São Paulo debaixo d’água, ruas alagadas, população enfrentando transtornos e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) onde? Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, fazendo dancinha ao lado de Flávio Bolsonaro (PL), em mais uma agenda da campanha presidencial do filho de Jair Bolsonaro. Se a capital paulista precisava de um governador, o que apareceu foi um candidato a bailarino em excursão eleitoral.
A cena foi registrada na quarta-feira (14), enquanto cidades paulistas enfrentavam os estragos das fortes chuvas. Em vez de acompanhar de perto os problemas do estado que governa, Tarcísio preferiu emprestar seu entusiasmo à campanha do senador. O governador que deveria estar atento aos alagamentos encontrou tempo para ensaiar passos e posar para os eleitores bolsonaristas. Prioridades, afinal, são uma questão de coreografia.
Em suas redes, a jornalista e influenciadora Edna Gomes resumiu a situação com ironia. “Enquanto São Paulo estava debaixo d’água, onde estava o governador Tarcísio de Freitas? No Rio Grande do Sul, no ato flopado de Flávio Bolsonaro, fazendo a dancinha de apoio”, criticou.
“Uma cena emocionante: a capital alagando e o governador disputando espaço na coreografia”, ironizou Edna. A jornalista também relacionou o espetáculo à votação da proposta de fim da escala 6×1. “No dia da votação da PEC 6×1, Flávio dançando em vez de estar ao lado do trabalhador preferiu a dancinha e o Tarcísio no papel de bailarino”, afirmou.
Para Edna, a cena resume as prioridades da extrema direita: “A extrema direita tem talento: transforma qualquer palanque em prioridade e deixa o povo sofrer”.
Flávio também tem sua própria contradição. Depois de classificar o fim da escala 6×1 como uma proposta “inoportuna e eleitoreira”, anunciou que votaria a favor após cobranças públicas do presidente Lula e de outras lideranças, acuado pelo medo de perder votos no segundo turno. Com a pauta ganhando força entre os trabalhadores, o senador parece ter percebido que se opor à redução da jornada poderia custar caro nas urnas. Mudou de posição, registrou o voto favorável a distância e foi dançar em Porto Alegre. Para lacrar na campanha, disposição não faltou; para acompanhar presencialmente as quase sete horas de discussão no Senado, não apareceu.
Segundo reportagem do Jornal de Brasília publicada nesta sexta-feira (16), Tarcísio também intensificou sua atuação na campanha de Flávio após ser reeleito no primeiro turno, em 4 de outubro. Enquanto sua agenda oficial registrou compromissos em apenas dois dias desde a eleição, o governador viajou a Brasília para discutir estratégias eleitorais, participou de atos de apoio ao senador e trabalhou para reunir partidos em torno da candidatura bolsonarista.
O Governo paulista afirmou, em nota, que Tarcísio mantém o acompanhamento permanente da gestão, com reuniões e despachos administrativos, e que sua participação em eventos de campanha não prejudica as demandas estaduais. As manifestações nas redes sociais, porém, mostram a insatisfação de parte da população com a postura do governador.
Telespectadores da Rede TVT ironizaram a lacração do governador em meio aos alagamentos e cobraram responsabilidade de quem foi eleito para governar São Paulo. “Poderiam transmitir essa dancinha em um telão dentro do túnel (Anhagabaú), pra todos ver o quão preocupado ele está com os Paulistanos”, escreveu um internauta. Outros lembraram que Tarcísio foi reeleito no primeiro turno e criticaram a escolha dos eleitores: “O povo quis, agora aguentar a consequência”.
Houve ainda quem comentasse: “Esse é o governador que o povo escolheu”. As manifestações também expressaram indignação com a repetição dos problemas de infraestrutura. “E ainda vão falar que o problema é climático e não infraestrutura”, ironizou um telespectador. A chuva pode ser um fenômeno natural, mas prevenção, drenagem urbana e resposta do poder público não são tarefas que se resolvem com passos ensaiados diante das câmeras.
Enquanto a população enfrenta os efeitos da chuva, o governador dedica tempo e energia à campanha de outro político. E, quando o cargo exige presença e ação, a coreografia não substitui a administração.
No clássico Singin’ in the Rain (Cantando na Chuva), a chuva faz parte do espetáculo. Na versão paulista de Tarcísio, porém, o espetáculo acontece longe das ruas alagadas. Para o povo, é Suffering in the Rain – sofrendo na chuva. Para o governador, é Singing in the Campaign – cantando e dançando na campanha de Flávio Rachadinha.
JOSI SOUSA











