!
Na Globonews, o comentarista dizia que o pai, inelegível e condenado pela Justiça, impedido de circular livremente pela política, circulava por procuração.
Olhei para Juvenal.
– É o efeito laranja. Nas rachadinhas, o laranja empresta o nome. Na política do clã, empresta a candidatura.
– Flávio não é original – emendou Juvenal. – É uma fraude autenticada do golpista, com firma reconhecida.
O bar explodiu em risos.
– Presidente Laranja! Um candidato querendo governar como ventríloquo de alguém impedido de governar a própria agenda – gritou João, brotando da cozinha.
Os estudantes riram. Laranjão não. Talvez tivesse se reconhecido no método.
– Por essas e outras me sinto desencaixado – disse, tentando retomar minha sessão, mais pública que boato de desvio de emenda parlamentar.
O doutor me encarou.
– Acho que descobri o que está me sufocando. Tenho medo de estar errado por ainda achar que honestidade é qualidade, num ambiente em que até uma candidatura à Presidência pode virar um engodo consentido.
O bar silenciou. Juvenal parou. João e Maria surgiram na porta da cozinha. Até os argentinos diminuíram o tambor.
– Hoje, quem não passa o outro para trás é chamado de ingênuo. Veja os donos das Lojas Americanas. Quem frauda e enriquece vira herói do empreendedorismo. Se rouba uma galinha, é ladrão; se frauda bilhões, dá palestra sobre governança corporativa.
O apontador fechou o caderno com um estalo.
– Nesta era, doutor, o dinheiro não compra apenas o veredito. Compra também a amnésia coletiva.
O doutor guardou o bloquinho, ajeitou os óculos e finalmente falou:
– Seu sofrimento não é desencaixe social, mas resistência psíquica: você se recusa a recalcar a própria ética para caber numa sociedade que transformou a perversão em norma.
Ninguém disse nada.
Juvenal, tocado pelo diagnóstico, recolheu os copos e trouxe outra rodada por conta da casa. Na mesa invadida, os argentinos voltaram a cantar.
O apontador ergueu o copo, olhou para o telão e concluiu:
– Esse candidato-laranja pode até enganar bobo no Instagram, mas toda a internet sabe que ele é uma zebra. O golpe tá aí, cai quem quer.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – C. Enviado pelo autor.










