Relatório expõe espionagem de bolsonaristas e ataques contra CNBB e a Igreja Católica

Santuário de Nossa Senhora Aparecida - Foto: Divulgação

Um relatório produzido pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recupera um histórico de ataques de setores da extrema direita contra a Igreja Católica e revela que, em 2020, 152 bispos foram espionados por uma estrutura instalada dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), conhecida como “Abin paralela”.

O levantamento reúne 58 episódios registrados desde 2018 e foi apresentado nesta segunda-feira (28) a bispos e integrantes da CNBB. As informações foram publicadas pelo Brasil de Fato, que teve acesso ao documento.

A espionagem ocorreu pouco depois de os religiosos assinarem a “Carta ao povo de Deus”, em junho de 2020, na qual criticavam a condução do governo Jair Bolsonaro diante da pandemia de Covid-19. Segundo o relatório, no mês seguinte, os nomes de 152 bispos apareceram entre os alvos da estrutura de espionagem da Abin.

O episódio é parte de uma sequência de ataques que, de acordo com o levantamento da CBJP, atingiu a entidade religiosa, seus dirigentes e iniciativas pastorais ao longo dos últimos anos. O documento registra acusações de associação da Igreja ao PT e ao comunismo, ataques à Campanha da Fraternidade e tentativas de desqualificar a atuação dos bispos.

A atual ofensiva contra a CNBB voltou a ganhar força depois que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, acusou integrantes da CNBB de terem ajudado o PT a disseminar uma suposta “fake news” sobre Nossa Senhora Aparecida.

A acusação foi feita depois da circulação de informações segundo as quais Flávio pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A campanha do senador negou a intenção e acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra publicações que associavam seu nome à mudança.

Flávio, porém, atacou frontalmente a CNBB. Em uma declaração durante uma carreata em Goiânia (GO), afirmou que pessoas “de dentro da CNBB” teriam participado da divulgação da informação, que classificou como a “maior fake news dessa campanha”.

A CNBB rebateu a mentira. Em nota divulgada no domingo (27), a entidade afirmou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. Também declarou não integrar partido, candidatura ou qualquer estrutura político-partidária.

“A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou a conferência, ao defender que suas manifestações no período eleitoral estão relacionadas à sua missão pastoral e a princípios presentes em seus documentos, como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.

O relatório da CBJP mostra que a ofensiva contra a CNBB não começou durante a atual campanha eleitoral. Entre os episódios registrados está um vídeo produzido em fevereiro de 2018 pelo blogueiro Bernardo Kuster, no qual a CNBB é associada à esquerda e ao PT. A Campanha da Fraternidade também foi apresentada por ele como uma iniciativa supostamente “politizada”.

Meses depois, em outubro de 2018, Jair Bolsonaro afirmou que a CNBB era “a parte podre da igreja Católica”. Em 2019, ataques passaram a atingir diretamente o então presidente da entidade, dom Walmor Oliveira de Azevedo, chamado de “petista” e “dilmista” em conteúdos que também o acusavam de seguir a Teologia da Libertação.

No mesmo ano, Eduardo Bolsonaro publicou nas redes sociais que a esquerda teria se infiltrado na religião católica “principalmente através da CNBB”.

A Campanha da Fraternidade aparece diversas vezes no levantamento como alvo de campanhas de boicote. Segundo a CBJP, houve mobilizações para que católicos deixassem de contribuir com a coleta realizada durante a iniciativa.

O relatório também registra ataques feitos por outros nomes ligados à extrema direita. Em dezembro de 2020, o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) chamou a CNBB de “antro de comunistas”. Durante a eleição de 2022, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, foi alvo de ataques nas redes sociais por aparecer usando roupas vermelhas em sua foto de perfil, numa tentativa de associá-lo ao PT.

Outro episódio citado no documento ocorreu após a divulgação da “Carta ao povo de Deus”, em 2020. O blogueiro Rodrigo Constantino passou a chamar a CNBB de “Conferência Nacional dos Bispos BOLIVARIANOS”.

O levantamento da CBJP organiza esses e outros episódios em uma cronologia de 58 ocorrências. Segundo o documento, os ataques têm em comum acusações de que a CNBB estaria vinculada à esquerda, ao PT ou ao comunismo, além de questionamentos sobre sua atuação pastoral e campanhas promovidas pela Igreja.

O documento também corrobora denúncia do bispo de Nossa Senhora do Livramento (BA) e integrante da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB, Dom Vicente Ferreira. Pelas redes sociais nesta segunda-feira (28), o religioso acusou Bolsonaro de espionar lideranças da CNBB. “O pai disse que a CNBB é a parte podre da Igreja Católica. Inclusive, vigiou bispos”, denunciou Dom Vicente. 

A difamação feita agora por Flávio Bolsonaro contra a Conferência ocorre justamente quando bispos de diferentes regiões do país têm se manifestado sobre princípios que consideram fundamentais no processo eleitoral, como democracia e soberania, sem declarar apoio a candidatos.

A reação do senador não é casual. O histórico de posições de Flávio Bolsonaro e de sua família é marcado pelo confronto com princípios defendidos pela CNBB, o que ajuda a explicar a virulência do ataque contra a entidade. Ao disparar contra os bispos por defenderem valores democráticos e a soberania nacional, Flávio acabou vestindo a carapuça.

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