Professor Daniel Ossa valoriza política de ganho real dos salários, redução do desemprego e da informalidade, implantada pelo presidente Gustavo Petro e condena “política neoliberal” estabelecida pelo Banco Central
O último levantamento do mercado de trabalho colombiano aponta que o governo de Gustavo Petro está certo ao investir na política de ganho real do salário mínimo para ampliar a renda e o consumo, que tem reduzido a taxa de desemprego e a informalidade.
Esta é a conclusão do economista pela Universidade Nacional da Colômbia, Daniel Ossa, para quem esses são dados eloquentes que constam do informe do Departamento Administrativo Nacional de Estatísticas (Dane), divulgado em fevereiro.
Em entrevista para o semanário La Voz, Daniel Ossa esclareceu que enquanto a teoria dominante tenta nos vender que o salário mínimo é a causa do desemprego, “os números demonstram uma realidade que não se comporta como o modelo prevê”.
“Há dois fatores que ajudam a explicar os números. Um deles é o gasto público e o investimento social durante este governo, que representaram uma injeção de dinheiro e maior atividade econômica. E o segundo é o aumento do salário mínimo, que sem dúvida estimulou a economia”, assinalou.
AUMENTO SALARIAL DE 23% NESTE ANO
Sobre a crítica dos setores ultraconservadores de que o aumento salarial estaria destruindo o emprego formal, o professor convocou os leitores à reflexão. “As evidências mostram que o aumento salarial de 23%, que superou a inflação e o crescimento da produtividade, não provocou um aumento no desemprego ou na informalidade; na verdade, essas tendências são de queda. A informalidade está abaixo da média nacional, em 55,3%, o que significa que essa redução ocorreu principalmente no setor formal. Os dados contradizem essa narrativa”, ironizou.
Conforme Daniel Ossa, “é inegável que a taxa de desemprego de 9,2% em fevereiro de 2026 é a mais baixa de todo o milênio”. E exemplificou: “é interessante analisar o setor de trabalhadores autônomos, que inclui tanto trabalhadores formais quanto informais que não são empregados por um empregador, mas sim realizam seu próprio trabalho. Essa população vem diminuindo como percentual do emprego total; ou seja, no início de 2021, esse número era de 46,38% e atualmente está em 41,21%”.
Por outro lado, um dado não mencionado é o que está acontecendo no setor manufatureiro: “comparando 2025 e 2026, o emprego nesse setor cresceu 5,31%”.
Questionado sobre uma das “críticas da oposição” de que muitos empregos se devem a um pretenso “crescimento do setor público”, o professor sublinhou que “isso não é verdade”. “Os empregos governamentais, em percentagem do total, têm caído ao longo destes quatro anos. Em 2022, aproximadamente 5% dos trabalhadores eram funcionários públicos. De acordo com as informações mais recentes disponíveis, a percentagem é de 3,8%, mesmo bem abaixo da média dos últimos 15 anos, que é de 4,3%”, informou.
RELATÓRIO PROGRESSISTA APONTA QUEDA NO DESEMPREGO
O professor recordou que esse fenômeno de aumento salarial e queda do desemprego já havia acontecido antes na Colômbia. “ Em um relatório que estou preparando para o Instituto de Pensamento Progressista, ao analisar a história do salário mínimo no país, encontrei um precedente histórico. Durante o governo de Alfonso López Michelsen, o primeiro presidente depois da Frente Nacional, havia uma enorme disparidade entre os salários urbanos e rurais. Durante esse governo, ocorreu a greve geral de setembro de 1977, e uma das reivindicações do movimento era um aumento de 50% no salário mínimo”.
Naquele momento, o governo respondeu com o aumento, que, em termos reais, foi de 62% nas áreas urbanas e 134% nas áreas rurais. “E, ao contrário do que a teoria predominante sugeria, o desemprego caiu consideravelmente. Em 1976, era de 12% e diminuiu gradualmente, caindo de 10,5% em 1978 para 5,2% em 1985. Em outras palavras, o que estamos vendo agora com o governo Petro – aumentos significativos no salário mínimo e diminuição do desemprego – já era observado na Colômbia durante as décadas de 1970 e início de 1980”, lembrou.
AUMENTO DE JUROS DESESTIMULA A ECONOMIA
Daniel Ossa foi contrário à recente decisão do Banco Central de elevar a taxa de juros para 11,25% tendo como argumento o aumento de 23% no salário mínimo. “A taxa de 11% influencia todas as outras taxas de juros da economia. Em outras palavras, se alguém for contrair um empréstimo bancário, comprar uma casa ou obter um financiamento imobiliário, a taxa de referência será muito alta”, alertou. Para o professor, com isso “o BC está desestimulando a economia”. “Aliás, a terminologia que utilizam é a de que a economia está superaquecida e a decisão de elevar a taxa visa arrefecê-la. As consequências serão a diminuição do consumo, a desaceleração do crescimento e o provável aumento do desemprego. A economia irá desacelerar”, condenou.
Na prática, isso significa “evidentes objetivos divergentes” entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central. “Enquanto o governo tem um conjunto de metas para o desemprego, o Banco Central tem outro para a inflação. E é aí que se faz necessária uma maior coordenação entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda. Idealmente, a política monetária estabelecida pelo BC deveria estar alinhada à política promovida pelo governo”, apontou.
Assinalando que “o Banco Central está errado. A taxa de juros deveria ter sido reduzida ou, pelo menos, mantida”. Na sua avaliação, “o argumento deles é que as expectativas de inflação começaram a subir após o aumento do salário mínimo. Essa conclusão vem de pesquisas que realizam com grandes empresas, principalmente do setor financeiro”. “Essa percepção pode ser entendida como uma profecia autorrealizável. As empresas acreditam que a inflação vai subir e, para se prepararem, aumentam os preços de seus produtos, o que acaba elevando a inflação real”, agregou.
“INDEPENDÊNCIA DO BC É IMPLEMENTAÇÃO DO NEOLIBERALISMO”
Efetivamente, relevou o professor, é que “a ideia de independência do Banco Central foi introduzida como uma das reformas da ‘nova arquitetura institucional’ com a implementação do neoliberalismo”. Nesta acomodação ultraconservadora, “a visão predominante era de que o BC deveria ser independente justamente para manter os níveis de inflação baixos”.
”Acredito que essa arquitetura institucional tem um custo bastante elevado”, compreende Odessa, pois favorece alguns setores mais do que outros, já que “ao separar a política monetária da política fiscal e conceder essa independência ao Banco Central, a capacidade do governo de agir para atingir determinados objetivos fica limitada”.
Diante deste dilema, “o arranjo institucional em torno do BC precisa mudar”, acredita o professor, “e deve ser direcionado para uma maior flexibilidade, a fim de melhor coordenar as políticas monetária e fiscal”. Afinal, “os objetivos do banco não devem ser apenas a inflação, mas também o desemprego”.
Próximo ao término do mandato de Petro, Daniel Odessa salienta que é preciso “reconhecer o progresso alcançado na redução da pobreza e da desigualdade, e na melhoria da distribuição de renda”, realçando que “desafios significativos permanecem, como o desenvolvimento industrial, que é fundamental para reduzir o desemprego e a informalidade”.
“Há também a questão da política fiscal. Para isso, precisamos de um pacto em que diferentes setores da sociedade, principalmente os mais ricos, se comprometam a pagar impostos mais altos”, grifa, apontando para uma política tributária mais progressiva a fim de garantir a sustentabilidade dos gastos sociais.
“Mas o que mais gostei neste governo foi que ele fez as pessoas conversarem sobre economia, um tema valioso para a democracia e a sociedade”, concluiu.











