Putin na China: os 30 anos de uma “parceria estratégica coordenada”, por Elias Jabbour

Putin é recebido de forma calorosa pelo presidente Xi Jinping (Foto: reprodução)

ELIAS JABBOUR *

Devemos observar com mais detalhe esta visita, a vigésima quinta, do mandatário russo à China. Desde o ano de 1996 quando foi celebrada a parceria estratégica coordenada, até o anúncio recente de uma “parceria sem limites”, o mundo mudou em um sentido inédito. Em primeiro lugar, a base material dos países do Sul Global alcançou um novo patamar, exigindo mudanças na governança global e em suas instituições, que ainda se mantêm praticamente intactas desde o final da Segunda Guerra Mundial. China, Índia, Rússia, Brasil, México, África do Sul e outros países passaram por intensos processos de desenvolvimento, enquanto o Norte Global perdeu capacidade de acompanhar a velocidade dos acontecimentos.

A crise financeira de 2008 deixou claras as deficiências da governança global não somente para evitar crises econômicas de grandes proporções, mas também para se reinventar diante de um mundo em mutação. O surgimento dos BRICS e do Novo Banco de Desenvolvimento foi uma resposta a este desafio. E as relações entre China e Rússia foram se tornando, em meio ao aumento das turbulências globais, uma verdadeira âncora de estabilidade e um paradigma para uma ordem multipolar e uma diplomacia baseada no respeito à soberania.

A relação entre China e Rússia é marcada pela maturidade e pela resiliência de uma parceria definida pelo respeito mútuo aos interesses centrais e às principais preocupações de cada lado, além da cooperação mutuamente benéfica, enquanto ambos seguem caminhos de desenvolvimento adequados às suas próprias condições nacionais. A verdade é que guiadas pela liderança e pelas visões estratégicas dos dois chefes de Estado, as relações entre os dois países vêm avançando continuamente para níveis mais elevados e se expandindo para dimensões mais amplas, servindo como modelo para as relações entre grandes potências na nova era. Desde 2013, os dois líderes se encontraram mais de 40 vezes em ocasiões bilaterais e multilaterais.

Em um mundo cada vez mais instável, as palavras do presidente Putin em sua chegada à China chamam a atenção. Segundo o mandatário russo, “as visitas mútuas regulares e as conversas do mais alto nível entre a Rússia e a China são uma parte importante e integrante de nossos esforços conjuntos para promover as relações em todos os aspectos entre nossos dois países e liberar seu potencial verdadeiramente ilimitado”.

Há dois exemplos disso. 1) A estabilidade desta relação pode ser observada no impulsionamento de intensos intercâmbios culturais, fortalecendo ainda mais a compreensão mútua e a amizade entre os povos dos dois países. Os “Anos da Educação China-Rússia”, iniciados neste ano, deverão contar com centenas de eventos de intercâmbio, dando continuidade ao sucesso de anos temáticos anteriores dedicados à cultura, aos esportes e à inovação científica e tecnológica; e 2) as políticas mútuas de isenção de visto facilitaram significativamente os intercâmbios entre as populações dos dois países. Segundo a Associação de Operadores Turísticos da Rússia, mais de 150 mil turistas chineses visitaram a Rússia no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 44,4% em relação ao ano anterior, enquanto as viagens de russos para a China cresceram 33,6% em 2025.

Sob o prisma do comércio exterior, destacamos que as trocas bilaterais têm atingido patamares recordes. Os dois países movimentam anualmente cerca de US$ 230 bilhões, com mais de 99% das transações liquidadas diretamente em rublos e yuans. E é nessa forma de comércio baseada em uma moeda local que reside, talvez, o caráter mais estratégico da relação bilateral na medida em que o dólar tem se transformado em uma verdadeira arma contra muitos países do Sul Global, inclusive a Rússia. O paradigma do comércio em moedas locais ganha grande impulso com China e Rússia operando fora do sistema dólar.

Do ponto de vista internacional, uma das características desta relação é o apoio ao fortalecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) como polo central da governança global em detrimento da política de força e imposição de sanções e outras formas de coerção unilateral. A multipolaridade é o oposto do atual estado de coisas na ordem internacional. China e Rússia demonstram que a história deverá se impor e que um mundo mais justo e orientado pelos interesses gerais dos países e dos povos poderá se concretizar.

Neste sentido, sábias são as palavras de Xi Jinping na mensagem enviada a Putin para felicitar a chegada do novo ano de 2025: “Diante do cenário global em rápida evolução e da turbulenta situação internacional, a China e a Rússia sempre trabalham em conjunto, trilhando o caminho correto de não alinhamento, não confrontação e que não visa a terceiros.”


* Professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Escrito em cooperação com o Grupo de Mídia da China

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