Reportagem denuncia esquema ilícito de Flávio na caótica gestão de hospitais federais do Rio

O Cardoso Fontes agora é da Prefeitura do Rio (Foto: Fernando Frazão - Agência Brasil)

Ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP) chamou Flávio de “o poderoso chefão” dos hospitais federais no governo do pai. Foi durante a pandemia. Nova denúncia escancara, mais uma vez, o descaso do clã Bolsonaro e do seu candidato à Presidente com a saúde pública

Reportagem publicada pela Agência Pública denuncia mais um enrosco do candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, entre os tantos já conhecidos pela população brasileira, dessa vez sobre sua nefasta e temerária influência na rede de hospitais federais do Rio de Janeiro durante a pandemia, a partir de 2019.

O fato mais notório que chamou a atenção na reportagem foi a troca na direção do Bonsucesso: Luana Camargo foi afastada após uma festa de aniversário do hospital orçada em R$ 156 mil, e o ministro Luiz Henrique Mandetta efetivou o médico Paulo Cotrim.

A mudança foi criticada publicamente por Flávio Bolsonaro, dizendo que não tivera participação na nomeação e que teria desaconselhado. Cotrim foi exonerado menos de um mês depois e substituído por Cristiane Jourdan.

Conforme a apuração, os seis hospitais federais do Rio conviveram, entre 2019 e 2022, com precariedade e contratos com preços acima do mercado, apesar da pandemia que matava milhares de brasileiros todos os dias, enquanto o hoje candidato pelo PL passeava de lancha no Lago de Sul de Brasília com lobistas da vacina Covaxin, ladeados por prostitutas, conforme matérias difundidas por vários órgãos de imprensa, não desmentidos por Flávio Bolsonaro.

Ainda segundo a reportagem, diagnóstico do Ministério da Saúde de fevereiro de 2023, mostra que 72% dos recursos da rede – R$ 50,3 milhões por mês – iam para custeio, como limpeza, vigilância e rouparia. No Bonsucesso, contratos de apoio administrativo teriam margens de lucro até 561% maiores que o acordado, e o hospital teve cinco diretores em quatro anos. O documento também registra que trocas de direção coincidiam com o fim de contratos, o que levava a novos contratos emergenciais.

Posteriormente, o relatório final da CPI da Covid registra que 30% dos leitos clínicos e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da rede federal na capital permaneceram fechados durante a pandemia, a maioria por falta de profissionais, embora pudessem atender pacientes.

Em março de 2021, eram 650 leitos impedidos. No fim de dezembro de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados e a Medida Provisória (MP) 1.022 prorrogou só 1,4 mil, por 60 dias, quadro que a CPI considerou decisivo para agravar o atendimento. No Bonsucesso, dos 240 leitos reservados à Covid, havia em maio de 2020 apenas 18 internados e 17 na emergência.

A CPI também identificou prática frequente de dispensa de licitação seguida de aditivos, mas ressalvou ter tido pouco tempo para investigar e enviou documentos ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Tribunal de Contas da União (TCU).

A saúde fluminense teve outro episódio na esfera estadual. Em 30 de abril de 2021, o Tribunal Especial Misto confirmou por unanimidade o impeachment do governador Wilson Witzel, então aliado de Flávio Bolsonaro, por irregularidades em contratos da pandemia.

Os julgadores apontaram atos ilícitos na requalificação da OS Unir Saúde e na contratação da OS Iabas para hospitais de campanha. Witzel nega as acusações. O caso é distinto da rede federal, embora a CPI tenha partido da premissa de que esquemas descritos pelo MPF no governo estadual pudessem ter se repetido nela.

RELATÓRIO DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

Em abril de 2023, visita da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, a pedido do deputado Daniel Soranz (PSD-RJ), ainda encontrou emergência fechada no Bonsucesso (126 dos 411 leitos impedidos) e pacientes em macas nos corredores do Cardoso Fontes.

Desde então, a gestão deixou de ser direta do Ministério da Saúde em cinco das seis unidades. O Hospital de Bonsucesso passou ao Grupo Hospitalar Conceição (outubro de 2024); Andaraí e Cardoso Fontes, à prefeitura (dezembro de 2024); o Servidores, à Ebserh/UNIRIO (dezembro de 2025); e a Lagoa, à Fiocruz (2026). Só Ipanema segue com o ministério. Segundo a Pública, o orçamento anual da rede subiu de cerca de R$ 800 milhões para R$ 2 bilhões. O ministério informa 335 leitos reabertos, 16 salas cirúrgicas reativadas e alta de 30% nas cirurgias (21.869 em 2025).

MINISTRO DA SAÚDE

Segundo a Agência Pública, em maio, durante inauguração na Fiocruz, o ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP) chamou Flávio de “o poderoso chefão” dos hospitais federais no governo do pai. Em entrevista à Pública em setembro, ele repetiu a expressão e detalhou: “Era, de fato, o poderoso chefão dos hospitais federais. Passava por ele a indicação de quem seria diretor e todas as decisões relacionadas a hospitais e contratos. Ele montou um esquema de rachadinha política com a ocupação dos cargos e provocou um desmonte. Todos os contratos de terceirizados tinham funcionários fantasmas. Um contrato de limpeza falava em 200 postos de trabalho, quando a gente olhou só havia 50 pessoas trabalhando”.

Ainda de acordo com a reportagem, em março de 2026, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) acusou publicamente o senador de liderar um esquema nos hospitais federais fluminenses. “Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”, afirmou.

Como já era esperado, Flávio Bolsonaro foi procurado pela Agência Pública e não retornou para explicar a gravidade da denúncia.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *