ONU aprova novo mapa-múndi que corrige distorções contra a África

À esquerda, a África no mapa Mercator e à direita, o continente no novo mapa da ONU. (Foto: Reprodução)

As distorções no mapa atual levaram a que África e América Latina fossem submetidas a uma “minimização simbólica” pelo viés colonialista. Isolado, EUA foi o único a votar contra

A Assembleia Geral da ONU aprovou na sexta-feira (4), por 164 votos a favor, um contra e seis abstenções, uma resolução para deixar de usar oficialmente o mapa-múndi de Mercator – que data de 1569 – e substituí-lo por outro mais fiel ao tamanho real dos continentes, especialmente da África, acabando assim com as distorções históricas nos mapas globais.

Com o apoio esmagador de 164 votos a favor, seis abstenções (Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia) e apenas um voto contra, o dos Estados Unidos, o organismo internacional aprovou a medida liderada pela delegação do Togo em nome do grupo africano e com o apoio da União Africana (UA) adotando o mapa Terra Igual (Equal Earth), no momento em que o ocupante da Casa Branca, Donald Trump, promoveu decretos para renomear territórios emblemáticos em várias partes do globo.

O novo modelo corrige distorções do mapa de Mercator, que amplia as regiões mais próximas aos polos e reduz visualmente continentes como a África e América Latina. Por exemplo, na projeção atual, a Groenlândia parece ter tamanho semelhante ao da África; no entanto, o continente africano é cerca de 14 vezes maior que o território que fica no norte do continente americano.

O texto da resolução argumenta que as distorções no mapa atual levaram a que a África fosse submetida a uma “minimização simbólica” no imaginário coletivo.

Além disso, observa “com preocupação que essa distorção contribui para minimizar a dimensão percebida da África, da América Latina e do Sul da Ásia, e perpetua uma visão desequilibrada do mundo”.

A MEDIDA É UMA DEFESA DA “VERDADE CIENTÍFICA”

A resolução defende o modelo “Terra Igual”, adotado pela União Africana, que procura representar as dimensões dos continentes com maior precisão. O texto recomenda a sua adoção por governos e organizações internacionais.

Para o ministro das Relações Exteriores de Togo, Robert Dussey, a medida representa uma defesa da “verdade científica”. “Não se trata apenas de corrigir um mapa, mas de corrigir a percepção. Um mundo justo começa com um mapa justo”, afirmou antes da votação.

Segundo a resolução, mapas “moldam a percepção do mundo e o imaginário coletivo dos povos” e suas distorções podem reproduzir “vieses históricos”.

Anteriormente, Moky Makura, diretor executivo da África No Filter, uma das entidades que lideram a iniciativa, utilizou palavras igualmente contundentes em sua argumentação: “O tamanho atual do mapa da África está errado”, salientou, afirmando que a projeção de Mercator representa a “mais longa campanha de desinformação do mundo” e que “simplesmente precisa acabar”.

Estados Unidos, único país que rejeitou a resolução, hipocritamente argumentou que ela promovia uma “agenda ideológica” e desviava a atenção dos “verdadeiros problemas de paz internacional, prosperidade ou boas relações”. Já o Togo, em vez dessa negação, pretende ser o primeiro país a revisar seus livros didáticos de geografia de acordo com a iniciativa antes do final do ano.

RÚSSIA DEFENDE O COMBATE “ÀS PRÁTICAS NEOCOLONIAIS”

Em declaração na ONU, a representante permanente adjunta da Rússia, M.V. Zabolotskaya, afirmou que a reprodução desse modelo por décadas ajudou a criar uma percepção distorcida das dimensões dos continentes.

Moscou ligou a distorção cartográfica ao passado colonial do Ocidente. “A persistente reprodução de uma representação desproporcional do continente africano passou naturalmente a ser percebida como mais um elemento de um paradigma passado no qual o lugar e a importância da África foram minimizados”, afirmou.

A diplomata destacou ainda que a resolução não busca definir uma projeção “correta”, mas incentivar representações mais adequadas para fins educacionais e informativos.

“A Rússia defende consistentemente a superação do legado do colonialismo e o combate às práticas neocoloniais”, concluiu Zabolotskaya, acrescentando que Moscou apoia os esforços africanos para “restaurar a justiça histórica” e fortalecer o papel do continente na ordem multipolar.

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