Poucos dias depois de dezenas de milhares de pessoas ocuparem as ruas de Madri para protestar contra o despejo da idosa de 87 anos, María del Carmen Abascal, conhecida pelo apelido Maricarmen, os espanhóis receberam uma notícia positiva: ela poderá voltar para casa após chegar a um acordo com o proprietário do imóvel, segundo a Agência Reuters.
Maricarmen, que morava em um apartamento no centro de Madri, foi despejada na quarta-feira (23), apesar dos esforços de centenas de pessoas que haviam passado a noite em frente ao prédio tentando impedir a retirada, e dos milhares que passaram a noite acampados na Puerta del Sol, a principal praça de Madri, incluindo famílias de várias gerações, que se juntaram a eles, segundo a Associated Press.
Abascal está atualmente internada no Hospital Gregorio Marañón, para onde foi levada em uma maca imediatamente após ser retirada do apartamento. Ela deve permanecer no local por alguns dias enquanto aguarda exames médicos e planeja assinar o acordo assim que estiver melhor, disse a sua advogada, Beatriz Duro, à CNN.
A idosa aluga a casa há mais de 70 anos. Era um contrato antigo, pelo qual ela pagava cerca de US$ 568 por mês. No entanto, tudo mudou quando a empresa imobiliária Urbagestión Desarrollo e Inversión adquiriu a propriedade do edifício.
Pouco depois, o novo proprietário passou a exigir um aluguel até quatro vezes maior, embora ela receba uma aposentadoria de US$ 1.478, segundo informou a União dos Inquilinos de Madri à CNN.
EXIGEM PROTEÇÃO A INQUILINOS E PROIBIÇÃO DE DESPEJOS
Os manifestantes exigiram maior proteção aos inquilinos e, expressando sua indignação com as dificuldades cada vez maiores para encontrar moradia, pediram a proibição de despejos quando não houver outra opção de moradia disponível.
Manifestações de solidariedade também ocorreram em outras cidades, como Barcelona, Sevilha e Valência.
Pelo acordo conseguido com essa luta, o proprietário do imóvel concordou em cobrar de Maricarmen um aluguel semelhante ao que pagava anteriormente, sob um novo contrato de oito anos, afirmou Beatriz Duro em entrevista coletiva, segundo a Reuters.
Antes do novo acordo, Abascal havia falado com apoiadores por meio de um vídeo, depois de ser transferida para o hospital, e incentivado que eles continuassem “lutando” por suas casas.
“Eu não consegui defender minha casa, mas lutei para que outras pessoas aprendam a lutar pelas delas”, disse, quando ainda as negociações aconteciam. “Minha casa foi minha vida. E agora tenho que deixá-la para trás. Mas isso não significa que não continuarei lutando”, garantiu.
“Por favor, lutem”, pediu aos apoiadores. “Mando um grande abraço a todos vocês e agradeço por tudo”.
Abascal morava no mesmo local desde 1956. No apartamento, localizado próximo ao Parque El Retiro, ela cresceu e viveu com os pais até herdar e assumir o contrato de aluguel deles.
DURANTE ANOS A IMOBILIÁRIA TENTOU EXPULSAR A IDOSA
Diante da situação do despejo, a advogada Beatriz Duro havia apresentado um pedido de proteção ao Tribunal Constitucional e um recurso ao Supremo Tribunal, mas ambos foram rejeitados. Ao mesmo tempo, a Urbagestión entrou com uma ação para executar o encerramento do contrato e recuperar a posse do imóvel, o que resultou em até quatro tentativas de despejo.
Em março de 2020 a empresa imobiliária entrou com uma ação para pedir o encerramento do contrato de aluguel e não conseguiu. Em 2022, de novo. Em outubro de 2025, a equipe de defesa de Abascal conseguiu suspender o despejo graças a uma norma que permite isso quando a parte que solicita a retirada é uma pessoa jurídica, disse Duro.
Em junho de 2026, quando outra data foi marcada, o despejo foi suspenso por quase um mês devido à situação de vulnerabilidade da inquilina — ela não tinha outra moradia. Com isso, a retirada foi novamente adiada para julho, mas Duro recorreu mais uma vez da decisão.
Durante esse período e até a aprovação do despejo, a rede de apoio de Abascal fez esforços significativos para negociar com a Urbagestión e encontrar soluções que evitassem a retirada. Entre outras medidas, a advogada afirmou que houve uma mediação por meio da Casa 47, agência estatal de habitação, para que a instituição comprasse o apartamento e o alugasse a ela por um preço mais razoável.
Na terça-feira (22), antes do despejo, uma pessoa anônima se ofereceu para pagar parte do aluguel. A empresa imobiliária, porém, não demonstrou interesse em nenhuma das alternativas propostas, segundo a advogada, até recuar no final do mês de setembro.
A CRISE HABITACIONAL DA ESPANHA
As dificuldades para ter acesso à moradia — seja para comprar ou alugar — não são novas na Espanha. Os protestos se multiplicaram nos últimos anos, e a pressão aumentou sobre as autoridades locais de Madri e o governo nacional liderado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez.
O descontentamento decorre da alta dos preços dos imóveis e é sentido principalmente nas grandes cidades. Em Madri, por exemplo, o aluguel quase dobrou em uma década, passando de US$ 14,55 por metro quadrado em agosto de 2016 para US$ 26,49 em agosto de 2026, segundo dados do site imobiliário Idealista.
Esses preços contrastam fortemente com o salário médio anual do país, que em 2025 era de cerca de US$ 33.600, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.
Em outras palavras, com base nesses números, uma pessoa que decida alugar um pequeno apartamento de 50 metros quadrados na capital gastará cerca de US$ 15.894 por ano com moradia, o equivalente a quase metade do salário médio.
Esse peso financeiro compromete a capacidade de poupar e arcar com outras despesas. O UN-Habitat, programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos, estima que, para que um aluguel seja considerado acessível, menos de 30% da renda deve ser destinada à moradia.











