A rede norte-america de exibição Cinemark passou a usar uma brecha da Cota de Tela para fraudar a finalidade da política pública criada para fortalecer o cinema brasileiro, multiplicando sessões vazias de “Zuzubalândia – O Filme” em horários sem público apenas para inflar artificialmente as metas exigidas pela Ancine e liberar espaço nas salas para blockbusters estrangeiros.
O mecanismo da Cota de Tela obriga exibidoras a reservar parte da programação anual para produções nacionais. No caso da Cinemark, a exigência corresponde a 16% das sessões realizadas ao longo do ano. Embora a legislação não proíba formalmente a repetição massiva de um mesmo filme, o caso expõe uma fraude à finalidade da regra: em vez de formar público para o cinema brasileiro, a prática transforma a política cultural em mera contabilidade burocrática.
Questionada, a Cinemark afirmou que não comenta a Cota de Tela e alegou que as dezenas de exibições diárias de “Zuzubalândia” fazem parte do Projeto Escola, programa em que instituições de ensino podem reservar salas inteiras mediante pagamento.
A empresa, porém, não explicou qual a relação específica entre o filme e a ação, já que o regulamento prevê que qualquer obra com classificação indicativa adequada pode integrar o projeto. Um gerente da rede afirmou que todos os títulos da grade podem ser usados no programa, citando inclusive produções estrangeiras como “Super Mario Galaxy: O Filme” e “O Diabo Veste Prada 2”.
Apesar de a assessoria não admitir oficialmente o uso do longa para cumprir a Cota de Tela, funcionários de unidades da Cinemark relataram que a orientação interna é justamente programar “Zuzubalândia” nas primeiras sessões do dia para atingir as metas exigidas pela norma.
Em alguns complexos, a operação chega a seguir um esquema específico: as unidades abrem às 10h30, exibem “Zuzubalândia” entre 11h e meio-dia, fecham novamente as portas logo depois e retomam as atividades apenas por volta das 14h. As sessões se concentram de segunda a sexta-feira, justamente nos horários de menor demanda.
Em uma unidade da Cinemark em São Paulo na quarta-feira passada quatro salas exibiam simultaneamente o filme ao meio-dia. Nenhuma delas tinha espectadores. O cinema ainda estava em processo de abertura, e uma funcionária que limpava uma das salas demonstrou surpresa com a presença da equipe da Folha de S. Paulo. Em seguida, apagou as luzes da sala, embora o projetor já estivesse ligado.
Os números reunidos pela Ancine revelam o tamanho da distorção. A pedido da reportagem, a agência compilou os dados de “Zuzubalândia” e identificou 17.237 sessões do filme programadas pela Cinemark em todo o país neste ano. Apesar disso, apenas 1.882 pessoas assistiram à animação — média de 0,1 espectador por sessão.
No Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, plataforma da Ancine que reúne dados de bilheteria e exibição, as sessões de “Zuzubalândia” sequer aparecem registradas por uma questão técnica. O filme possui apenas uma hora de duração, dez minutos abaixo do mínimo necessário para ser classificado como longa-metragem.
Ainda assim, a Cinemark encontrou uma brecha na redação da regra, que determina apenas que a programação seja “formada, predominantemente, por obra de longa-metragem”.
O secretário de regulação da Ancine, Leandro Mendes, afirmou que o órgão avalia o caso e considera aceitar a inclusão do filme nas metas da Cinemark devido à pequena diferença de duração da obra.
“Notamos essa fragilidade na norma, e precisamos fazer adaptações para regular, mas a venda de ingressos está menor se comparada ao período pré-pandemia”, declarou Mendes. “A gente também não pode obrigar o exibidor a quebrar o seu cinema. Pedimos para dialogar com a Cinemark, mas não me parece que eles estão fazendo isso de má-fé”, afirmou sobre a multinacional sediada no Texas, líder do mercado brasileiro.
Mesmo sem violar formalmente a legislação, a prática é vista por críticos como uma fraude regulatória: a rede aparenta cumprir a política pública enquanto esvazia completamente seu objetivo real. A lógica da Cota de Tela é ampliar a circulação e a formação de público para o cinema nacional — não criar sessões fantasmas em salas vazias apenas para preencher metas numéricas.
A curta duração de “Zuzubalândia” ajuda a explicar por que a Cinemark escolheu justamente este título. Como o filme termina rapidamente, as salas podem ser reutilizadas mais vezes ao longo do dia, reduzindo o impacto sobre a programação principal e liberando espaço para produções estrangeiras de maior apelo comercial.
Na prática, a regra atual permite que grandes redes concentrem dezenas de sessões de um mesmo filme brasileiro em poucos meses e fiquem desobrigadas de ampliar a presença do cinema nacional em períodos estratégicos do ano. Em dezembro, por exemplo, os novos filmes de “Vingadores” e “Duna” prometem monopolizar grande parte das salas.
A reportagem analisou a programação de outras redes em São Paulo, como Cinépolis, UCI Cinemas e Kinoplex, e não encontrou casos tão extremos quanto o de “Zuzubalândia”, embora filmes nacionais continuem majoritariamente empurrados para horários menos nobres, antes das 17h.
O cumprimento da Cota de Tela é fiscalizado pela Ancine, que reconhece estar ciente da prática da Cinemark, mas afirma não prever punições à exibidora. Como resposta às críticas, a agência publicou nesta quarta-feira uma instrução normativa criando bonificações para sessões exibidas após as 17h.
Além disso, a Ancine decidiu ampliar a pontuação para filmes premiados em festivais selecionados. Antes restrita à categoria de melhor filme, a bonificação agora passa a considerar também prêmios de melhor ator, atriz, direção e roteiro.
“A cota deveria pensar na pluralidade do cinema brasileiro, e está longe de fazer isso”, afirmou Daniel Queiroz, distribuidor de obras independentes como “No Coração do Mundo”.
Queiroz também criticou o novo modelo de bonificação adotado pela Ancine. “É complicado isso de serem só os premiados. Poderia valer para os filmes que foram exibidos nos festivais, apenas”, disse o diretor, que participou da comissão consultiva responsável pelas medidas.
A repetição massiva de “Zuzubalândia” também é favorecida por um acordo exclusivo firmado entre a Cinemark e Mariana Caltabiano. Segundo a diretora, 70% da bilheteria líquida ficam com a rede, enquanto os 30% restantes são destinados à produção — modelo diferente do padrão tradicional do mercado, em que as exibidoras normalmente ficam apenas com metade da arrecadação.
Caltabiano afirmou que optou pelo acordo após experiências negativas com distribuidoras tradicionais. “Minha sugestão é que outros produtores infantis brasileiros comecem a fechar diretamente com a Cinemark, sem intermediários. Isso aumenta as chances de bilheteria”, declarou, sem revelar os valores envolvidos.
A diretora disse ainda que não sabia que seu filme estava sendo usado como instrumento da Cota de Tela, mas afirmou não enxergar problema no fato de a obra continuar sendo exibida.
Mesmo assim, o tratamento dado a outras produções brasileiras evidencia a distorção criada pela estratégia da Cinemark. Enquanto “Zuzubalândia” teve mais de cem sessões em um único dia em São Paulo, “Velhos Bandidos”, comédia estrelada por Fernanda Montenegro, registrou apenas 44 exibições na mesma quarta-feira.
Já “Rio de Sangue” teve 22 sessões, enquanto “O Advogado de Deus” apareceu com 18. Em contraste, a cinebiografia de Michael Jackson, em sua terceira semana em cartaz, ultrapassou 250 sessões na rede.
Para Adhemar Oliveira, responsável por um dos cinemas de rua mais tradicionais de São Paulo, a lógica da Cota de Tela deveria servir para fortalecer efetivamente o cinema nacional. “Sou defensor não da cota, mas do produto brasileiro. E o produto brasileiro não difere dos outros em termos de qualidade.”











