DAVI MOLINARI
O Fale Mais Sobre Isso estava virado do avesso.
Cheguei atrasado à sessão semanal. Não por resistência ao tratamento, mas porque a avenida havia desaparecido debaixo de uma multidão.
Um oceano de gente comemorava a vitória de Lula. Bandeiras vermelhas se misturavam às verde-amarelas, estudantes se abraçavam com desconhecidos e até os mais desafinados reivindicavam o direito constitucional de cantar.
Atravessei aquele mar humano com a sensação de participar da História. Pela primeira vez, minha insignificância parecia ter alguma importância.
Queria contar isso ao Doutor.
Ele estava no lugar de sempre, óculos na ponta do nariz, barba grisalha impecável, contemplando a euforia com a serenidade de um monge budista que acabara de receber o resultado de um exame de próstata.
Na cozinha, Juvenal tentava convencer Maria a descansar.
– Vá pra casa, mulher! A senhora está trabalhando desde ontem!
– E perder a festa? Vou me aposentar daqui a dois anos!
Um grupo de estudantes de Direito e Economia a cercou, prometendo defender sua aposentadoria.
– Esses meninos vão garantir meus direitos! – comemorou Maria.
– Tomara – respondeu Juvenal. – Porque economista, quando começa a fazer conta, até a esperança entra no ajuste fiscal.
Juvenal apareceu cantarolando Bella Ciao, com duas tulipas e a tradicional porção de manjubinhas.
– Meu Analisado! Pensei que a multidão fosse engolir sua timidez!
– Juvenal, hoje me senti parte de alguma coisa maior. Como se finalmente compreendesse meu lugar na sociedade.
O Doutor ergueu os olhos. Farejou material clínico.
– Isso é Jung na veia, meu Analisado! Você está vivendo o arquétipo do Herói. Atravessou a multidão, enfrentou seus medos e descobriu que pertence ao mundo!
– Achei que fosse apenas dificuldade de atravessar a rua.
– É o começo da individuação! Você está deixando de ser figurante da sua própria vida.
– Pelo menos não sou daqueles que passam a existência inteira obedecendo ao pai para não perder a proteção.
Juvenal interrompeu a cantoria.
– Aí já entramos no complexo paterno. Conheço um caso gravíssimo. O paciente tem 45 anos, mandato de senador e ainda precisa da autorização simbólica do papai para escolher o próprio destino. Até para fugir.
– Flávio Bolsonaro?
– O próprio. Um homem que herdou o sobrenome, o eleitorado, os inimigos e agora até a dificuldade de reconhecer uma derrota.
Olhei para a televisão.
Flávio que havia contestado o resultado da eleição, escafedeu-se.
– Mas isso vai além do complexo paterno, Juvenal. Existe uma estrutura política por trás desse comportamento. Uma história de aproximações com milicianos, homenagens a personagens do crime e culto à violência. Não é apenas um filho querendo agradar ao pai. É o filho de olho no império criminoso do pai.
– Claro! – respondeu Juvenal. – É uma empresa familiar de ressentimentos. O patriarca fornece a Sombra, o filho administra a herança e o eleitor recebe o boleto emocional.
– Jung chamaria isso de identificação com a Sombra?
– Não exatamente. Mas aqui no boteco a gente simplifica. O problema é quando o sujeito transforma aquilo que deveria reconhecer e superar em modelo de virtude.
Laranjão apareceu à porta, indignado, envolto numa bandeira americana.
– Essa eleição foi roubada!
– O senhor votou? – perguntou Juvenal.
– Não!
– Então roubaram até o seu voto imaginário. É mais um caso para a Interpol!
Alguns estudantes gargalharam. Laranjão desapareceu, levando consigo a bandeira e a dignidade, ambas bastante amarrotadas.
Voltei-me ao Doutor.
– É curioso. Lá fora, milhões de pessoas celebram o direito de decidir o próprio futuro. E aqui estamos discutindo alguém que parece incapaz de construir o seu destino sem reproduzir o passado do pai.
O Doutor fechou o bloquinho. Ajustou os óculos e finalmente falou:
– O problema de quem vive à sombra de um pai autoritário é transformar a submissão em virtude, a herança em destino e a violência em ideal.
O silêncio durou o suficiente para uma manjubinha esfriar.
– E agora? – perguntei. – O filho vai seguir o caminho do pai?
Juvenal recolheu os copos.
– Meu Analisado, por enquanto, o malandro seguiu o caminho do Eduardo, fugindo pela janela, traindo os brasileiros e os próprios eleitores. Já a cadeia depende da Justiça.
Fez uma pausa e concluiu:
– Mas o desprezo nacional, ele acabou de conquistar.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CXIV. Enviado pelo autor.










